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uma paradigma?

O gênero de um substantivo COMUM DE DOIS é definido pelo artigo que o acompanha:   O INTÉRPRETE e A INTÉRPRETE, O ARTISTA e A ARTISTA; já um substantivo SOBRECOMUM apresenta uma forma única, aplicável a ambos os sexos: A TESTEMUNHA (homem ou mulher). A qual desses dois grupos pertence o vocábulo PARADIGMA? E MODELO?

 

Assim que  recomeça a temporada dos concursos públicos, é natural que pipoquem por aqui algumas mensagens com perguntas extremamente específicas. A maioria eu respondo diretamente ao autor; uma que outra eu trago aqui, para compartilhar com vocês. Hoje eu trago a dúvida de Júlia K. (como regra de sobrevivência, sempre omito o sobrenome), concurseira de Florianópolis, que vai direto ao fígado: “Professor, paradigma é um substantivo comum de dois ou sobrecomum? Tenho um tratado de Direito do Trabalho, escrito por uma sumidade do ramo, que escreve uma paradigma. Pode isso?”.

Olha, Júlia, até pode ― mas depende do contexto, como vou explicar. Antes, porém, para proveito de todos, vou desconstruir tua pergunta (e não destruir, como alegou o advogado daquele megaempresário que, como dizem os lusos, está vendo o sol nascer aos quadradinhos…). Lembro, em primeiro lugar, que chamamos de comum de dois o substantivo que tem apenas uma forma (isto é, não flexiona), mas permite que se distinga o feminino do masculino com base no artigo, numeral ou pronome que o antecede: o/a policial, este/esta intérprete,  meu/minha cliente.

O substantivo sobrecomum, por outro lado, tem um gênero gramatical determinado (ele ou é masculino, ou é feminino), mas serve para designar pessoas de ambos os sexos. Um exemplo bem à mão é testemunha, vocábulo exclusivamente feminino (João é minha testemunha; as testemunhas da defesa são os onze jogadores do Palmeiras). Neste caso, se eu precisasse, por algum motivo, distinguir entre homens e mulheres, teria de lançar mão de outras palavras que fizessem o serviço: “As testemunhas femininas serão alojadas no colégio das freiras; as testemunhas masculinas ficarão no quartel”.

Ora, paradigma se enquadra neste último caso. Não custa lembrar que é um vocábulo masculino ― embora muita gente, por causa daquele “A” no final, caia na armadilha e escorregue, produzindo pérolas como “A literatura marginal tem por finalidade romper com as paradigmas estéticas vigentes”. Credo! Em segundo lugar, assim como seus colegas monstro, carrasco ou ídolo, entre outros, o termo é aplicável a ambos os sexos, indiferentemente: “Esta médica é um paradigma de honestidade” (assim como ela pode ser um modelo de eficiência ou um carrasco para seus subordinados).

Chegamos, finalmente, ao cerne da tua pergunta: “Uma paradigma? Pode isso?”. Pode, sim ― e exatamente no contexto do Direito do Trabalho, onde o empregado paradigma é o empregado que serve de base para a equiparação dos demais funcionários. O vocábulo, agora transfigurado, vai admitir flexão de gênero, marcando o feminino, se for o caso: “a paradigma indicada”, “designou uma paradigma falecida”, etc. É a mesma metamorfose que ocorre com modelo: “A médica é um modelo de eficiência”, mas “foi contratada uma modelo“, ou, como escreve L. F. Veríssimo, “Nenhuma modelo me fez mal, ainda. Mas elas simplesmente me apavoram. É aquele ar que elas têm”.

 

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Como se escreve Destaque Flexão nominal

xeica

Xeica - EDU

De uma leitora de Curitiba, Palmira G., veio a pergunta que hoje respondo com especial carinho (ela lecionou Português durante quarenta anos, e, mesmo aposentada, nunca deixou de ensinar o amor ao idioma aos filhos e aos netos): “Sempre que eles têm dúvida, recorrem a mim, mas dessa vez eu fiquei devendo: minha neta mostrou uma notícia que fala de uma xeica que veio nos visitar. Isso existe, professor? O senhor não acha horrível?”. Acho horrível, sim, dona Palmira, mas se a senhora acompanhar minha explicação, verá que existe uma hipótese muito, mas muito pior.

Vamos começar com sheik, termo de origem árabe que serve para designar uma autoridade cuja gradação pode ir do simples chefe de clã ou tribo até chegar a um príncipe ou mesmo a um rei. Em vários países islâmicos ― e, em especial, nos Emirados Árabes ―, as mulheres da mesma hieraquia recebem o título de sheikha. A notícia que a senhora leu seguramente devia tratar da sheikha Mozah bint Nasser Al Missned, esposa do emir do Catar, que esteve no Brasil no ano que acabamos de encerrar.

Como o Árabe usa um alfabeto que não é o romano, o vocábulo, ao ingressar no Ocidente, foi transliterado das mais diferentes maneiras: jeque (Esp.), sceicco (It.), Scheich (Al.), cheik (Fr.), sheikh (ou sheik, as preferidas do Inglês, embora o portentoso Oxford English Dictionary registre mais outras dezenove variantes). No Português, como não poderia deixar de ser, a forma tradicional sempre foi xeque  (adotamos sempre a letra X para essas transliterações: xampu, xerife, xarope, Xerazade).

Desde o séc. 16, as páginas de Camões, de João de Barros e de Fernão Mendes Pinto estão repletas de xeques, e assim vivemos muito bem até que Hollywood (e depois a rede Globo) puseram em voga por estas bandas o sheik do Inglês. Nos anos 20, as brasileiras suspiravam quando Rodolfo Valentino, o eterno latin lover, corria pelo deserto, com o albornoz ao vento, nos filmes O Sheik e O Filho do Sheik; quatro décadas depois, nos anos 60, foi a vez da TV brasileira reaproveitar o cenário “romântico” do deserto para lançar a novela O Sheik de Agadir, que fez um grande sucesso na época. Por influência direta dessa forma inglesa, terminou surgindo a variante xeique, menos usada mas também registrada nos bons dicionários.

Agora a senhora vai me entender: a esposa do emir de Catar vem ao Brasil; o repórter, no que fez muito bem, não quer usar a forma inglesa, com o seu exótico SH e, pior ainda, com o KH, cacófato próprio para piada. O que faz ele? Vai ao dicionário e encontra duas opções, xeque ou xeique. Como se trata, porém, de uma dama, ele sabe que precisa usar o vocábulo no feminino. E aí? Existe outra saída? A senhora terá de concordar que, afinal, até que xeica não é tão horrível assim…

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Destaque Flexão nominal Questões do momento

O feminino nos diplomas

Foi editada, há alguns dias, uma leizinha que torna obrigatória a distinção masculino/feminino nos diplomas e certificados de todas as instituições de ensino do País. Embora ela represente mais um pequeno degrau que subimos em direção à igualdade de gêneros, sua consequência para nosso idioma, ao contrário do que muita gente andou apregoando por aí, é igual a ZERO.

 

Há coisa de um mês entrou em vigor a Lei 12.605, que torna obrigatória a diferenciação masculino/feminino nas profissões e graus que constam nos diplomas e certificados expedidos por qualquer instituição de ensino desta incomparável Pindorama. Para uma leitora que perguntou se esta lei mudaria alguma coisa no uso que fazemos do idioma, sou obrigado a dizer, com franqueza, que não muda nada, ou pouco mais que nada. É uma lei pequenina, tanto no texto quanto nos efeitos: a partir de agora, se uma filha minha se graduar em Arquitetura ou Enfermagem, terá a merecida satisfação de ver que seu diploma não lhe confere o antipático título de “Arquiteto” ou de “Enfermeiro”, como ainda fazem muitas instituições de ensino bem conhecidas, mas sim o de “Arquiteta” ou “Enfermeira”.

É só isso? É. Do ponto de vista sociológico, a lei até poderá contribuir um pouco para arejar a burocracia acadêmica, geralmente tão conservadora nestas questões de gênero; do ponto de vista lingüístico, no entanto, ela faz tanto efeito quanto aplicar clister em defunto. Como ela dispõe apenas sobre a forma de redigir o texto dos diplomas e certificados, dirige-se exclusivamente aos secretários de escola, que os emitem, e não a simples mortais como nós, que os recebemos. Pode ser que a lei provoque alguma comoção nos departamentos de registros das universidades, que terão de abandonar sua inexplicável resistência em usar os femininos que a língua põe à nossa disposição — mas em nada vai afetar nossa linguagem usual, que felizmente sempre foi muito mais democrática que a linguagem petrificada dos diplomas.

Acredite, leitora: neste quesito, somos muito mais avançados que os franceses. Se sociedade brasileira ainda não oferece oportunidades idênticas aos dois sexos, ao menos nossa cultura sempre distinguiu o gênero das profissões. Aqui, no mundo real, a mulher que trabalha é professora, médica, ministra, técnica, reitora ou catadora de lixo, enquanto lá, no hexágono francês, ainda se cultiva a estranha tradição de empregar nomes exclusivamente masculinos. As combativas feministas francesas tentam criar e divulgar as formas femininas correspondentes, mas ainda é comum empregarem le ministre, le médecin ou le peintre tanto para homens quanto para mulheres. Sem conhecer o contexto, uma simples nota na coluna social como “le gendarme s’est marié en robe blanche”  vira um verdadeiro enigma, já que não sabemos (estamos no séc. 21, gente!) se foi A ou O policial que casou de vestido branco.

Esta lei vem se juntar a outra bem mais antiga, quase tão inócua quanto ela: em 1956, o presidente Juscelino assinou a Lei 2.749, ainda vigente, que torna obrigatório o uso do gênero feminino (quando houver) na denominação dos cargos públicos ocupados por mulheres. Seu alcance também é limitadíssimo, pois a ela só estão sujeitas “as repartições da União Federal”, as autarquias e os serviços “cuja manutenção dependa, totalmente ou em parte, do Tesouro Nacional” — ou seja, é uma norma interna do serviço público, semelhante à que estabelece o uso de gravata ou à que define o tamanho oficial dos envelopes. Em outras palavras, leitora, ela nada tem a ver com a linguagem que eu e você usamos.

Ora, por que os legisladores, nos dois casos, reduziram tanto o âmbito de aplicação de suas normas? Por que não tornaram a obrigação extensiva a todos os brasileiros? É simples: porque teriam assinado um atestado de burrice e seriam objetos de chacota eterna, aqui e fora de nossas fronteiras. Há muito tempo o Ocidente aprendeu que é o consenso dos falantes que regula o uso de uma língua, e que não há poder instituído que possa controlá-lo, como ilustra o conhecido episódio que ocorreu com Sigismundo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico: durante o Concílio de Constança,  em 1414, ele empregou como feminina a palavra cisma (que era neutra, no Latim, como é masculina, hoje, no Português). Ao ser advertido do erro, respondeu que, como imperador, ele podia muito bem decidir que cisma tinha trocado de gênero — ao que se levantou um arcebispo e lançou-lhe nas barbas a famosa frase “Caesar non supra grammaticos” (literalmente, “César não está acima dos gramáticos”), que deve ser lido como “O Estado não tem poder sobre as palavras”.

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Concordância Destaque Flexão nominal Lições de gramática Lições de gramática - Respostas rápidas

Um balaio de femininos

Assim como já fizemos com os plurais, aqui vai um balaio contendo vinte respostas rápidas sobre o feminino em nosso idioma.

 

elefanta, elefoa

Janaíne, de Belo Horizonte, quer saber se o feminino de elefante é elefanta ou elefoa. Diz que já assistiu a vários programas de televisão que consideram elefoa, mas nas gramáticas que consultou ela encontrou elefanta.

RESPOSTA — Minha cara Janaíne: nos textos clássicos não há registro algum de elefoa; alguns autores utilizam o feminino aliá, mas é um vocábulo oriundo do Ceilão e só se aplicaria ao elefante indiano. Tanto na linguagem culta quanto na usual a forma soberana é elefanta.

 

feminino de réu?

Fábio R. ouviu de uma colega que a mãe dela “poderia tornar-se ” num processo judicial, e quer saber se isso está correto — ou seria réu, ainda que se trate de uma mulher?

RESPOSTA — Meu caro Fábio: claro que existe o feminino! “Esta companhia é em doze processos trabalhistas”, “O juiz condenou a a dois anos de detenção”. Isso tu encontras em qualquer dicionário! Agora, em termos genéricos, falando nos dois pólos do processo, a mãe de tua amiga poderá figurar como réu: “Quem é o autor? A senhora Fulana de Tal. Quem é o réu? A senhora Beltrana dos Anzóis”.

 

anfitriã ou anfitrioa

O leitor Ubiratan diz que sempre tem ouvido anfitriã, mas que a forma anfitrioa lhe parece mais correta. E eu, o que penso?

RESPOSTA — Meu caro Ubiratan: tanto pode ser anfitrioa quanto anfitriã. Essa indefinição é uma das características dos nomes em –ão, que apresentam flexões variadas, ora em gênero, ora em número. Só para exemplificar, dei uma recorrida no Aurélio XXI e catei alguns vocábulos que admitem a variante em “-oa , além de -ã: anfitrioa, alemoa, ermitoa, faisoa, tabelioa, teceloa, viloa. Minha intuição lingüística me diz, entretanto, que as formas em são consideradas hoje mais cultas que as outras: anfitriã, alemã, ermitã, vilã.

 

tigresa

Flávio S. escreve sobre o feminino de tigre. Segundo ele, o Aurélio diz que é tigresa, porém seu professor discorda, afirmando que é “tigre fêmea“. Qual é o correto?

RESPOSTA — Meu caro Eduardo: tanto o Aurélio quanto o Houaiss registram tigresa como um feminino possível para tigre. Talvez essa forma tenha sido importada do Espanhol, onde ela é de uso comum, mas isso não importa. Tradicionalmente, aparece muito o “tigre fêmea”, mas o séc. XX viu também o incremento do uso do feminino sufixado. Escolhe o que te aprouver.

 

auto-elétrica

Adalberto, de São Paulo, diz que tem muita admiração pelo Sua Língua e aproveita para me dar os parabéns. Gostaria também de saber qual é o correto, se é auto-elétrico ou auto-elétrica.

RESPOSTA — Meu caro Adalberto: auto-elétrico é um adjetivo composto, do mesmo tipo que médico-cirúrgico. Como tal, ele vai concordar com o substantivo a que estiver ligado, flexionando sempre o segundo elemento do composto: tratamento médico-cirúrgico, clínica médico-cirúrgica, plantões médico-cirúrgicos. Da mesma forma, serviços auto-elétricos, oficinas auto-elétricas. Na rua, geralmente vemos auto-elétrica porque aqui se pressupõe claramente o vocábulo oficina (o mesmo substantivo feminino que está por trás da concordância de “retificadora de motores”, “vulcanizadora de pneus”, etc.

 

feminino de Reitor

Acir C., de Ponta Grossa (PR) pergunta: “Em nossa universidade surgiram algumas polêmicas e ninguém chegou a conclusão alguma. Nosso Reitor é um homem. A vice dele é uma mulher. Como ela deve ser chamada? Vice-Reitor ou Vice-Reitora? As mulheres são pró-reitores ou pró-reitoras?”

RESPOSTA — Prezado Acir, vejo que o machismo aí é pior do que em meu estado, o Rio Grande do Sul! Na UFRGS, tivemos, há pouco tempo, uma reitora; ela indicou vários pró-reitores e várias pró-reitoras. Com a inevitável ascensão da mulher, todos os cargos estão sendo flexionados no feminino: temos desembargadoras, senadoras, prefeitas, reitoras, juízas, promotoras (dá uma lida em Existe generala?). O que as mulheres daí dizem dessa polêmica?

 

gênero de omelete

Valquíria C., de São Bernardo do Campo, tem uma dúvida para qual ainda não encontrou resposta: deve dizer “vou fazer um omelete ou uma omelete”?

RESPOSTA — Minha cara Valquíria: embora o Houaiss omelete como sendo indiferentemente masculino ou feminino, prefiro seguir a lição do mestre Aurélio e considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que ambos os dicionários registram) é omeleta. Portanto, fica com “vou fazer uma omelete” — e bom proveito.

 

gênero de “marmitex”

As professores Lena e Nilma F. perguntam se marmitex é palavra masculina ou feminina, formada por derivação de marmita.

RESPOSTA — Minhas caras: Marmitex, que eu saiba, não é palavra, mas uma marca comercial de papel aluminizado e afins (certamente derivada de marmita). Qual é o gênero? Não sei, porque a concordância, em casos como esse, é feita com relação ao objeto designado. Se for uma dessas “quentinhas” de alumínio, seria então “uma marmitex” — do mesmo modo que “uma gilete” (lâmina), “um modess” (absorvente), “uma havaiana” (sandália) — todas elas tradicionais marcas da indústria.

 

numeral no feminino

Alguém (ou algo) chamado Mweti, extremamente gentil, pergunta se o numeral 31.202, na frase “Durante o ataque, 31.202 mulheres foram feridas”, deveria ser lido “trinta e UMA mil, duzentas e duas mulheres”.

RESPOSTA — Prezado Mweti (?): tua intuição está correta; “trinta e uma mil mulheres” + “duzentas e duas mulheres” = “trinta e uma mil, duzentas e duas mulheres”.

 

feminino de beija-flor

Renata M. escreve da Virgínia, nos EUA, perguntando se a palavra beija-flor possui feminino, e por quê.

RESPOSTA — Minha cara Renata: não, beija-flor não tem feminino. As pessoas (e, conseqüentemente, o idioma) não distinguem os sexos das aves, exceto aquelas que, pela importância econômica (produção de ovos, por exemplo), precisam ser separadas em machos e fêmeas: pato, pata; galo, galinha; peru, perua; marreco, marreca. As demais — garça, pardal, ticotico, bem-te-vicurrupião, pintassilgo, águia, etc. — são tratadas como sendo de um só gênero. Às vezes hesitamos na hora de determinar o gênero de uma delas, mas isso é outra coisa: uns dizem um, outros uma sabiá, mas vão usar consistentemente a sua opção tanto para machos quanto para fêmeas.

 

plenário, plenária

O leitor Rosalino pergunta a diferença entre plenário e plenária.

RESPOSTA — Prezado Rosalino: Plenário é a sala onde se reúnem os parlamentares, os deputados, etc. (“Muitos servidores públicos lotavam o plenário da Assembléia“). Plenária é uma forma reduzida de referir-se a uma reunião: “Poucos professores participaram da [reunião] plenária de ontem à noite”.

 

búfala

Cleide A., de São Paulo, relata uma discussão com os amigos, numa pizzaria: “O correto é pedir pizza de mozarela de búfala, como está no cardápio, ou mozarela de búfalo? Logo alguém alegou que búfalo não tem feminino…”

RESPOSTA — Prezada Cleide: como não tem feminino? Claro que tem! É búfala, mesmo. Cuidado quando olhares no dicionário: quando ali diz “s.m.”, isso não significa que não tenha feminino. Basta procurar aluno, ou menino, e vais ver que o dicionário apenas diz qual é o gênero desta forma que encontraste — mas isso não se refere à  existência ou não da forma feminina. O Houaiss registra, com todas as letras, no verbete búfalo: “Fem.: búfala”.

 

muito dó

A leitora Tânia C., gaúcha, mantém uma discussão cordial com alguns amigos mineiros, que juram que a palavra (“pena”) é do gênero feminino, empregando expressões como “tenho uma de fulano” ou “me dá uma daquelas”. Qual é a forma correta?

RESPOSTA — Minha cara Tânia: , no sentido de “pena, piedade”, é um substantivo masculinotanto na opinião do Houaiss, como na do Aurélio, nossos dois dicionaristas mais abalizados. Aliás, a quase totalidade dos oxítonos em Ó são masculinos, como xodó, cipó, , etc., o que me faz estranhar muito essa tendência de certos estados do país (não é só Minas…) usarem como feminino. A única explicação seria uma confusão semântica com pena, a partir de analogias do tipo “estou com muita pena” = “estou com *muita dó“.

 

o gride de largada

Milton Sebastião pergunta sobre o gênero da palavra grid: é masculino ou feminino? Usamos O grid ou A grid?

RESPOSTA — Prezado Milton: embora alguns (poucos) usem o feminino, talvez por associarem a grade, a esmagadora maioria dos brasileiros (na informática, na cartografia, no automobilismo) usa o vocábulo como masculino (o grid, ou, como vai terminar ficando, o gride). É como substantivo masculino que o vocábulo vem registrado no dicionário Houaiss.

 

gênero de paradigma

Rita, de Belo Horizonte, que trabalha em um escritório de advocacia, escreve para dizer que o seu chefe, ao falar de um acusado, costuma dizer que ele é um paradigma; se for uma acusada, diz que ela é uma paradigma. “Afinal, paradigma é um substantivo de dois gêneros?”

RESPOSTA — Prezada Rita: se entendi bem, o problema é saber se paradigma se comporta como analista: um analista, uma analista. Ora, é claro que não; paradigma, como testemunha, é vocábulo de um gênero só: ele é uma testemunha, ela é uma testemunha; ele é um paradigma, ela é um paradigma.

 

formanda

Renato G., de Porto Alegre, reclama que o Aurélio, tanto quanto o Houaiss, indicam o verbete formando como substantivo masculino. Pergunta: “Devo falar nos convidados do formando ou da formanda Denise?”

RESPOSTA — Meu caro Renato: este é um cacoete de nossos dicionários. Eles registram os substantivos no masculino singular (o que é boa técnica), mas insistem em especificar, a seguir, “s.m.” — como se esse fosse o único gênero que o vocábulo admite. Examina aluno e cantor , por exemplo, e vais encontrar essa indicação defeituosa. Eles deveriam indicar que o vocábulo tem os dois gêneros, ou limitar-se a indicar “s.m.” e “s.f.” quando se tratasse de substantivo de um só gênero. É claro que existe formanda, assim como formandos e formandas.

 

gênero de mascote

A leitora Vera H. vem gentilmente perguntar se mascote é masculino ou feminino.

RESPOSTA — Minha cara Vera: mascote é um substantivo feminino; “aquele carneiro é a mascote do regimento”, “o papagaio era a mascote preferida dos indígenas”, e assim por diante. Assim vem no Houaiss e no Aurélio; acho que há, contudo, uma forte tendência a considerar este substantivo como um comum-de-dois, como estudante (O mascote, A mascote), dependendo do gênero do animal a que se refere. Em breve os dicionários vão ter de registrar essa dupla possibilidade.

 

masculinos terminados em A

Kleber S. escreve de Hannover, Alemanha, indagando sobre substantivos masculinos que terminam em A. Diz ele: “Conheço uma exceção clássica como planeta e sei que existem aqueles que se aplicam aos dois gêneros, como pateta. Existe algum outro substantivo masculino terminado em a ou feminino com final o?”.

RESPOSTA — Meu caro Kleber: existem vários substantivos masculinos terminados em A: planeta, cometa, mapa, tapa, tema, diadema, sofisma, diagrama, telefonema, aneurisma, etc. — muitos deles, não por acaso, considerados femininos até o século XVI (Camões usava escrever “A cometa”, “A planeta”). Agora, femininos em O são raríssimos; temos tribo, libido e reduções de vocábulos maiores, como foto e moto.

 

arquiteto, arquiteta

Escreve a leitora Gabriela A.: “Bondoso Professor, gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: arquiteto é um substantivo exclusivamente masculino? Posso escrever que uma mulher é uma renomada arquiteta, ou essa palavra não é usada no feminino?

RESPOSTA — É evidente, dona Gabriela, que arquiteto é um substantivo masculino, mas arquiteta é a forma feminina correspondente! “Fulana é uma renomada arquiteta“, é claro. Esse é um erro técnico de nossos dicionários: registrar, ao lado dos substantivos de dois gêneros, a rubrica s.m., entre parênteses. Olha em qualquer dicionário e vais encontrar “aluno (s.m.), “lobo (s.m.)”, dando a falsíssima impressão de que eles só têm uma forma — quando, sabes muito bem, o Português tem aluna e loba desde o séc. 12. Só na França, por uma dessas coisas inexplicáveis, os substantivos ligados a profissões não admitem feminino — mas as francesas já estão fazendo um movimento bem aguerrido para terminar com essa discriminação.

 

a cal

Fábio M., de Juiz de Fora (MG), entregou um trabalho seu para ser revisado e ficou em dúvida quanto a uma correção feita pela professora de Português: “Escrevi que O cal era utilizado na indústria para neutralização química, e ela modificou para A cal. Gostaria de saber sua opinião”.

RESPOSTA — Ora, Fábio, a “minha opinião” é que a razão está com a professora que te corrigiu. Todos os dicionários dão cal como substantivo feminino (ao contrário de sal, por exemplo, que é masculino). É por isso que se fala em cal hidratada, cal viva, etc.


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champanha em Paris

Apesar do sucesso dos espumantes nacionais, o Doutor explica por que não há problema algum em utilizarmos o termo “champanha” para designá-los.

 

Dezembro chegou, e com com ele chegaram as festividades de fim de ano, com suas alegrias e chatices costumeiras. De uma dessas típicas festas de encerramento, promovida por um grande empresa de publicidade local, brotou a mais pitoresca pergunta que recebi até agora (e isso que o mês mal está começando…): “Professor, minha firma ofereceu ontem um coquetel luxuosíssimo; tinha camarão à vontade e serviram Veuve Clicquot do início ao fim. Eu não estou dizendo isso para contar vantagem, mas para que o senhor entenda a discussão em que me meti, ao comentar, simplesmente, que não havia champanha nacional que chegasse aos pés daquela que estávamos tomando. Primeiro o diretorzinho de mídia, que não gosta de mim, veio dizer, com uma pedra na mão, que o certo não era aquela, mas aquele champanha, no masculino — mas essa nem chegou a se criar, porque bastou alguém lembrar que o senhor defende para champanha a livre escolha entre masculino e feminino, e o baixinho se aquietou na hora. Mas depois o próprio chefe, que estava na rodinha, levantou uma tese que me pareceu interessante: não podemos falar em champanha nacional porque isso não existe, já que champagne é uma marca registrada, de propriedade da França, e só pode ser usada quando estivermos falando da legítima; para falar do produto nacional, só podemos empregar espumante. O senhor concorda?”.

Não, meu caro amigo, é claro que não concordo; a língua é soberana e não dá a mínima para meros acordos e regulamentos de propriedade industrial. Como a indústria vinícola brasileira não pode, por razões legais, chamar seus produtos de champanha, champanhe ou champagne, adotou a denominação genérica de [vinho] espumante. É assim que consta nos rótulos e no material promocional. Nossos falantes, no entanto, muitos antes de ocorrerem esses embates jurídicos, sentiram a necessidade de um vocábulo que lhes permitisse falar dessa bebida, e para isso incorporaram ao léxico do idioma o vocábulo champanha, como querem uns, ou champanhe, como querem outros (quanto ao gênero, veja minha explicação aqui). Friso que não se trata da bebida, mas da palavra; mesmo que a Roederer Cristal, que bebo nos dias gordos, venha da França, não posso viver sem um termo nosso para utilizar em frases do tipo “a verdadeira champanha vem da região de Champagne, a Campanha lá deles”, ou “ele só toma champanha paraguaia“, ou “nos demais países da comunidade européia, a champanha assume nomes locais, já que champagne é uma appellation contrôlée“, ou “a champanha nacional é vendida sob o nome de espumante“. No rótulo do uísque que aprecio está escrito whisky; no conhaque que eu gostaria de ter a meu lado, diante da lareira, deverá estar escrito, obrigatoriamente, cognac, ou nem chego perto. Nosso produtor não pode escrever champanha na garrafa; nós, simples civis, usaremos a palavra que que nos der na veneta.

Esta confusão entre a língua e a realidade é a mesma que levou um daqueles gramáticos rabugentos do centro do país a afirmar que papa não tem feminino porque jamais uma mulher assumiu o trono de São Pedro (apesar das lendas em contrário). Ora, isso não importa, porque a linguagem é muito maior que a realidade, permitindo que falemos no que existe ou no que nunca existiu. Quando mais não seja, precisamos do feminino papisa para poder dizer “Nunca houve uma papisa até hoje”, ou “A história da papisa Joana é uma lenda sem fundamento”, ou “Já tivemos vários papas, mas nenhuma papisa“.

Como um assunto puxa outro, o problema do gênero de champanha acabou levantando dúvida semelhante com relação a Paris: A Paris de hoje ou O Paris de hoje? Paris antiga ou Paris antigo? Parece óbvia a resposta? Pois não é. Entre outros, optam pelo masculino Vieira (“no mesmo Paris”), Eça de Queirós (“com conhecimento de todo o Paris”, “Oh, este Paris, Jacinto, este teu Paris!”, “aquele Paris ainda agitado“, “neste velho Paris”), Alencar (“Fizeram do Rio de Janeiro um pequeno Paris de bulevar”). Optam pelo feminino Nabuco (“essa impressão de arte que corre por cima da velha Paris toda como um friso grego”) e Coelho Neto (“Escolheu uma rua da velha Paris, apertada e sombria”). Esta hesitação, que não é usual entre nós (costumamos atribuir às cidades o gênero feminino), tem origem no próprio Francês. De um lado, De Gaulle, no seu famoso discurso de agosto de 1944, fala de “Paris ultrajado, Paris destroçado, Paris martirizado, mas Paris libertado pelas próprias mãos”. Do outro, a famosa Mistinguett já cantava, em 1926, “Paris, reine du monde/ Paris c’est une blonde” — o que, sem o ritmo e a rima originais, vem dar em vernáculo algo como “Paris, rainha do mundo/Paris é uma loira“. Aqui, em Portugal ou na França, cabe ao falante escolher.

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presidente ou presidenta

PRESIDENTE ou PRESIDENTA Dilma? Finda a eleição, abre-se um verdadeiro plebiscito entre os falantes; o resultado, que só conheceremos com o tempo, pode apontar a vitória de uma das duas formas ou, o que é mais provável, um honroso empate entre elas.

Conhecido o resultado das eleições, a vitória da ministra Dilma Rousseff suscitou uma questão que anda na boca das gentes e faz meu telefone tocar de dez em dez minutos: afinal, é presidente ou presidenta?

Como já expliquei numa coluna sobre generala, os tempos modernos assistiram a uma ascensão feminina irreversível. Há mais de vinte anos as mulheres do planeta — especialmente no Ocidente — vêm conquistando, assim de mansinho, as mais altas posições na escala de poder, antes reservadas exclusivamente para o sexo frágil (título que há muito os homens surrupiaram das mulheres). Hoje não constitui novidade alguma encontrar uma mulher no cargo de prefeito, de vereador, de deputado, de governador (o leitor há de notar que aqui o masculino se refere ao cargo, não à pessoa que o ocupa); nada mais justo, portanto, que recebam o tratamento linguístico adequado e sejam chamadas de prefeitas, vereadoras, deputadas e governadoras.

É muito importante lembrar o que ocorreu com o vocábulo primeiro-ministro, que passou por várias etapas antes de conquistar definitivamente o direito a ser usado no feminino. Quando o mundo começou a falar em Indira Gandhi, eleita em 1966, a imprensa brasileira foi apanhada de surpresa e saudou-a inicialmente como “o primeiro-ministro Indira“. O absurdo da situação levou alguns a ousarem uma combinação híbrida, cruza de jacaré com cobra-d’água: “a primeiro-ministro Indira“. Esta forma esquisita foi a gota derradeira, o passo decisivo para a metamorfose final, pois a não-concordância do artigo com o substantivo, escandalosa demais para ser aceita por qualquer ouvido normal, forçou a flexão natural para “a primeira-ministra Indira“. Quando Golda Meir e Margaret Thatcher apareceram no cenário mundial, o nosso léxico já tinha absorvido plenamente a inovação. E presidente, como fica?

A rigor, podemos deixá-lo na forma invariável, assim como fazemos com a maioria dos vocábulos derivados dos antigos particípios presentes: o/a viajante, o/a estudante, o/a gerente, o/a assistente. Contudo, sendo a adaptação e a evolução as duas características mais importantes de um idioma vivo como o nosso, é natural que vá crescendo, pouco a pouco (como tudo o que a língua faz), a tendência a flexionar em gênero alguns desses vocábulos tradicionalmente considerados uniformes. Ao lado de mestre surgiu mestra, forma cuja aceitação foi facilitada pelo extraordinário prestígio que desfrutam as heroicas professoras que nos ensinaram a ler e a escrever — mas o mesmo ainda não ocorreu com chefa, forma em que muitos ainda farejam um viés (ô, palavrinha pedante!) pejorativo. O prezado leitor pode ter certeza, porém, que a resistência é temporária, pois chefa tem a seu favor o fato de ser uma flexão formada dentro das regras internas do idioma (no mundo vegetal, diríamos que é uma plantinha do bem, nativa e espontânea, e não uma espécie exótica ou transgênica, sempre suspeita). Em breve este feminino será aceito no clube das formas cultas; o brasileiro, então, de acordo com seu gosto e sua intenção, poderá escolher entre ela ou a forma genérica chefe para designar uma mulher que exerce um cargo de chefia.

“Poderá escolher” — aqui é que bate o ponto. Não vejo por que reclamar quando um velho galho produz um novo rebento, pois isso significa que o repertório que a língua nos oferece acaba de ficar mais rico. Da costela de parente acabou nascendo o feminino parenta; há quem não use, mas ele está aí, agradando a muito bom escritor. Assim também presidenta, que figura, aliás, tanto no Aurélio quanto no Houaiss. Quem preferir, trate o vocábulo como um comum-de-dois (“substantivo que tem a mesma forma para o feminino e para o masculino”), cuidando apenas em flexionar os artigos e os adjetivos que o acompanham (o presidente eleito, a presidente eleita); quem, no entanto, achar que presidenta é mais adequado para marcar o coroamento da ascensão feminina (esta parece ser a opção de Dilma), ou que soa melhor, etc. e tal, pode ficar tranquilo, que tem padrinhos poderosos. A partir desta data, cada vez que alguém optar por uma ou por outra forma estará participando de imenso plebiscito silencioso, que acabará, com o tempo, determinando o destino das duas.

[Publicado na coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – jornal Zero Hora – 6/11/2010]

A coluna foi publicada no sábado; no domingo, um leitor atento veio dar mais um ponto no bordado:

Caro Doutor: li em sua coluna uma questão que aflige, a mim  parece, os setores de comunicação no que se refere a como devemos tratar a Sra. Dilma. Lembro que Juscelino Kubitschek, além de criar Brasília, deixou também a Lei n. 2.749, de 2 de abril de 1956, que assim dispõe:

Art. 1º Será invariavelmente observada a seguinte norma no emprego oficial de nome designativo de cargo público:

“O gênero gramatical desse nome, em seu natural acolhimento ao sexo do funcionário a quem se refira, tem que obedecer aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexeologia do idioma. Devem portanto, acompanhá-lo neste particular, se forem genericamente variáveis, assumindo, conforme o caso, eleição masculina ou feminina, quaisquer adjetivos ou expressões pronominais sintaticamente relacionadas com o dito nome”.

Como devemos proceder? Creio que aqui cabe a lei (estou certo?), uma vez que, se há um registro legal, devemos segui-lo.

Cláudio R.

Prezado Xará: este é um belo exemplo para um professor de Teoria Geral do Direito explicar o problema da incidência da lei: ela existe, ela é clara, MAS — e é aqui que nasce a discussão — ela se aplica a vocábulos que “forem genericamente variáveis”. Diretor, por exemplo, é um substantivo com dois gêneros; logo, segundo esta lei, uma mulher que exerça um cargo de direção será obrigatoriamente designada como diretora — e não tem corê-corê.

Acontece que este não é — ou não era, ao menos — o caso de presidente. Este vocábulo costuma ser classificado como um substantivo “comum-de-dois” (só tem uma forma para ambos os gêneros, como desenhista, ajudante, etc.); a considerá-lo assim, a lei não é aplicável, pois ele não é “genericamente variável”.

No entanto, ao que parece, para um número considerável de falantes ele está passando (ou já passou) ao rol dos substantivos biformes (como infante, infanta; gigante, giganta; elefante, elefanta; parente, parenta). Se essa migração de uma categoria para a outra fosse definitiva, não haveria dúvida alguma de que a lei se aplicaria aqui, exatamente como em diretora, funcionária, juíza, etc. Existe, porém, uma clara divergência entre as duas posições (divergência esta que deverá aumentar, sem dúvida, com o fato de termos agora uma mulher na presidência); ipso facto, existe também uma clara divergência entre ser ou não aplicável, neste caso, a lei a que te referes.

Os usuários (nós, nossos filhos, nossos netos) vão se dividir entre essas duas vertentes; com o passar das décadas, uma delas pode, talvez, sufocar a outra, enviando-a para o porão das formas aposentadas — ou, como acontece em dezenas de outros casos, as duas conviverão lado a lado, deixando o falante livre para escolher. Parafraseando meu mestre Luft, eu não gosto de presidenta e não vou adotá-lo — mas, e os outros com isso?

Abraço. Prof. Moreno  

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homem não é o masculino de mulher

Com a devida vénia, mas o professor confundiu-me… ou os outros… Sou português de 51 anos a viver em S. Paulo há apenas 4 anos. Aprendi na Escola Primária (portuguesa) que o masculino de abelha era zângão e eis que me deparo com esta sua resposta: “Tomemos a abelha como exemplo: o macho da espécie é raro e tem outra palavra para designá-lo, o zangão. Do ponto de vista gramatical, porém, abelha NÃO tem masculino (só do ponto de vista biológico)” (Masculino de formiga).Também o site português Priberam, que para além de nos oferecer a consulta gratuita do Dicionário de Língua Portuguesa nos dá umas dicas gramaticais, diz que zângão é o masculino (de radical diferente) de abelha. E agora? Em quem devo acreditar? Se me permite, e após confirmação no “conceituado” Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, zangão é bem diferente de zângão

António N. –  São Paulo

Meu caro António: primeiro, vamos ao Ciberdúvidas. Como em Portugal a forma preferida é zângão (para o inseto), zangão (o que anda zangado) parece ser um vocábulo diferente. Como aqui no Brasil usamos zangão para ambos, consideramos os dois a mesma palavra. O dicionário Houaiss, atualmente o que temos de melhor em lexicografia do Português (deste e do outro lado do Atlântico), traz um extenso verbete para zangão, com todos esses significados incluídos, e registra, no final, a possibilidade de se usar a “variante” zângão. Trata-se, portanto, de uma questão de ponto de vista: quem olha daqui, vê uma só palavra com vários significados; quem olha de lá, vê duas palavras diferentes. Escolhe o lado que melhor te aprouver.

Quanto à questão de zangão ser o feminino de abelha, esse é um equívoco clássico da gramática tradicional, e que pode ser tolerado em autores que tenham escrito suas obras antes de 1965. Depois dessa data, com a divulgação da teoria estruturalista (hoje, já ultrapassada por dezenas de teorias mais modernas) – e, no caso do Português, com as análises fundamentais feitas por Joaquim Mattoso Câmara Jr., não se admite que um estudioso confunda “sexo biológico” com “gênero gramatical”. Que o zangão é macho biológico da abelha, qualquer garoto que tenha passado algumas manhãs no jardim deve saber muito bem; isso é sexo. No entanto, do ponto de vista do gênero gramatical, abelha não tem masculino, nem zangão tem feminino. O gênero, numa língua como a nossa, é marcado pela desinência (ou sufixo flexional) que fica à direita do radical. Menino, menina; lobo, loba; rato, rata; mestre, mestra; cantor, cantora – aqui temos pares masculino/feminino marcados gramaticalmente pela presença da vogal “A” para o feminino. Agora, em homem, mulher; bode, cabra; boi, vaca; abelha, zangão, temos pares macho/fêmea biológicos, mas não temos gênero gramatical marcado por desinência. Foi por isso que fiz aquela afirmativa que estranhaste: “Do ponto de vista gramatical, porém, abelha NÃO tem masculino (só do ponto de vista biológico)”.

Em suma: para distinguir o macho da fêmea dos seres sexuados, nosso idioma se vale de vários mecanismos diferentes:

(1) usa a flexão de gênero (masculino/feminino) marcada pela desinência: pato e pata; leitor e leitora.

(2) recorre a algum sufixo derivacional especializado: imperador e imperatriz, conde e condessa;

(3) recorre a palavras diferentes, uma para o macho, outra para a fêmea: boi e vaca, dama e cavalheiro;

(4) recorre ao acréscimo de “macho” ou “fêmea” ao vocábulo invariável: cobra macho, cobra fêmea.

A abelha se enquadra, como vês, na hipótese (3), em que fica bem marcada a diferença biológica, mas não se pode falar em diferença de gênero gramatical. Agora, não te apoquentes com isso. Como tu, eu também, no meu tempo de escola, aprendi que homem era o masculino de mulher, e assim por diante – mas eu usava a gramática do Rocha Lima, na edição de 1958, e os meus professores haviam estudado por autores mais tradicionais ainda. Hoje, em pleno séc. XXI, no entanto, só continua a ensinar assim quem não passou, no Curso de Letras, por uma cadeira de Morfologia que mereça o nome que tem. Aliás, aqui vai um segredo profissional: quando sou chamado a avaliar livros didáticos para adoção no colégio que coordeno, esse é um dos itens que eu sempre verifico. A forma como o autor expõe essa parte do conteúdo (entre outros) é, para mim, um valioso indicador do tipo de formação que ele teve. Abraço. Prof. Moreno

 

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cargo de governador?

Tenho uma questão que há muito me persegue. Alguém que seja do sexo feminino, aprovada em concurso e que exerça o cargo de Analista Judiciário, deve dizer “Exerço o cargo de Analista Judiciário” (ou Analista Judiciária?) ou “Exerço o cargo Analista Judiciário” (sem a preposição de)?

David A. — Maceió

A preposição de entre cargo e analista é indispensável, David. Não podes ligar um substantivo a outro diretamente; entre dois substantivos haverá ou um hífen (navio-escola), sinal de pontuação (“água, vinho, cerveja“) ou uma preposição (casa de madeira, café com leite). Portanto, cargo de professor, de governador. Agora, o outro item da questão já é mais maroto. Roseane Sarney exerce o cargo de governador ou de governadora? Se quisermos ficar exatamente no rigor da estrutura, será o cargo de governador; no entanto, há muitas circunstâncias (e a concordância de gênero é bem marcante quanto a isso) em que se costuma desconsiderar essa lógica mecanicista e parte-se para uma interpretação semântica da expressão, o que leva a conseqüências gramaticais não ortodoxas (nas velhas gramáticas, chamam isso de silepse). Lembro-te, por exemplo, que o gênero do vocábulo gente (feminino) pode ser desconsiderado ao fazermos a concordância (quando se referir a homens): “A gente ficou plantado aqui quase duas horas”. Roseane exerce o cargo de governador, mas o fato de ser governadora interfere muito na hora de escolhermos uma das formas. Eu fico com governador, pela mesma razão que, no pural, eu também não vou flexionar o termo: “Eles perderam seus cargos de diretor” ( e não “de diretores”); não vou criticar, contudo, quem optasse por governadora. Na mesma linha, portanto, uma mulher deveria dizer que “exerce o cargo de analista judiciário“, ou que “é uma analista judiciária“. Abraço. Moreno

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