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Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

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caquistocracia

 

Quando um regime privilegia um pequeno grupo de poderosos, quando as massas, conduzidas por líderes populistas, tentam se sobrepor às leis e às instituições, caímos na CAQUISTOCRACIA — o governo dos piores.

Às vezes meus amigos me convocam para servir de árbitro em alguma questão de linguagem. Desta feita, a discussão foi sobre a paternidade de caquistocracia, este desajeitado vocábulo que serve de título à coluna de hoje (e que já vou, sem demora, dissecar para meus leitores). Um dos lados alega que é um neologismo criado pelo professor Michelangelo Bovero, de Turim, que esteve em Porto Alegre numa das edições do Fronteiras do Pensamento; o outro atribui a criação do termo a um pensador argentino, Jorge Garcia Venturini, num artigo publicado na década de 70, anterior aos trabalhos de Bovero. Como já faz tempo que deixei de trabalhar de graça, fixei um preço para essa arbitragem; agora que ambos os contendores já pagaram o combinado (dois quilos de uma erva-mate muito especial e outras tantas voltas de lingüiça caseira), publico aqui o resultado de minha pesquisa.

O interessante da questão é que tanto Bovero quanto Venturini (ambos são cientistas políticos) alegam ser o pai legítimo de caquistocracia, palavrona criada para designar “o governo dos piores”, em oposição à aristocracia, que seria “o governo dos melhores” — mas nenhum dos dois tem razão. Eles são autores da segunda metade do século 20, e o termo já vinha sendo usado há mais de um século antes de nascer Venturini, que é o mais velho. Uma rápida passada pelo OED (o grande dicionário da Oxford — o maior monumento lexicográfico que conhecemos) mostra que o termo caquistocracia (em Inglês, kakistocracy) era usado desde 1826, enquanto o adjetivo da mesma família, caquistocrático (kakistocratical), já aparece em 1641. O fato de ambos se declararem, formalmente, inventores de uma palavra que já existia não depõe contra sua honestidade intelectual; são incontáveis os artistas e pesquisadores de renome que foram vítimas de criptomnésia, esta ilusão de ser o primeiro a formular uma determinada idéia ou a empregar determinado vocábulo quando, na verdade, estão apenas recuperando, na memória, um conteúdo que foi colhido na obra de outrem.

Para entender melhor a motivação que fez esta palavra nascer (seja lá quem tenha sido o seu criador), é necessário voltar, na Grécia antiga, à obra de Políbio, que morreu no ano de 125 A.C. Assim como todas as coisas estão sujeitas à degeneração, dizia ele,  assim também degeneram as formas de governo que podemos adotar. Assim como a ferrugem, para o ferro, ou o caruncho, para a madeira, são enfermidades internas que podem destruir esses materiais, cada um dos regimes políticos conhecidos traz consigo o risco de uma enfermidade que pode disvirtuá-lo: a monarquia, com o rei bom, pode degenerar em tirania (ou despotismo).  A aristocracia, em que mandam os mais sábios (de aristós, “o melhor” + cracia, “poder”), pode degenerar em oligarquia (de olígos, “pouco” + arquia, “autoridade”), o governo de poucos, ávidos predadores da sociedade. Finalmente, a democracia (de demos, “povo”) pode descambar para a oclocracia (de óclos, “multidão”), o governo da ralé que, controlada por demagogos, usa a força bruta para se sobrepor à lei e às instituições.

O bom Políbio preconizava, como preferível, um sistema político que misturasse as virtudes das três formas benignas (monarquia, aristocracia e democracia) para estabelecer um regime misto em que os melhores mandassem em nome do povo, mas nunca chegou a pensar, como fez Bovero, na possibilidade oposta — um regime em que viessem a se combinar as características das três formas degeneradas (tirania, oligarquia e oclocracia). Afinal, Bovero, que é nosso contemporâneo, acompanhou a dissolução política que caracterizou a Itália de Berlusconi e viu nascer esse sistema — hoje tão próximo do Brasil e de seus vizinhos —  que mistura a cega violência da massa, a oligarquia dos ricos e o autoritarismo quase ditatorial dos líderes demagógicos. Pois foi justamente para nomear esta sinistra combinação dos vícios e defeitos de todos os sistemas que lhe ocorreu (como já tinha ocorrido a outros, antes dele) juntar a cracia o elemento kakistos, “pior” (superlativo de kakos, “mau, ruim” — o mesmo que usamos em cacófato e em cacofonia). É claro que nem ele, nem Venturini, nem ninguém antes deles pode ser considerado o “pai” desta palavra. Caquistocracia nada mais era do que um vocábulo que já existia virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera, apenas, de que a vida real produzisse as condições necessárias para que alguém a empregasse. É assim que a língua funciona.

Depois do Acordo:
lingüiça>linguiça
idéia>ideia

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Formação de palavras Lições de gramática

hétero, héteros

Como estou diariamente envolvido com dezenas de textos sobre gays e lésbicas, tendo em vista que realizo um trabalho específico nesta área, às vezes preciso referir-me às pessoas que não são gays e tenho que deixar isso claro no texto. Nestes casos, uso a palavra heterossexuais mas todos temos de convir que é muito grande, principalmente se comparada com gay, e fica pedante e cansativa se for repetida duas ou três vezes num trecho pequeno de texto. Assim, é muito comum as pessoas se referirem aos não-gays simplesmente como héteros. Minha dúvida é sobre a existência desta palavra e sobre a grafia correta, pois não sei se deve levar acento e posso flexioná-la em gênero e número como um adjetivo ou substantivo normal. Por exemplo: “Compareceram à Parada Gay milhares de gays e héteros, inclusive suas famílias”; “Eu achava que sua irmã fosse hétera mas ela mesma me confirmou que é gay (lésbica)”. Pergunto: a palavra hétero existe? Tem de ser escrita com acento? Aguardo sua resposta. Muito obrigado e um grande abraço.

Marcelo de A.

Meu caro Marcelo: um dos mais recentes processos de formação de palavras no Português é o que chamamos de redução: no momento em que algum vocábulo complexo, geralmente composto de elementos eruditos e científicos, passa a fazer parte do vocabulário quotidiano, há uma forte tendência a reduzi-lo para um padrão prosódico mais confortável. Assim, a fotografia virou foto, o telefone virou fone, a motocicleta, depois de passar por motociclo, virou moto. Observa como o mesmo não ocorreu com a caligrafia ou a filmografia, com o interfone ou o xilofone, exatamente pela pequena ocorrência desses vocábulos na linguagem usual (ao menos até agora). A meu ver, este processo de redução, extremamente produtivo no Francês, será cada vez mais comum em nosso idioma.

O vocábulo heterossexual era perfeitamente manejável na linguagem técnica, onde vivia recluso. No momento em que o termo entrou na língua do dia-a-dia, no entanto, passou a ser um trambolho prosódico, sofrendo a redução para hétero, proparoxítono, como observaste. A acentuação destes vocábulos “encurtados” segue a regra oficial; por isso, bíci (de bicicleta), ou deprê (de depressão). Não importa que a parte remanescente fosse, no vocábulo original, uma forma presa (geralmente elementos de origem grega ou latina) — ela agora passa a ser autônoma e independente. Já estamos acostumados a pornô, máxi, míni, múlti; o supermercado virou, em algumas regiões, o súper; a poliomielite já tornou-se pólio, e assim por diante — tudo isso no Português usual (mais ainda na linguagem específica de várias profissões; basta ouvir médicos conversando entre si para avaliar como o processo está mais adiantado).

Plural ele vai ter, naturalmente: héteros, como fotos, motos, máxis, pólios. Quanto à flexão dele no feminino, acho que ainda preferimos o seu uso invariável (uma militante hétero). No entanto, não me surpreenderia se fosse crescendo a tendência a transformá-lo em biforme (hétero, hétera), principalmente porque esse final em “O” inexiste em vocábulos femininos, com exceção apenas de libido e de tribo. O tempo dirá. Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

herbicidar?

Olá, Doutor Moreno: de início gostaria de parabenizá-lo pela belíssima página. Dúvidas no uso da nossa língua serão constantemente freqüentes, se considerarmos a dimensão dela, a nossa curiosidade, o resgate a expressões e o acréscimo de termos (que vemos constantemente acontecer). A dúvida que te trago nasceu de uma conversa com um colega agrônomo que crê ser herbicidar um verbo, que pode ser conjugado normalmente, descrevendo a ação de “matar ervas”. Disse-lhe que nem todo substantivo pode se tornar verbo e que correria menos risco de formar neologismo se falasse apenas “aplicar herbicida”. No entanto, precisamos de um voto credenciado e decisivo à questão. Um abraço. 

Fábio Maia

Prezado Fábio: obrigado pelo cumprimento; posso dar a vocês um voto credenciado, mas não decisivo, pois o saber humano é infinito em seu progresso. Como agrônomo, deves te sentir em casa com a idéia de que a língua é um organismo vivo e, como tal, tende para a economia de energia e de recursos. Se fizesse sentido criarmos um herbicidar (do ponto de vista morfológico, até que é um verbo viável), por que não teríamos homicidar, genocidar, infanticidar, pesticidar, parricidar, etc.? Comparando custo e benefício, verás que não vale o esforço (e o sistema lingüístico parece ter chegado à mesma conclusão). É significativo que o único verbo a surgir autonomamente foi suicidar-se, certamente por todas as implicações trágicas e excepcionais que cercam o ato. Embarcar veio de barco, mas hoje podes embarcar em trem, avião, carruagem, ônibus espacial e até numa fria. No tempo da Semana de Arte Moderna, os poetas (que não passavam, em sua maioria, de piadistas) usavam alegremente avionar, trenzar, etc. — mas nada disso vingou. Continuem a “aplicar o herbicida”, que é melhor. Aliás, nota que há uma disputa de significado aí nesse hipotético herbicidar: ele significaria “aplicar herbicida”, ou “matar ervas”? São coisas bem diferentes, como tu, mais do que ninguém, deves saber. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: freqüentes, idéia, lingüístico > frequentes idéia lingüístico 

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

existe “excepcionação” ?

Pergunta a leitora Márcia, de Brasília: “Caro professor: existem as palavras excepcionação e excepcionalização?” 

1ª resposta: 

Prezada Márcia: em questão de vocábulo, não tem essa de existe ou não existe. O maior dicionário que temos, em Português, tem apenas um terço das palavras de nossa língua. E os outros dois terços? Estão por aí, à nossa disposição. Qualquer língua natural — Português, Inglês, etc. — tem um conjunto de elementos (prefixos, radicais e sufixos), mais algumas regras de combinação desses elementos. Com isso, o falante tem uma verdadeira máquina de construir (seria melhor dizer fazer surgir) a palavra certa na hora em que dela necessitar. Tua pergunta é sobre duas aves esquisitas, excepcionação e excepcionalização. Em que contexto (em que frase) elas poderiam ser necessárias? Eu preciso saber disso, para poder emitir uma opinião honesta. Manda as frases em que tu viste essas palavras empregadas, ou em que tu sentiste vontade de empregá-las. Aí eu posso te responder. Abraço. Prof. Moreno

A leitora voltou, desta vez trazendo o contexto: “Ao GT-SP foi aplicada a mesma filosofia dos demais GTs, porém, pelo fato de existirem características próprias devido à centralização nacional de algumas atividades e do nó tecnológico, devemos analisar, em conjunto com aquele Grupo de Trabalho, as excepcionações para as atividades que necessitem de uma supervisão direta” .

2ª. resposta:

Minha cara Márcia, para mim, continuam faltando dados, mas agora de outra ordem. Nota que as palavras do Português (as que estão no dicionário e as que ainda nem sonham em aparecer) seguem sempre um conjunto de regras de formação determinado pelo próprio caráter da língua. Um desses princípios subterrâneos possibilita que, a partir de um verbo qualquer, formemos, se julgarmos necessário, um substantivo abstrato (é um processo importantíssimo em todas as línguas do mundo; sua real justificativa não cabe aqui discutir). Como fazemos isso? Acrescentando certos sufixos típicos para essa finalidade: -mento, -dura, -agem, -ção, etc. Os substantivos assim formados conservam, evidentemente, uma forte dose do significado de AÇÃO que o verbo caracteristicamente apresenta: enfrentamento, desaparecimento (ato de enfrentar e desaparecer); propositura, abertura (ato de propor e abrir); secagem e moagem (ato de secar e moer); construção e conservação (ato de construir e conservar); e assim por diante. 

Ora, dessa forma, para podermos formar excepcionação, devemos presumir um verbo excepcionar. O verbo existe e está registrado no Aurélio-XXI; o problema é que tem um sentido completamente diferente do que está no exemplo que enviaste. É um verbo da técnica jurídica, mais precisamente do Direito Processual, e significa “opor exceção”, isto é, a “defesa indireta (relativamente à contestação, que é direta), em que o réu, sem negar o fato afirmado pelo autor, alega direito seu com o intento de elidir ou paralisar a ação (suspeição, incompetência, litispendência, coisa julgada, etc.)”. Bem longe, não é? 

Que dados me faltam, então? Bem, se fosse possível demonstrar que este mesmo verbo excepcionar (que é, aliás, monstruoso — o que não dizer então do excepcionação, que é abominável?) vem suprir uma real necessidade léxica ou sintática dessa área em que tu te moves, e — o que é fundamental! — que usando excepcionação vais conseguir dizer alguma coisa que não consegues dizer com nossa velha exceção, aí teríamos uma justificativa para o novo termo. Confesso que, lendo o exemplo que mandaste, pareceu-me que exceção entra perfeitamente na frase. Pode haver aí, entretanto, alguma nuança técnica que não alcanço; por isso, passo a ti a decisão: se existe alguma coisa realmente nova, preciso de mais exemplos. Se não há significação nova envolvida, então, por amor à língua de Vieira e Machado, enterra essa coisa horrorosa. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: excepcionalização, nem pensar, pois, para que exista, precisaríamos de um excepcionalizar! É claro que continuo na minha atitude prudente: pode ser que haja aqui sutilezas que me escapam…

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Através dos dicionários Formação de palavras Questões do momento

normatização

Meu caro Doutor: depois de assistir a uma palestra sobre a “normatização das relações sociais na América Latina”, fechou o tempo em nosso grupo de estudos, porque uns dizem que o verbo normatizar não existe e muito menos o substantivo normatização. Eu não vejo nada de estranho nesse vocábulo, mas não encontrei no dicionário e não tive argumentos para defendê-lo. Afinal, essa palavra existe? Ou o certo seria normalização, como querem meus colegas? Lúcia S. — São Paulo (SP)

Minha prezada Lúcia: em primeiro lugar, normatizar não veio para ser usado no mesmo sentido de normalizar; o aparecimento recente deste verbo revela a preocupação em individualizar uma nuança específica. Normalizar, forma mais antiga, deriva do adjetivo e significa “tornar normal”, assim como legalizar e banalizar significam “tornar legal e banal”, respectivamente. Nas últimas décadas, este verbo teve seu alcance ampliado para designar também a atividade de regulamentação de parâmetros e de especificações técnicas, como se pode ver no Aurélio XXI e no Houaiss. No entanto, tudo indica que esse acúmulo de significados por parte do mesmo vocábulo não estava sendo funcional, pois logo surgiu normatizar, também registrado nos dois dicionários mencionados, com o significado específico de “regular algo através de uma norma”. Sua utilidade já pode ser medida pelo tema da palestra a que assististe: normatizar as relações sociais na América é bem diferente de normalizá-las

Transmite a teus colegas uma velha verdade lingüística: as palavras não nascem por acaso; elas são criadas pela própria língua, que é uma verdadeira máquina de formar palavras, para atender a finalidades específicas. Quando se cria um verbo a partir de um substantivo, ou um substantivo a partir de um verbo (e assim por diante), é para permitir a inserção do mesmo conceito em um outro ponto da estrutura sintática. O significado “regular algo por meio de normas” é representado por “normatizar“, que, por sua vez, produziu normatização. Usando este vocábulo, o falante pode encaixar todo o processo “regular algo por meio de normas” no lugar de um sintagma nominal qualquer (pode ser sujeito da frase, objeto, predicativo, etc.). Se não dispuséssemos desse substantivo, uma afirmativa simples do tipo “há interesse na normatização do setor” passaria a um antieconômico “há interesse em regular o setor por meio de normas”. E de que maneira conseguiríamos dizer que “a normatização do setor exige esforço concentrado”? Poderíamos recorrer a um daqueles desajeitados vocábulos de apoio (ato, fato, dado, etc.) e construir uma ladainha do tipo “o ato de regular o setor por meio de normas exige esforço concentrado” — mas aí alguém sentiria a necessidade irreprimível de criar um vocábulo para “o ato de regular”, e tudo voltaria à estaca zero.

Alguém ainda poderia questionar se normatizar é vocábulo bem formado. Eu diria, a esta altura, que já é tarde, e Inês é morta! Embora não seja aceita por algumas instituições tradicionais, como a ABNT, a palavra já anda por aí, viva, saudável, fazendo parte dos dois mais modernos dicionários de nosso idioma, usada alegremente por um grande número de falantes de boa cultura e formação superior. Seu processo de criação pode ter sido similar a dogma:dogmatizar, drama:dramatizar: o sufixo –izar foi acrescentado a um radical que possui, subjacentemente, um /t/, como se pode ver em normativo.

Tua pergunta, Lúcia, veio juntar-se a dezenas de outras que revelam a resistência de muitas pessoas ao surgimento de vocábulos novos! É espantoso como há um grande número de brasileiros letrados, sinceramente interessados no estudo do idioma, que se arrepiam assim que vêem uma palavra nova aparecer na esquina! No fundo, devemos tratar essas novatas com a mesma humanidade que tratamos uma pessoa desconhecida que nos apresentam: vamos observá-las com interesse, tolerância e curiosidade para ver se elas merecem fazer parte de nossa memória ou se vão engrossar o exército daquelas que já esquecemos. Abraço. Prof. Moreno.

P.S.: eu não me espantarei se, um dia desses, aparecer um normativar para indicar “tornar normativo”. Filosoficamente, vou sentar na minha cadeirinha e ficar esperando que surja logo um normativizar para brigar com ele. Se houver sobrevivente, a língua vai incorporar o vocábulo e enriquecer nosso léxico. Isso não é bom?