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Homofóbico

Diferentemente de HOMÔNIMO, o termo HOMOFÓBICO nasce do encontro de dois processos diferentes de formação de palavras.

“Professor, até hoje não consigo compreender o termo homofóbico. Não falo do sentido, que me parece bem claro, mas das partes que o compõem. Este homo quer dizer “semelhante”, como em homógrafo, não é? Pelo que eu entendo, homossexual é quem procura parceiros de sexo semelhante ao seu; pela mesma razão, homofóbico não deveria significar quem tem aversão a seu semelhante? Onde foi que eu me enganei?” — pergunta Alcides M., de Santos, São Paulo.

Caro Alcides, não foste o primeiro, nem serás o último a levantar este problema. Aqui mesmo, nesta coluna, tive a oportunidade de tratar do assunto, mas vou explicar de novo, pois já lá vai uma meia dúzia de anos. Vamos começar pela parte mais fácil, que é a fobia. Esta palavra fobia tem origem na mitologia grega: Fobos, (“medo”), era filho de Afrodite e Ares (em Roma, Vênus e Marte, respectivamente), fruto da mais célebre e invejada relação extraconjugal da literatura clássica, narrada por Homero no canto VIII da Odisseia. Era gêmeo de Deimos (“pavor”), e não foi por acaso que o astrônomo que descobriu os dois satélites do planeta Marte batizou-os com o nome dos irmãos.

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Tecnicamente, o termo fobia designa um medo incontrolável, irracional, muitas vezes exagerado, que nos domina em determinadas situações e terminam atrapalhando nossa vida. Quem sofre de claustrofobia, como eu, por exemplo, não consegue controlar seu pânico ao entrar em lugares fechados ou exíguos — e já sei que vou me ver em betas quando visitar as pirâmides do Egito neste outubro próximo. Originalmente, fobia só se juntava a outros elementos gregos, como ela — xenofobia (de xenos, “estrangeiro”); acrofobia (de ákros, “altura”); hidrofobia (de hydro, “água” — nome antigo da raiva, porque um dos sintomas de quem foi infectado pelo vírus é a dificuldade de ingerir qualquer líquido); fotofobia (de foto, “luz”). Com o tempo, porém — como era natural — fobia passou a fazer parte dos utensílios básicos de nossa cozinha linguística, capaz de ser acrescentado a vocábulos quotidianos do Português, como em gordofobia, veganofobia, islamofobia, velhofobia (uma versão popular para a gerontofobia, “antipatia por idosos”) e muitos outros mais que se usam ou usarão nesta época de infinitas intolerâncias.

Agora, vamos ao homo. Aqui vais ver em ação um novo processo de formação de palavras, razoavelmente recente (não chega a ter cem anos, o que, em linguagem, é muito pouco): no momento em que palavras complexas, de origem erudita, ingressam no vocabulário usual do brasileiro, há uma forte tendência a reduzi-las a um padrão prosódico mais confortável. Foi assim que fotografia virou foto e motocicleta virou moto, por exemplo. É um progresso, sem dúvida — mas nem todo o mundo se deu conta de que, por trás desta simples operação de encurtamento, a língua portuguesa estava parindo um novo vocabulozinho que iria fazer concorrência com seu pai. Em fotossíntese, fotocélula, fotofobia e fotografia, podemos ver claramente que este elemento foto tem, como no Grego, o significado de “luz”,  Ora, no momento em que reduzimos fotografia para foto, criamos um vocábulo com a mesma forma mas com sentido completamente diferente: em fotomontagem ou fotojornalismo, foto significa “fotografia”, e não “luz”.  Em autobiografia, autocomiseração e automóvel, o auto original significa “a si mesmo”; no momento em que encurtamos automóvel para auto, com o sentido de carro, passamos a ter uma novidade como automecânica, que é uma mecânica de carros, e não uma mecânica de si mesma. Temos, portanto, um autoA e um autoB — e um bom dicionário deveria abrir uma entrada diferente para cada um.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homônimo (“o mesmo nome”) e homossexual (“o mesmo sexo”). Este último, ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, sofreu o natural encurtamento para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia, onde não mais significa “semelhante”. Como um Lego infinito, nosso idioma, sem parar, combina e recombina suas peças para acompanhar nossa realidade.

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Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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desprincesamento

 

Numa coisa todo o mundo concorda: a riqueza de uma língua é medida, em grande parte, pelo número de vocábulos que ela oferece a seus falantes — assim como, em escala menor, a riqueza de cada um de nós se mede pelo número de vocábulos que conhecemos. No entanto, toda hora aparece, na minha caixa de correio, alguém que vem lamentar o nascimento de uma palavra nova. Nesta semana de Natal, um leitor que assina com o pseudônimo de Indignado vem manifestar — por que a surpresa? — a sua indignação com a palavra desprincesamento. “De onde saiu essa doidice? Os jornais publicam assim sem o menor pudor! Até dá para entender o que a palavra quer dizer, mas pode ser assim? É só inventar e pronto? Não se poderia criar um instrumento legal que regulamentasse essas novidades?”.

Meu caro Indignado, está na hora de revisarmos alguns princípios básicos que regem nosso léxico. Em primeiro lugar, não há, neste planeta, lei com poder suficiente para regulamentar o funcionamento de uma língua. O máximo que se consegue fazer é regulamentar a sua ortografia, que é uma pura convenção entre os usuários. Tentar legislar sobre o resto — a sintaxe, a criação de palavras, o sentido que elas têm, etc. — seria tão inútil como pregar aos peixes. No caso do léxico, então, a tarefa é impossível, pois é nele que melhor se enxerga o caráter infinito do idioma.

Ao contrário das sementes, as palavras jamais perdem o seu poder germinativo. No dicionário, em ordem alfabética, as centenas de milhares de vocábulos que ali repousam mantêm, intacta, a capacidade de gerar descendentes. Pardal, por exemplo, ali figurou, durante cinco séculos, como um simples passarinho; no momento em que resolveram assim designar os controladores de velocidade, a semente saiu de sua dormência e produziu pardalizar (as estradas), despardalizar, pardalização, despardalização… Ao contar aquela história em que Pedro Malasartes enche de moedas o fiofó de seu cavalo para enganar o fazendeiro rico e prepotente, um famoso poeta de cordel estampou na capa do folheto “O cavalo que descomia dinheiro”, evitando assim o c*gava do título popular. Aliás, por falar no tema, no tempo do presidente Figueiredo, uma lei sancionada teve de ser dessancionada para correção, sendo algumas horas depois ressancionada — dois novos galhos na árvore da palavra sanção foram criados no espaço de horas!

Aqui se inclui também o desprincesamento, palavra feinha que surgiu em contraposição a princesamento, outra novidade. Uma mãe em Curitiba achou importante e necessário abrir uma escola para ensinar às meninas aquelas artes e atitudes que, segundo ela, caracterizam uma verdadeira princesa; a iniciativa teve tanto sucesso que já se abriram várias filiais. Outras mães, ao contrário, vendo nisso uma submissão precoce das meninas a estereótipos de gênero, trouxeram do Chile a ideia de uma escola de desprincesamento, para incutir desde cedo nas garotas a consciência do novo papel da mulher na sociedade.

Como se pode ver, o processo é incontrolável; os vocábulos resultantes entram na implacável filtragem pelo uso e, aos poucos, vai-se vendo quais são as criações que já ingressaram na corrente sanguínea e quais vão ficar adormecidas, talvez para sempre. Gostar delas ou não, empregá-las ou não, criticá-las ou não — tudo depende da simples decisão de cada usuário. Para consolo do amigo Indignado, ofereço outra criação do mesmo quilate, o desencapetamento: já vi anúncio na internet oferecendo um “método fácil e eficaz para desencapetar um homemsexual“. Feliz Ano Novo!

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propinocracia

 

 

A algumas semanas da eleição, poucos foram os brasileiros que ficaram indiferentes à denúncia oferecida contra o ex-presidente Lula pelos procuradores da operação Lava a Jato — uns a criticar, outros tantos a aplaudir. Entre estes últimos certamente se inclui nosso leitor Alberico Z., de Caxias do Sul, o qual, depois de elogiar muito esta coluna (“Recorto sempre e mostro para os amigos”), lamenta que os jovens integrantes da força-tarefa do Ministério Público tenham maculado sua apresentação ao empregar o termo propinocracia, que não está nos dicionários. “Professor, entendo o que eles querem dizer com isso, mas acho que um neologismo deste quilate destoa como um resto de feijão no dente. O senhor não concorda?”.

Não, caríssimo leitor, não concordo — e aconselho que você puxe uma cadeira e aproveite o divertido desfile dessas palavras que nascem da recombinação de elementos que todos conhecem. Como sabem que o termômetro e o barômetro são instrumentos de medir, os falantes criaram, por analogia, palavras como olhômetro, impostômetro, sonegômetro e bafômetro, que são muito úteis e de significado muito claro. Os hotéis equiparam cada quarto com um frigobar? Pois um folheto anuncia um passeio ecológico pela Serra do Mar, em que os participantes serão acompanhados por um guia e um paciente frigoburro. Não é uma beleza?

Além disso, a palavra propinocracia já não é tão nova assim. Em 2011, por exemplo, Cláudio Noronha publicou em seu blogue um texto facecioso em que deita e rola, descrevendo uma suposta república propineira, que segue o regime da propinocracia. O poder é dividido entre propinocratas novos e velhos — os neopropinocratas e os propinossauros, todos eles imbuídos do mais legítimo espírito propinocrático.  O problema, diz o autor, é que “recente pesquisa, feita pelo Instituto de Propinologia
e disponibilizada na propinet, revelou uma tendência perigosa da sociedade se polarizar, opondo propinistas contra antipropinistas” — e por aí vai a valsa. 

Como podemos ver, não precisamos consultar um dicionário para entender essas palavras, pois nosso léxico é como um imenso Lego: as peças estão na caixa, à disposição do falante, que pode usá-las para produzir centenas de milhares de combinações que, é quase certo, não haverão de estar dicionarizadas. O blogueiro Cláudio Noronha ou os procuradores, portanto, não inventaram propinocracia ou o também recente propinoduto; elas já existiam virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera de que a realidade produzisse as condições necessárias para que alguém as empregasse. É isso que explica, aliás, a cara de paisagem que faço quando me perguntam quantas palavras tem nosso idioma…

Ah, outra coisa: o amigo disse que costuma recortar e guardar o que escrevo — no que muito me honra; talvez lhe interesse saber, por isso mesmo, que a Coleção Pocket da editora L&PM inclui três volumes de O Prazer das Palavras, reunindo uma
boa parte das colunas aqui publicadas.

(Ilustração do incomparável Edu – Jornal ZH) 

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Janta

Injustamente condenada por velhos gramáticos, a palavra JANTA é filha legítima do verbo JANTAR, da mesma forma que VISITA e DESOVA nasceram de  VISITAR e DESOVAR.

 

Em algum desvão esquecido do meu computador, reencontro uma pergunta que me fez, há tempos, a talentosa Haydée Porto, caríssima amiga, figura imprescindível do nosso teatro: “Uma conhecida me criticou bastante por causa de uma palavra que usei: janta. Na verdade, nunca tinha me dado conta disso. Nós, gaúchos, estamos errados ao falar assim?  Ela é portuguesa, dona de uma escola famosa em SP, e se orgulha de não cometer erros de Português ― mas diz “meia cansada”! Quando chamei sua atenção para isso, quase morreu de susto! Mas e nós, hein, Moreno, como ficamos com a nossa janta?”.

Ficamos muito bem, minha cara Haydée. Janta é um substantivo formado por derivação regressiva do verbo jantar, criado à semelhança de dezenas de outros que extraímos de verbos (chamados, por isso mesmo, de deverbais): por exemplo, suplicar deu súplica, alcançar deu alcance, baixar deu baixa e almoçar deu almoço. Por que, então, jantar não poderia dar janta? Na fronteira com os países do Prata já ouvi muita gente dizer suba (“Vou comprar o carro antes da suba do dólar”), como substantivo para subir. Eu acho estranho esta suba (que Houaiss registra como variante do Rio Grande do Sul), assim como tua amiga deve ter achado estranho a nossa janta ― e  assim como nós, os brasileiros, não estamos habituados ao termo apanha, muito usado em Portugal (“No Alentejo, a apanha da azeitona começa em outubro”). E daí? É natural que, de uma região para outra, haja preferências distintas em tudo ― na maneira de fazer churrasco, na música que toca no rádio e, mais do que em todas as demais áreas reunidas, nos vocábulos que empregamos.

Uma passada no Google (em setembro de 2015) deu mais de 13 milhões de ocorrências para janta; mesmo que isso não possa ser considerado argumento “científico”, é, no entanto, uma evidência amazônica da vitalidade desta variante. Todos os bons dicionários a registram, embora a assinalem com o rótulo de “popular” ou “familiar” ― uma forma prudente de alertar o usuário para o fato de que ela pode ser considerado inadequada em registros mais formais, o que está de acordo, a meu ver, com a nossa realidade. Eu, por exemplo, reservo jantar para uma refeição especial, geralmente comemorativa e com mais formalidade: jantar de formatura, jantar dançante, jantar de encerramento. Janta, para mim, designa a nossa refeição usual da noite (às vezes carinhosamente chamada de jantinha), seja na família, seja entre amigos ―  como, aliás, aparece em todos os autores modernos: “Finda a janta, o primeiro arroto real ecoa” (Monteiro Lobato); “A mulher mandará a empregada pôr a janta, e perguntará se ele quer tomar banho” (Rubem Braga); “resto de janta abaianada” (João Cabral de Melo Neto); “A janta posta” (Vinícius de Morais); “Devia ser hora de se comer a janta” (Guimarães Rosa). Diz para tua amiga que, ao usarmos janta, estamos em excelente companhia… E diz para ela, também, que os deuses da gramática há muito estabeleceram uma lei inexorável: quem se mete a corrigir os outros, logo, logo acaba sendo corrigido.

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costa-riquenho

COSTA-RIQUENHO-EDU

Na hora de determinar como vamos chamar os naturais de um país ninguém vai consultar a língua que eles falam. Não podemos reclamar se nossos vizinhos nos chamam de BRASILEÑOS.

Esta será ― prometo solenemente! ― a última vez em que vou falar de temas evocados pela recente (e já tão distante) Copa do Mundo. Na coluna anterior, que tratava do país africano Camarões, ao empregar naturalmente o gentílico costa-riquenho, aticei uma colônia de abelhas gentis, mas insistentes, que vieram bater exatamente na mesma tecla: essa não seria a maneira correta de se referir aos nascidos na Costa Rica, mas sim costa-ricense. Alguns leitores, inclusive, acrescentaram depoimentos concretos. Um, que informou ter morado lá por quatro anos, foi taxativo: “Olha, nunca vi usarem costa-riquenho!”. Uma leitora alertou que essa denominação, além de errada, seria “um tanto depreciativa”, como lhe informara um ex-cônsul honorário daquele país em Porto Alegre, que achava costa-riquenho uma denominação “horrible“.

Para esclarecer este problema, convido os amigos a se deslocarem, em primeiro lugar, à pitoresca Costa Rica, que tem, como todos sabem, o Espanhol como língua oficial. Os naturais deste país eram chamados, seguindo um modelo muito produtivo de formação de gentílicos naquele idioma, de costa-riquenhos (escrito costarriqueños) ― da mesma forma que os panamenhos, hondurenhosmadrilhenhos, caribenhos, cusquenhos, limenhos, porto-riquenhos e dezenas de outros. É assim que aparece nas edições do séc. 19 do Diccionario de la Real Academia Española (o vetusto DRAE). Na metade do séc. 20 o DRAE passa a registar também costa-ricense, mas como simples variante, remetendo sempre a costa-riquenho. Só a partir da última década daquele século é que costa-ricense vai assumir a vanguarda, passando a ser apontado como a forma preferível. Conhecendo o conservadorismo da Real Academia, não temos a menor dúvida de que na própria Costa Rica a hegemonia de costa-ricense veio muito antes dessas datas ― mas isso não nos permite dizer que costa-riquenho tenha sido, alguma vez, uma forma “errada” no Espanhol. Desusada, sim. Não preferível, sim. “Horrible”? Já me parece um tanto melodramático…

Voltando ao Brasil ― e é aí que bate o ponto ―, nada disso tem a menor relevância. Quem nasce na Costa Rica é, no Português, um costa-riquenho. Existe a variante costa-riquense, menos usada, mas dentro da lógica (o fonema /k/, de Rica, é mantido), e também costa-ricense, raríssima, que certamente ingressou em nosso léxico por pressão do Espanhol moderno (é significativo, aliás, que Porto Rico tenha produzido porto-riquenho, a preferida, e sua variante porto-riquense, mas não *porto-ricense). É assim que funciona: na hora de determinar como vamos chamar os naturais de um país ninguém vai consultar a língua que eles falam. É assim, aliás, que faz todo o mundo: dizer que nosso costa-riquenho é errado é o mesmo que dizer que toda a América Espanhola deveria nos chamar de brasileiros, em vez de usar aquele “horrible” brasileños.

[Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

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Gentílicos

Dois leitores trazem suas dúvidas sobre adjetivos gentílicos: quem nasce na cidade de Salvador, na Bahia, não poderia também ser chamado de “salvadorenho”? E quem tem uma esposa natural da Indonésia pode dizer que casou com uma “indonesiana” — ou é mesmo com uma “indonésia”?

Mais de um pai (ou mãe) já me escreveu para conferir questões de Português que seus filhos trouxeram da escola. Desta vez, um paulista de São Carlos ficou em dúvida quanto ao gentílico correspondente à cidade de Salvador: “Numa prova do colégio perguntaram como se chama o brasileiro que nasce na capital da Bahia. Minha filha respondeu salvadorenho, mas a professora marcou errado, dizendo que é soteropolitano. Eu nunca ouvi falar nisso, e acho que a menina está certa, mas não tenho instrução suficiente para discutir com a professora. O senhor concorda comigo?”.

Pois fica sabendo, aflito leitor, que a professora fez bem em recusar o salvadorenho, mas exagerou um pouco ao indicar a resposta apenas como soteropolitano (é esquisitíssimo, eu sei, mas existe). Primeiro, é necessário lembrar que alguns países ou cidades têm dois gentílicos diferentes — o usual, formado pelos processos naturais de nosso idioma, e outro mais erudito, formado  artificialmente com radicais do grego ou do latim ou derivados de antigas denominações nacionais. É por isso que temos húngaro e magiar para a Hugria, suíço e helvécio para a Suíça, português e lusitano para Portugal, francês e gaulês para a França, alemão e germânico para a Alemanha, japonês e nipônico para o Japão, buenairense e portenho para Buenos Aires.

Embora raros, há casos semelhantes no Brasil. Por exemplo, para a cidade de São Luís, no Maranhão, temos são-luisense e ludovicense (de Ludovicus, nome do Latim tardio que deu origem ao nosso Luís); para Salvador, na Bahia, temos salvadorense e soteropolitano (do grego soteros, “salvador”, mais polis, “cidade”; “Soterópolis”, portanto, seria Salvador com anel de doutor e diploma na parede). Em alguns casos, até, só temos a forma erudita: para o estado do Rio de Janeiro, usamos fluminense (do latim flumen,  “rio”, pois inicialmente se pensava que a Baía da Guanabara fosse um grande rio); para Três Corações, em Minas Gerais, usamos tricordiano (do latim tri, “três”, mais cordis, “coração”).

Como podes ver, a menina errou a resposta — ou melhor, errou de Salvador: salvadorenho é quem nasce na república de El Salvador, não na capital da Bahia. Aliás, a maioria dos vocábulos que usam o sufixo –enho são gentílicos de origem espanhola: caraquenho (Caracas), caribenho (Caribe), cusquenho (Cusco), limenho (Lima), hondurenho (Honduras), panamenho (Panamá), etc. Agora, como a correção de uma prova é um momento privilegiado de aprendizagem, a professora, ao meu ver, deveria ter indicado também a variante salvadorense, a mais usada das duas.

Outra consulta sobre o mesmo tema veio do outro lado do mundo: “Moro no Japão há muitos anos e casei com uma mulher nascida na Indonésia. A nacionalidade dela é indonésia ou indonesiana? Não acho tão estranho chamar um homem de indonésio, mas chamar minha mulher de indonésia soa mal, pois coincide com o nome do país — e o pior é que o termo indonesiana me parece incorreto. Acho que sou o único brasileiro do mundo a ter essas dúvidas…”.

Eu não diria isso, caro leitor. Muitos experimentam um mal-estar muito semelhante ao teu quando, referindo-se a pessoas, têm de usar femininos que coincidem, por exemplo, com o nome de atividades ou profissões: “Não aguento aquela química“, “Casei com uma matemática“, “Ele me apresentou a uma música fascinante”. Às vezes, confesso, o efeito é tão desagradável que nos faz hesitar; não faz muito, recebi um cartão de visita que estampava “Clínica Geral” numa linha e “Mariazinha dos Anzóis” na linha seguinte. Era o nome de uma clínica ou a apresentação de uma profissional?

O gentílico indonésio simplesmente vai se juntar a vários outros cujo feminino se confunde com o nome do país, como é o caso de  argentina, armênia ou sérvia. Se não te agrada chamar tua esposa de indonésia (que é uma forma correta), podes muito bem empregar indonesiana, já que o termo é bastante usado fora do Brasil, produto de uma derivação sufixal muito frequente na formação dos adjetivos gentílico de nosso idioma. Lembro-te que o Brasil chama de canadense o que Portugal chama de canadiano; temos tanto argelino quanto argeliano, alasquense ou alasquiano, baiense e baiano, bósnio e bosniano, salvadorenho e salvatoriano.

NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, no dia 18 de março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou pelo e-mail contato@casadeideias.com.

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Desinquieto

As aparências enganam: DESINQUIETO não é o contrário de INQUIETO. Há muitos vocábulos em que o prefixo DES- não tem mesmo valor negativo que apresenta em DESLEAL ou em DESFAZER.

Confesso que fiquei faceiro quando recebi, dia desses, uma consulta proveniente do Acre, lá dos extremos da fronteira oeste, quase na linha do Equador. Quem me escreveu foi Irany G., gaúcha de nascimento, aluna deste que vos fala lá pelos anos 90: “Professor, moro aqui em Rio Branco, na capital, muito longe de minha querida Porto Alegre, mas sempre dou um jeito de ler suas colunas pela internet. Agora que encontrei o senhor no Facebook vou poder lhe fazer perguntas diretamente. Tenho uma dúvida há muito tempo, mas não sei se vou conseguir explicar direito: se desatento é antônimo de atento, como é que desinquieto é sinônimo de inquieto? Não deveria ser seu antônimo? Minha cunhada, que é mineira, vive dizendo que o filho dela é uma criança desinquieta; sei que ela quer dizer que ele é uma criança agitada (aqui entre nós, o guri é um demônio), mas se o prefixo des- indica negação, desinquieto não significaria não inquieto — ou seja, calmo, sereno, exatamente o contrário do que ela quer dizer? Será linguagem típica de Minas? Deu para entender?”.

Perfeitamente, Irany. Vários outros leitores, ao longo dos dez anos de existência desta coluna, já estranharam esse desinquieto, o qual, como vais ver, é um pacato cidadão de nosso vocabulário. Se vens acompanhando O Prazer das Palavras, vais lembrar que outro dia — acho que falávamos das paraolimpíadas — mencionei aquela “máquina de fazer palavras” que todo falante do Português traz dentro da cachola e que lhe permite não só formar vocábulos novinhos em folha, como também compreender as criações lexicais de seus vizinhos. Foi exatamente por saber disso que um habilíssimo ourives da língua como Mário Quintana não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram“, certo de que até o mais ingênuo de seus leitores poderia decompor instantaneamente o sentido deste verbo.

Palavras derivadas como essa, resultantes da combinação de radicais com afixos, não param nunca de surgir, numa rapidez vertiginosa. No entanto, as peças que entram nessa combinação — especialmente os prefixos e os sufixos — pertencem a um grupo fechado, limitado a tão poucos itens que vários desses morfemas terminaram se tornando polissêmicos — o que significa, em vernáculo, que passaram a ter diferentes significados. Este é o caso do prefixo des-,  que nem sempre  vai indicar negação, como faz em desleal, descarregado, descrente, desestimulante. Mesmo os gramáticos mais antigos, como Said Ali, já observavam que ele também pode ser usado com sentido positivo — uma espécie de intensificador —, sem contrariar o significado original do  vocábulo. Essas formas prefixadas são empregadas como meras variantes das formas simples: infeliz ou desinfeliz, apartar ou desapartar, abalar ou desabalar, afastar ou desafastar, apear ou desapear, etc. — e não apenas na linguagem popular: “…o nosso benévolo confrade está, claro, na condição dos que desapartam rixas” (Rui Barbosa);  “Adoro queijos. Deixa ver. Desafasta” (Eça de Queirós); “Não deixe o homem desapear, doutor” (Taunay); “Agora, é verdade que ninguém mandou o desinfeliz ir pescar por riba da catedral!” (Olavo Bilac); “Macunaíma sentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci, a inesquecível” (Mário de Andrade).

Tua suspeita de que desinquieto seja criação regional de Minas Gerais também não procede, pois vamos encontrá-lo igualmente em escritores portugueses, desde o Renascimento: “Muito bem me lembra a promessa que vos fiz no Tangu acerca do saque desta desinquieta cidade(Fernão Mendes Pinto); “De tarde faz o ofício do demônio tentador, a desinquietar quanta rapariga e mulher honesta tem o Porto” (Garrett); “Desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima” (Eça de Queirós).

Outro prefixo de comportamento semelhante é o a-, que indica negação ou privação em atípico, amoral, acéfalo e apátrida, mas perde seu valor negativo em dezenas de palavras: abrasado, apavorado, afivelado, ajoelhado, amanteigado. A um molho apimentado não pode faltar pimenta, Irany — bem pelo contrário; do mesmo modo, apesar da incredulidade de meu amigo Márcio Pinheiro, um bife não pode ser chamado de acebolado se não vier coberto de muita cebola.

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Ainda as paraolimpíadas (conclusão)

Veja por que os esquisitíssimos *paralimpíada e *paralímpico jamais poderão conviver pacificamente com os demais vocábulos que compõem o nosso léxico.

Como deixei bem claro na coluna anterior, é impossível conviver com uma formação tão esdrúxula quanto a famigerada “paralimpíada”, que não só contraria o que já foi consagrado pelo uso e pelos dicionários (Houaiss, Aulete e o próprio VOLP só registram paraolimpíada), como também viola princípios básicos do funcionamento da língua portuguesa. A criação lexical não vai parar nunca, enquanto o Português for uma língua viva, mas os vocábulos — tanto os que já existem como os que haverão de ser criados — nascem seguindo determinados parâmetros imutáveis, gravados, digamos assim, no DNA do idioma.

É possível que surja, de vez em quando, um vocábulo tecnicamente “malformado”, mas ele só vai conviver em nosso meio se os falantes, de alguma maneira, nele enxergarem uma fisionomia conhecida. Um excelente exemplo é vestibulando: de alimentar, graduar, adotar e analisar produzimos substantivos com a noção implícita de “aquele que deve fazer ou ser”: o alimentando, o graduando, o adotando, o analisando. Não seria descabido, portanto, afirmar que este sufixo serve para formar substantivos a partir de verbos da 1ª conjugação. Ora, os falantes aplicaram esta regra ao adjetivo vestibular (para entrar na universidade, prestamos um concurso vestibular — isto é, de ingresso) e geraram vestibulando, que decididamente não é “aquele que vai ou deve se vestibular”. E daí? Por ser fruto de um acidente genético, não tem direito a viver? Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, ele está batendo dois milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, em off (vocábulo tupi-guarani que até hoje conserva grande utilidade): “Palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Infelizmente, “paralimpíada” não tem, como tem vestibulando, aquele rosto conhecido que a faria passar despercebida no meio das outras. Sua nota destoante —     o que realmente nos incomoda — é o desfiguramento do radical olímpico com a eliminação do “o” inicial, algo impensável no nosso sistema de formação de palavras. No Português, o radical não costuma perder fonemas, principalmente aqueles que o iniciam. Explico melhor: os radicais são os donos da casa, os prefixos são eventuais visitantes. Se, ao unirmos os dois, for necessário suprimir algum fonema vocálico, quem vai sofrer a amputação será — invariavelmente! — o prefixo. Por exemplo, ao formarmos vocábulos como para+estatal, para+esportista e para+esgrimista (estou usando o símbolo “+” apenas para assinalar o limite entre os dois componentes), o prefixo não perde fonema algum de sua configuração original. Nem sempre, porém, ele vai ter esta sorte: em par+encéfalo, par+estesia, par+odontia, sua vogal final foi suprimida para permitir uma ligação harmoniosa com o radical.  Repito: se alguém tem de ceder, não vai ser o radical, que precisa estar intacto para ser reconhecido.

Em certos casos, até, podem coexistir variantes que se distinguem apenas pelo maior ou menor grau de concatenação dos dois elementos (o que vem a ser, como o leitor já deve ter percebido, a velha diferença que se estabelecia entre a aglutinação e a justaposição): os dicionários nos permitem escolher entre termo+elétrica ou term+elétrica, hidro+avião ou hidr+avião — mas não podemos sequer imaginar formações em que a vogal final do prefixo seja preservada à custa do sacrifício da vogal inicial do radical. Vocábulos como *termo+létrica e *hidro-vião seriam tão absurdos quanto seriam, no parágrafo anterior, *para+ncéfalo, *para+stesia e *para+dontia.  Que se aceitem, ao lado de para+olimpíada e para+olímpico, variantes como par+olímpico e par+olimpíada é perfeitamente defensávelmas jamais abantesmas do calibre de *para+límpico ou de *para+limpíada, como querem nos impingir, que parecem muito mais associadas a limpo e limpar do que a olímpico e olimpíada. Os ingleses não se importam com paralympics e paralympism porque, para eles, os efeitos colaterais são inexistentes; aqui, no entanto, dizer que tal medalhista é o “grande destaque do paralimpismo brasileiro” sugere atividades mais relacionada à limpeza que ao esforço esportivo e permite (não fosse o brasileiro malicioso!) algumas ilações bem escatológicas… 

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Finalizando, aproveito para comunicar aos amigos que em outubro, na segunda quinzena, terá lugar uma nova edição do meu curso de quatro encontros sobre as mudanças que o Acordo Ortográfico introduziu na nossa maneira de escrever. Mais detalhes pelo fone 30187740 ou em  www.casadeideias.com.

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festas julinas?

Aviso ao arraial: toda festa com pipoca, amendoim, fogueira e bandeirinha, casamento na roça e danças caipiras marcadas pelo som da sanfoninha são FESTAS JUNINAS – não importa o mês em que elas acontecem.

Lembro que junho, durante muito tempo, foi um mês especial para mim: chegava o inverno, com seus dias mais curtos, e com ele as festas dedicadas aos três santos de maior devoção dos brasileiros, Santo Antônio, São João e São Pedro. Ando completamente desligado desses festejos, mas houve época em que eu ainda me entusiasmava com eles. Sem opor a menor resistência, aceitava um bigodinho feito com rolha queimada, uma camisa de xadrezes exagerados e um chapéu de palha com a borda desfiada, e pronto: lá ia eu para o colégio, vestido como caipira paulista, no figurino de Jeca Tatu, que Monteiro Lobato imortalizou no inesquecível almanaque do Biotônico Fontoura (nos anos 50, ainda não estavam na moda os gauchinhos de hoje).

Pois na minha verdadeira alma mater, o grupo escolar Juvenal Miller, em Rio Grande, onde me ensinaram a ler, a escrever e a fazer contas — o que, juntamente com um bom Google, é tudo de que preciso —, essas festas juninas raramente entravam julho adentro. Agora, no entanto, com a grande complexidade dos calendários escolares, é muito comum transferirem a fogueira para o mês seguinte, o que fez pipocar, aqui e ali, o adjetivo julinas para designá-las — juntamente com as perguntas dos usuários, preocupados com a novidade do vocábulo. É o caso de Silvana P., professora do Ensino Fundamental de Toledo, no Paraná: “O pessoal da escola confeccionou um cartaz em que consta Festa Julina. Procurei este adjetivo mas não encontrei em dicionário algum. O que encontrei foram os adjetivos júlio (decreto júlio, lei júlia) e juliano (calendário juliano) mas eles, além de esquisitos, se referem a Júlio César e não ao mês de julho. Um colega aqui da casa sugeriu escrever Festa de Julho e terminar logo com a discussão. O senhor é contra julina?”.

Ora, Silvana, eu sempre me coloco, em princípio, do lado de qualquer palavra nova que surja espontaneamente, pois há muito compreendi que o aumento do léxico só pode trazer vantagens para todos nós. Essas criações vão enfrentar o plebiscito do uso, que vai decidir se elas sobreviverão ou apenas deixarão um registro fugaz de sua passagem pelo idioma. Não posso ser, portanto, contra julina só acho que ela é mais uma criação artificial, cerebrina, do que um rebento natural na grande árvore da nossa língua. As festas de nossos santos são juninas; embora este adjetivo seja originalmente um derivado de junho, passou a descrever um determinado tipo de festa que pode ocorrer em qualquer época do ano, com características reconhecidas em todo o território brasileiro: quadrilhas, brincadeiras em torno da fogueira, sanfona, quentão, canjica, amendoim, pinhão (nos estados do sul), casamento na roça e outros que tais.

Atribuirmos a junina o sentido estrito de “ocorrida em junho” ensejaria a criação de um adjetivo para cada mês, gerando preciosidades do tipo julina, agostina, setembrina e quejandos. Assim como podemos fazer um carnaval em agosto, em Nova Iorque, podemos fazer, em maio, uma festa junina para comemorar um aniversário infantil, ou, em outubro, receber os presidentes da Bolívia e da Argentina com uma legítima festa junina para deixar bem claro, de uma vez por todas, que eles têm toda a razão em nos tratar como meros caipiras. Se o cartaz da tua escola, prezada Silvana, anunciar uma Festa Junina — seja ela realizada em qualquer mês, de janeiro a dezembro —, os participantes saberão o que vão encontrar.

Para concluir, um pequeno registro sobre o futuro do Acordo Ortográfico: se eles foram generosos o bastante para permitir que optemos livremente entre grafar fôrma ou forma, não vejo por que não estender esta indulgência — e com muito mais razão — ao verbo parar na 3ª pessoa do singular. São inúmeras as situações em que este acento é decisivo para orientar nossa leitura. Recolhi um punhado delas, mas gostaria que o leitor me enviasse por e-mail os exemplos que tiver encontrado por aí. Para perceber a utilidade do acento, basta imaginar as frases sem ele: “Alguém pára o Barcelona?”; “Chegada de contêineres pára porto de Paranaguá”; “Fulano, que faz tudo para voltar para o partido, não pára o trabalho”; “Caravana de drag queens que ia para Pelotas refaz a rota, pára o Rio Grande e reacende a discussão sobre homofobia”; “A microusina fornece luz suficiente — mas pára três dias”. Tenham dó!

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Informo também aos amigos que no dia 6 de agosto inicio novas turmas de Português para Concursos, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou em www.casadeideias.com.