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Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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desprincesamento

 

Numa coisa todo o mundo concorda: a riqueza de uma língua é medida, em grande parte, pelo número de vocábulos que ela oferece a seus falantes — assim como, em escala menor, a riqueza de cada um de nós se mede pelo número de vocábulos que conhecemos. No entanto, toda hora aparece, na minha caixa de correio, alguém que vem lamentar o nascimento de uma palavra nova. Nesta semana de Natal, um leitor que assina com o pseudônimo de Indignado vem manifestar — por que a surpresa? — a sua indignação com a palavra desprincesamento. “De onde saiu essa doidice? Os jornais publicam assim sem o menor pudor! Até dá para entender o que a palavra quer dizer, mas pode ser assim? É só inventar e pronto? Não se poderia criar um instrumento legal que regulamentasse essas novidades?”.

Meu caro Indignado, está na hora de revisarmos alguns princípios básicos que regem nosso léxico. Em primeiro lugar, não há, neste planeta, lei com poder suficiente para regulamentar o funcionamento de uma língua. O máximo que se consegue fazer é regulamentar a sua ortografia, que é uma pura convenção entre os usuários. Tentar legislar sobre o resto — a sintaxe, a criação de palavras, o sentido que elas têm, etc. — seria tão inútil como pregar aos peixes. No caso do léxico, então, a tarefa é impossível, pois é nele que melhor se enxerga o caráter infinito do idioma.

Ao contrário das sementes, as palavras jamais perdem o seu poder germinativo. No dicionário, em ordem alfabética, as centenas de milhares de vocábulos que ali repousam mantêm, intacta, a capacidade de gerar descendentes. Pardal, por exemplo, ali figurou, durante cinco séculos, como um simples passarinho; no momento em que resolveram assim designar os controladores de velocidade, a semente saiu de sua dormência e produziu pardalizar (as estradas), despardalizar, pardalização, despardalização… Ao contar aquela história em que Pedro Malasartes enche de moedas o fiofó de seu cavalo para enganar o fazendeiro rico e prepotente, um famoso poeta de cordel estampou na capa do folheto “O cavalo que descomia dinheiro”, evitando assim o c*gava do título popular. Aliás, por falar no tema, no tempo do presidente Figueiredo, uma lei sancionada teve de ser dessancionada para correção, sendo algumas horas depois ressancionada — dois novos galhos na árvore da palavra sanção foram criados no espaço de horas!

Aqui se inclui também o desprincesamento, palavra feinha que surgiu em contraposição a princesamento, outra novidade. Uma mãe em Curitiba achou importante e necessário abrir uma escola para ensinar às meninas aquelas artes e atitudes que, segundo ela, caracterizam uma verdadeira princesa; a iniciativa teve tanto sucesso que já se abriram várias filiais. Outras mães, ao contrário, vendo nisso uma submissão precoce das meninas a estereótipos de gênero, trouxeram do Chile a ideia de uma escola de desprincesamento, para incutir desde cedo nas garotas a consciência do novo papel da mulher na sociedade.

Como se pode ver, o processo é incontrolável; os vocábulos resultantes entram na implacável filtragem pelo uso e, aos poucos, vai-se vendo quais são as criações que já ingressaram na corrente sanguínea e quais vão ficar adormecidas, talvez para sempre. Gostar delas ou não, empregá-las ou não, criticá-las ou não — tudo depende da simples decisão de cada usuário. Para consolo do amigo Indignado, ofereço outra criação do mesmo quilate, o desencapetamento: já vi anúncio na internet oferecendo um “método fácil e eficaz para desencapetar um homemsexual“. Feliz Ano Novo!

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caquistocracia

 

Quando um regime privilegia um pequeno grupo de poderosos, quando as massas, conduzidas por líderes populistas, tentam se sobrepor às leis e às instituições, caímos na CAQUISTOCRACIA — o governo dos piores.

Às vezes meus amigos me convocam para servir de árbitro em alguma questão de linguagem. Desta feita, a discussão foi sobre a paternidade de caquistocracia, este desajeitado vocábulo que serve de título à coluna de hoje (e que já vou, sem demora, dissecar para meus leitores). Um dos lados alega que é um neologismo criado pelo professor Michelangelo Bovero, de Turim, que esteve em Porto Alegre numa das edições do Fronteiras do Pensamento; o outro atribui a criação do termo a um pensador argentino, Jorge Garcia Venturini, num artigo publicado na década de 70, anterior aos trabalhos de Bovero. Como já faz tempo que deixei de trabalhar de graça, fixei um preço para essa arbitragem; agora que ambos os contendores já pagaram o combinado (dois quilos de uma erva-mate muito especial e outras tantas voltas de lingüiça caseira), publico aqui o resultado de minha pesquisa.

O interessante da questão é que tanto Bovero quanto Venturini (ambos são cientistas políticos) alegam ser o pai legítimo de caquistocracia, palavrona criada para designar “o governo dos piores”, em oposição à aristocracia, que seria “o governo dos melhores” — mas nenhum dos dois tem razão. Eles são autores da segunda metade do século 20, e o termo já vinha sendo usado há mais de um século antes de nascer Venturini, que é o mais velho. Uma rápida passada pelo OED (o grande dicionário da Oxford — o maior monumento lexicográfico que conhecemos) mostra que o termo caquistocracia (em Inglês, kakistocracy) era usado desde 1826, enquanto o adjetivo da mesma família, caquistocrático (kakistocratical), já aparece em 1641. O fato de ambos se declararem, formalmente, inventores de uma palavra que já existia não depõe contra sua honestidade intelectual; são incontáveis os artistas e pesquisadores de renome que foram vítimas de criptomnésia, esta ilusão de ser o primeiro a formular uma determinada idéia ou a empregar determinado vocábulo quando, na verdade, estão apenas recuperando, na memória, um conteúdo que foi colhido na obra de outrem.

Para entender melhor a motivação que fez esta palavra nascer (seja lá quem tenha sido o seu criador), é necessário voltar, na Grécia antiga, à obra de Políbio, que morreu no ano de 125 A.C. Assim como todas as coisas estão sujeitas à degeneração, dizia ele,  assim também degeneram as formas de governo que podemos adotar. Assim como a ferrugem, para o ferro, ou o caruncho, para a madeira, são enfermidades internas que podem destruir esses materiais, cada um dos regimes políticos conhecidos traz consigo o risco de uma enfermidade que pode disvirtuá-lo: a monarquia, com o rei bom, pode degenerar em tirania (ou despotismo).  A aristocracia, em que mandam os mais sábios (de aristós, “o melhor” + cracia, “poder”), pode degenerar em oligarquia (de olígos, “pouco” + arquia, “autoridade”), o governo de poucos, ávidos predadores da sociedade. Finalmente, a democracia (de demos, “povo”) pode descambar para a oclocracia (de óclos, “multidão”), o governo da ralé que, controlada por demagogos, usa a força bruta para se sobrepor à lei e às instituições.

O bom Políbio preconizava, como preferível, um sistema político que misturasse as virtudes das três formas benignas (monarquia, aristocracia e democracia) para estabelecer um regime misto em que os melhores mandassem em nome do povo, mas nunca chegou a pensar, como fez Bovero, na possibilidade oposta — um regime em que viessem a se combinar as características das três formas degeneradas (tirania, oligarquia e oclocracia). Afinal, Bovero, que é nosso contemporâneo, acompanhou a dissolução política que caracterizou a Itália de Berlusconi e viu nascer esse sistema — hoje tão próximo do Brasil e de seus vizinhos —  que mistura a cega violência da massa, a oligarquia dos ricos e o autoritarismo quase ditatorial dos líderes demagógicos. Pois foi justamente para nomear esta sinistra combinação dos vícios e defeitos de todos os sistemas que lhe ocorreu (como já tinha ocorrido a outros, antes dele) juntar a cracia o elemento kakistos, “pior” (superlativo de kakos, “mau, ruim” — o mesmo que usamos em cacófato e em cacofonia). É claro que nem ele, nem Venturini, nem ninguém antes deles pode ser considerado o “pai” desta palavra. Caquistocracia nada mais era do que um vocábulo que já existia virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera, apenas, de que a vida real produzisse as condições necessárias para que alguém a empregasse. É assim que a língua funciona.

Depois do Acordo:
lingüiça>linguiça
idéia>ideia

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O nome das coisas

Como se chamam aqueles três dedos do pé que ficam entre o dedão e o minguinho? Você sabe? E qual é o nome daquelas pequenas células que recheiam os gomos da laranja ou da tangerina? Você sabe?

Depois que aprende a falar, a criança leva certo tempo até perceber que nem todas as coisas que a cercam têm um nome. Às vezes, a constatação deste fato atinge a pequena criatura como um verdadeiro choque existencial, como pude testemunhar, certa feita, na casa de um amigo meu. Sua filhinha de cinco anos, que acabava de aprender os nomes dos dedos da mão, divertia-se em repetir a eterna listinha do fura-bolos, pai-de-todos, seu-vizinho, etc., enquanto nós dois, o pai dela e eu, mateando, vigiávamos uma bela paleta de porco que assava na churrasqueira. Lá pelas tantas, porém, a pequena interrompeu sua falinha para nos perguntar como se chamam os dedos do pé. Meu amigo fugiu miseravelmente da raia, a pretexto de procurar o sal grosso, e ela voltou os olhos para mim, convencida, na sua doce inocência infantil, de que um adulto como eu deveria conhecer a resposta a essas perguntas essenciais da existência.

Ora, soubesse eu naquela época o que hoje sei sobre as crianças, teria dito que eu precisava procurar no Grande Livro dos Pés, ou que ela tinha o direito de batizar os seus dedinhos assim como fazia com suas bonecas, e ela teria ficado feliz e satisfeita. Infelizmente, eu era ainda muito verde e me limitei a informar didaticamente à baixinha que nem tudo neste mundo tem um nome, e que entre o dedão e o minguinho vivem três dedos intermediários que ficarão anônimos para sempre porque não representam símbolo algum, nem desempenham individualmente (que eu saiba) funções tão especializadas quanto furar um bolo ou matar um piolho. Não sei bem o que se passou naquela alminha, mas, pelo olhar magoado que me lançou, percebi que tinha cometido uma indiscrição tão desastrada quanto revelar o segredo do coelhinho da Páscoa.

Por não conhecer os limites da linguagem, ela tinha certeza de que acharia o que estava procurando; eu, por conhecê-los, muitas vezes deixo de procurar o que teria achado, se o fizesse. Andei, por exemplo, muito tempo no rastro de uma palavra perdida: pegue o leitor uma bergamota (serve também uma laranja), descasque-a e destaque um de seus gomos. Dentro deste gomo há milhares de pequenas estruturas individuais, perfeitamente isoláveis, com a forma aproximada de uma pequena gota. Qual é o seu nome? Ora, se o Malaio tem uma palavra para designar especificamente o espaço que temos entre os dentes, pensei, por que nossa língua não teria um nome para essas partezinhas? Na minha casa, chamavam ora de baguinhos, ora de gruminhos, mas eu tinha uma vaga lembrança de já ter ouvido uma palavra diferente. Como o Sua Língua estreava na internet, resolvi apelar para a memória dos leitores solidários: “Que nome vocês dão para aquelas gotinhas que recheiam os gomos da laranja ou da bergamota?”.

Não foram poucos os que responderam ao apelo; infelizmente, porém, como eu não tinha deixado bem claro o espírito da pesquisa, muitos compareceram com a informação correta, científica: trata-se do alvéolo dos cítricos, que constitui (outra informação) um “exemplo de célula que pode ser vista a olho nu”. Voltei a perguntar, desta vez esclarecendo que eu estava tentando recuperar o nome caseiro, já que ninguém ousaria avisar ao avô, por exemplo, que ele estava com um alvéolo de laranja preso no bigode. Pronto! Desta vez a tarrafa trouxe bom peixe: um leitor de Minas informou que a mãe, “que adorava abrir os gomos das laranjas, principalmente da laranja-lima, para saborear aquelas pequenas gotas cítricas”, chamava-as de garrafinhas. Vários confirmaram o emprego deste termo, principalmente no interior de São Paulo, sendo que um deles, escondido atrás do significativo pseudônimo de “Delfos”, fez uma indicação preciosa: “Procure no Monteiro Lobato”. Não deu outra: Lobato usa o nome garrafinha com absoluta familiaridade em seus livros Viagem ao Céu (“casulos que guardam as garrafinhas de caldo” — isto é, gomos”) e A Chave do Tamanho (“Desfizeram um gomo e levaram para o bar do parque as garrafinhas de caldo”). Finalmente, um professor do Paraná veio coroar a enquete com um belo exemplo de Pedro Nava: “A casca separava-se de uma vez e as garrafinhas se debulhavam logo que a faca afiada abria o gomo de fora a fora”. Estava encerrada a questão. Estava? Não mesmo: meses depois, um leitor de Cachoeira do Sul escreveu para dizer que, nos anos 60, essas gotinhas eram chamadas de melindres, “termo utilizado largamente”… — e lá se foram minhas certezas, inclusive quanto aos dedos do pé.

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Aproveito para informar aos amigos que nesta segunda-feira, dia 6 de agosto, inicio novas turmas da minha Revisão Geral de Português, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou em www.casadeideias.com.

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hétero, héteros

Como estou diariamente envolvido com dezenas de textos sobre gays e lésbicas, tendo em vista que realizo um trabalho específico nesta área, às vezes preciso referir-me às pessoas que não são gays e tenho que deixar isso claro no texto. Nestes casos, uso a palavra heterossexuais mas todos temos de convir que é muito grande, principalmente se comparada com gay, e fica pedante e cansativa se for repetida duas ou três vezes num trecho pequeno de texto. Assim, é muito comum as pessoas se referirem aos não-gays simplesmente como héteros. Minha dúvida é sobre a existência desta palavra e sobre a grafia correta, pois não sei se deve levar acento e posso flexioná-la em gênero e número como um adjetivo ou substantivo normal. Por exemplo: “Compareceram à Parada Gay milhares de gays e héteros, inclusive suas famílias”; “Eu achava que sua irmã fosse hétera mas ela mesma me confirmou que é gay (lésbica)”. Pergunto: a palavra hétero existe? Tem de ser escrita com acento? Aguardo sua resposta. Muito obrigado e um grande abraço.

Marcelo de A.

Meu caro Marcelo: um dos mais recentes processos de formação de palavras no Português é o que chamamos de redução: no momento em que algum vocábulo complexo, geralmente composto de elementos eruditos e científicos, passa a fazer parte do vocabulário quotidiano, há uma forte tendência a reduzi-lo para um padrão prosódico mais confortável. Assim, a fotografia virou foto, o telefone virou fone, a motocicleta, depois de passar por motociclo, virou moto. Observa como o mesmo não ocorreu com a caligrafia ou a filmografia, com o interfone ou o xilofone, exatamente pela pequena ocorrência desses vocábulos na linguagem usual (ao menos até agora). A meu ver, este processo de redução, extremamente produtivo no Francês, será cada vez mais comum em nosso idioma.

O vocábulo heterossexual era perfeitamente manejável na linguagem técnica, onde vivia recluso. No momento em que o termo entrou na língua do dia-a-dia, no entanto, passou a ser um trambolho prosódico, sofrendo a redução para hétero, proparoxítono, como observaste. A acentuação destes vocábulos “encurtados” segue a regra oficial; por isso, bíci (de bicicleta), ou deprê (de depressão). Não importa que a parte remanescente fosse, no vocábulo original, uma forma presa (geralmente elementos de origem grega ou latina) — ela agora passa a ser autônoma e independente. Já estamos acostumados a pornô, máxi, míni, múlti; o supermercado virou, em algumas regiões, o súper; a poliomielite já tornou-se pólio, e assim por diante — tudo isso no Português usual (mais ainda na linguagem específica de várias profissões; basta ouvir médicos conversando entre si para avaliar como o processo está mais adiantado).

Plural ele vai ter, naturalmente: héteros, como fotos, motos, máxis, pólios. Quanto à flexão dele no feminino, acho que ainda preferimos o seu uso invariável (uma militante hétero). No entanto, não me surpreenderia se fosse crescendo a tendência a transformá-lo em biforme (hétero, hétera), principalmente porque esse final em “O” inexiste em vocábulos femininos, com exceção apenas de libido e de tribo. O tempo dirá. Abraço. Prof. Moreno

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herbicidar?

Olá, Doutor Moreno: de início gostaria de parabenizá-lo pela belíssima página. Dúvidas no uso da nossa língua serão constantemente freqüentes, se considerarmos a dimensão dela, a nossa curiosidade, o resgate a expressões e o acréscimo de termos (que vemos constantemente acontecer). A dúvida que te trago nasceu de uma conversa com um colega agrônomo que crê ser herbicidar um verbo, que pode ser conjugado normalmente, descrevendo a ação de “matar ervas”. Disse-lhe que nem todo substantivo pode se tornar verbo e que correria menos risco de formar neologismo se falasse apenas “aplicar herbicida”. No entanto, precisamos de um voto credenciado e decisivo à questão. Um abraço. 

Fábio Maia

Prezado Fábio: obrigado pelo cumprimento; posso dar a vocês um voto credenciado, mas não decisivo, pois o saber humano é infinito em seu progresso. Como agrônomo, deves te sentir em casa com a idéia de que a língua é um organismo vivo e, como tal, tende para a economia de energia e de recursos. Se fizesse sentido criarmos um herbicidar (do ponto de vista morfológico, até que é um verbo viável), por que não teríamos homicidar, genocidar, infanticidar, pesticidar, parricidar, etc.? Comparando custo e benefício, verás que não vale o esforço (e o sistema lingüístico parece ter chegado à mesma conclusão). É significativo que o único verbo a surgir autonomamente foi suicidar-se, certamente por todas as implicações trágicas e excepcionais que cercam o ato. Embarcar veio de barco, mas hoje podes embarcar em trem, avião, carruagem, ônibus espacial e até numa fria. No tempo da Semana de Arte Moderna, os poetas (que não passavam, em sua maioria, de piadistas) usavam alegremente avionar, trenzar, etc. — mas nada disso vingou. Continuem a “aplicar o herbicida”, que é melhor. Aliás, nota que há uma disputa de significado aí nesse hipotético herbicidar: ele significaria “aplicar herbicida”, ou “matar ervas”? São coisas bem diferentes, como tu, mais do que ninguém, deves saber. Abraço. Prof. Moreno

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