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Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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Ovação

 

Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Não poderia ser diferente com as palavras.

Pois as tais fake news só vicejam porque encontram terra fertilíssima dentro de nós mesmos. Assim como as lendas urbanas nascem dos nossos temores e desejos mais profundos — e por isso parecem tão verossímeis —, assim essas “notícias falsas” (como se diria em bom vernáculo) parecem bem verdadeiras porque vêm confirmar aquilo que previamente já pensávamos ou sentíamos sobre um tema. Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Sempre foi assim, desde a caverna, e acho que nunca vai mudar. Na versão homérica, os gregos venceram a guerra e destruíram Troia; oitocentos anos depois, Dio Crisóstomo afirmou que isso era uma deslavada mentira, e que Homero havia invertido o desfecho para agradar aos gregos e fazê-los esquecer do vergonhoso fiasco…

Não poderia ser diferente com as palavras. A etimologia pretendia, como diz o nome (do Grego etymon, “verdadeiro”) chegar ao verdadeiro significado das palavras; a realidade, no entanto, reduziu-a aos limites do possível, e ela passou a estudar a história das palavras − ou seja, as narrativas que se tecem sobre elas. Nossos primeiros dicionaristas de renome − Bluteau (1728), e depois dele Morais (1789) − definiam enfezar como “meter fezes”, “encher de fezes o que está limpo”. De onde veio isso? Do Latim? De costumes romanos? Jacaré deu algum exemplo disso? Não? Pois nem eles. Ao menos ambos tiveram a prudência de registrar, como observação lateral, que o termo pode significar também “enfadar muito, fazer encolerizar”. Os dicionários modernos preferem derivá-lo do Latim infensare, “encarniçar-se contra, ser hostil a”, hipótese mais provável que a anterior, mas sempre uma hipótese. Há pontos que ainda falta esclarecer, especialmente no significado, pois hoje enfezar significa tanto “aborrecer, irritar” (“Verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora” – Macedo) quanto “impedir o desenvolvimento; não se desenvolver; tornar-se raquítico” (“a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma” – Alencar). Veremos qual será a próxima explicação…

O mesmo se dá com ovação. A etimologia popular, na sua comovente simplicidade, fixou-se na evidente semelhança com o radical de ovo e inventou uma história condizente: seria uma cerimônia típica da caserna, uma espécie de trote em que o vencedor era saudado com uma chuva de ovos − podres, acrescentam alguns, para aumentar a macheza da ocasião. Afinal, como disse Flaubert no seu famoso Dictionnaire, a etimologia só precisa de um pouco de Latim e de imaginação…

Os homens de letras, no entanto, contestaram com veemência essa versão ginasiana; diferentemente da espetacular cerimônia do triunfo, que tinha pompa e luxo capazes de matar Hollywood de inveja, a ovação era a comemoração de uma vitória militar de menor importância (combate a escravos ou a piratas, ou vitórias sem derramamento de sangue), ao cabo da qual era sacrificada uma ovelha − em Latim, ovis (daí o nosso ovino). Essa seria, segundo Plutarco, a verdadeira origem do nome. Alguns estudiosos, no entanto, acharam a teoria da ovelha insatisfatória, duvidaram dos conhecimentos que Plutarco teria do Latim (ele só falava e escrevia em Grego) e sugeriram que ovação vem do verbo ovare “lançar gritos de entusiasmo e de alegria”, mais ou menos como o evoé das festas dionisíacas. Achei esta melhor do que as duas outras, até porque existe, em nossa língua, o adjetivo ovante, “triunfante, vitorioso”, que Eça usa mas só fui conhecer agora: “Pus uma rosa ao peito e saí, ovante“, conta o patife do Teodorico, em A Relíquia. E é neste ponto que estamos − por enquanto.

 

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Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

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Guardanapo

 

 

Às vezes a pergunta vem de tão pertinho que não acho justo deixá-la na fila: meu filho Matias, que é um dos ases da cozinha do Chicafundó, de Porto Alegre, manda mensagem por Whatsapp: “Pai, estávamos discutindo aqui no restaurante e surgiu uma dúvida que só tu podes resolver: o que é que o guardanapo guarda?”. Descontando o “só tu”, que é evidente exagero filial, gostei muito da pergunta, porque vem lembrar que o interesse pelas palavras, assim como os deuses de Heráclito, pode se manifestar em qualquer lugar.

Como a pergunta revela, vocês identificaram corretamente a ocorrência aqui de um composto do verbo guardar, como tantos outro de nosso idioma. Alguns estudiosos, subindo muito alto no afã de enxergar mais longe, pensam encontrar a origem do termo no nosso velho Latim; de minha parte, prefiro, como fez Bluteau, ver em guardanapo um empréstimo do Francês, língua a que devemos tantos vocábulos no campo da culinária, do requinte e do conforto. Embora os súditos de Macron usem atualmente o termo serviette para designá-lo, seu nome antigo era gardenappe (no It., guardanappa), vocábulo formado por garder (“guardar, proteger”) e nappe (“toalha de mesa”).

Para entender essa etimologia, é necessário relembrar alguns detalhes pitorescos da história dos nossos hábitos à mesa: exceto as sopas, é claro, que demandavam a colher, comia-se tudo com a mão, o que resultava, como diria minha vó, numa inevitável lambança. Aliás, na Crônica da Ordem dos Frades Menores (1557), no capítulo que trata da etiqueta à mesa, recomenda-se que aquele que assoa o nariz na mão ou “se coça com sua mão nua” tome cuidado na hora de estender esta mão abençoada para os alimentos dos outros; e que não encoste o pão ao peito para cortá-lo, e que − prática considerada “cousa suja e vil” − não esfregue os dentes nos panos da mesa. Acrescentem a essas mãos sujas as grandes barbas e os longos bigodes, como era o uso da época, e teríamos uma sinfonia de imundícies, não fossem tomadas algumas precauções indispensáveis de higiene.

Uma delas eram as pequenas bacias de prata com água perfumada, para limpar os dedos, a boca e o que mais a decência permitisse; a outra era o guardanapo, uma espécie de descanso circular de prata, de estanho, de couro ou de vime trançado,  sobre o qual se punha, na mesa, o vinho, a água, o pão (no início) e mais tarde o próprio prato, para proteger a toalha de possíveis manchas. O passo seguinte foi transformá-lo numa “toalha pequena, que cada pessoa estende desde baixo do seu prato até os joelhos, ou sobre eles somente, para lhe não cair sobre os calções, ou para se limpar” (a definição é do dicionário de Bluteau, de 1728). Não é por acaso que os ingleses o chamem de napkin, que também deriva do Francês nappe mais o sufixo diminutivo –kin − literalmente, portanto, uma “toalhinha”.

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coco e cocô

A consulta veio do outro lado do Atlântico, mais precisamente de Lisboa. Escreve de lá o leitor Nuno T.: “Professor, fiquei muito curioso quando li, num site do Reino Unido, que a palavra deles coconut (“noz de coco”) tinha vindo do Português coco. Gostaria de saber se é verdade, pois isso seria para mim motivo de orgulho. Afinal, a gente só vive a importar… E por falar no dito, tenho outra dúvida que o senhor pode não responder, se não achar conveniente: e o cocó das criancinhas (ou cocô, como dizem em vosso país), por que é tão parecido? Haverá alguma relação com o fruto do coqueiro?”.

Prezado Nuno, a resposta é sim para a primeira e não para a segunda. No caso do coco, a origem é mesmo lusitana e, a meu ver, bastante supreendente. Esta palavra designava, inicialmente, uma entidade imaginária usada para assustar as crianças — algo da estirpe do nosso bicho-papão (do verbo papar, ogro que tinha o desagradável hábito de papar os petizes que não se comportassem). Vários estudos folclóricos da Península Ibérica descrevem o antiquíssimo costume de abrir dois olhos e uma boca numa abóbora ou numa cabaça, muitas vezes iluminando-as por dentro (o que não é, como podemos ver, uma invenção dessa praga do Halloween).

Quando os portugueses se lançaram na aventura dos descobrimentos, tomaram contato com o coqueiro nas praias do Oceano Índico (coqueiro esse que mais tarde foi transplantado para cá e se aclimatou tão bem que passou a ser um dos símbolos nacionais, como diz a letra da ufanista Aquarela do Brasil). Vendo no fruto a semelhança de uma cabeça com olhos vazados, tal qual a cara da assombração, acharam natural designá-lo pelo mesmo nome. João de Barros, em suas Décadas na Ásia, de 1563, é um dos autores que deixam bem clara essa origem, ao dizer que o fruto do coqueiro parece ter um “nariz posto entre dois olhos redondos… por razão da qual os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer coisa com que querem fazer medo às crianças”.

Já o vocábulo cocô não tem assim ilustres antecedentes literários, pois pertence àquele léxico especializadíssimo que se usa na interação do adulto com seus pequerruchos. O nome das pessoas e das atividades cotidianas mais importantes é modificado, reduzido para uma forma mais pronunciável, mais adequada ao ainda inexperiente aparelho da fala da criança, que só domina as sílabas de estrutura mais simples —  no caso da nossa língua, uma sequência de consoante seguida de vogal, que geralmente aparece  reduplicada. É por isso que se criam, no coração das famílias, tantos apelidos como Zezé, Dudu, Lili, Juju, Dadá, etc. —  o mesmo processo que está presente nas primeiras palavras que nossos brasileirinhos pronunciam (e que todos na casa passam a adotar, no seu diálogo com os pequeninos): cocô, pipi, popô, xixi, totó, babá, bebê, papá, mimi, por exemplo, que podem ser diferentes em Portugal. Aliás, o cocó que os portuguesinhos usam no lugar de cocô é, para os nossos pequenos, a designação da galinha e assemelhados, numa evidente formação onomatopaica. França Júnior, autor de comédias do séc. 19, desdobra o vocábulo e faz ouvir em cena o que seria uma frase complexa na língua dos galináceos: “Có, có, cocó, coró có, có có coró”. Não sei o que quer dizer, mas tem estilo.

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propina

Embora pareça ser uma especialidade brasileira, PROPINA, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado, aqui e além-mar.

 

Um fiel amigo acaba de voltar da Europa, de onde quase me trouxe um presente. Fiquei muito agradecido pelo quase, não por acreditar naquela conversa fiada de que é a intenção que vale, mas porque ele sacrificou as duas preciosas horas entre um voo e outro, em Lisboa, na tentativa de comprar, para mim, uma garrafa de um bom tinto de Colares. O trânsito estava interrompido por uma estrondosa manifestação de estudantes que protestavam contra o recente aumento no valor das propinas. Para aumentar ainda mais o absurdo da cena, o motorista do táxi virou-se para trás e, como a se desculpar pela bulha que os jovens faziam, declarou: “Eles não deixam de ter sua razãozinha. Vá lá que se pague, mas dentro do bom senso! Essa nova tabela de propinas é um verdadeiro abuso! Um verdadeiro abuso!”. Como o engarrafamento não cedia, meu amigo voltou para o aeroporto sem o meu presente, mas convencido de que a corrupção que grassa em nossa Pindorama é uma herança direta de Portugal, país que chega à perfeição de ter propinas tabeladas! Por sorte, fui eu a primeira pessoa a quem ele expôs essa teoria  genética da desonestidade brasileira  — primeira e única, porque fiz questão de desmanchar imediatamente esse perigoso mal-entendido.

Ocorre que propina, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado. Na Grécia, propinein (de pro, “antes”, e pinein, “beber”)  era uma espécie de brinde muito comum nos banquetes, destinado a reforçar os laços entre amigos ou parentes. A cerimônia se dividia três ações sucessivas, sempre na mesma ordem. Por exemplo, numa festa de casamento, o sogro enchia de vinho uma taça especial, geralmente valiosa, bebendo ele próprio alguns goles de seu conteúdo; depois, levantava um brinde à saúde do genro e dava-lhe a taça de presente. O jovem, então, bebia do mesmo vinho que o sogro tinha bebido, a fim de que se estabelecesse entre os dois um vínculo incorruptível de parentesco.

No passo seguinte, em Roma, propinare já não se referia a esse ritual formalizado, mas simplesmente significava “convidar alguém para beber” e, mais tarde, “dar de beber a alguém, ministrar, servir”. É nesse sentido que o verbo aparece na fórmula de exorcismo do tempo do Papa Leão XIII, quando, dirigindo-se ao capeta, o exorcista ordena: “Cesse decipere humanas creaturas, eisque aeterna perditionis venenum propinare” — o que vem dar, em vernáculo, algo como “Deixa de enganar as criaturas humanas e ministrar-lhes o veneno da perdição eterna”. Aliás, é nesse mesmo sentido que nossos escritores do séc. XIX usaram o verbo propinar: “Há envenenamentos propinados por escravos” (Macedo); “Guardai-vos das Circes: prometem prazeres e propinam veneno” (Marquês de Maricá).

No séc. XVIII, o vocábulo propina passou a ser usado para designar  a bebida que se pagava a alguém para premiá-lo por um bom serviço prestado, prática que foi simplificada com a simples oferta da quantia correspondente. Nos países de língua espanhola, esse continua sendo o sentido preponderante do vocábulo; dá-se propina ao garçom, ao porteiro do hotel ou ao carregador de malas para recompensar sua eficiência ou sua boa vontade. No Brasil atual, no entanto, criou-se uma curiosa distinção entre o antes e o depois: essa gratificação  por um serviço qualquer  é chamada de gorjeta, enquanto propina passou a designar o dinheiro que o brasileiro dá antecipadamente a alguma autoridade corrupta para garantir a obtenção daquilo que ele deseja; como invariavelmente se trata de atos ilícitos, o funcionário corrompido cobra sua recompensa  antes,  para evitar possíveis calotes do corruptor. A classe dos que recebem propina vai ficando tão numerosa que aqui e ali já há indícios de um progressivo aperfeiçoamento da instituição, tais como a emissão de recibo, o registro das propinas auferidas na declaração do Imposto de Renda e o pagamento parcelado por meio de carnê.

Em Portugal, no entanto, propina adquiriu um significado totalmente diferente daquele que tem no Grego, no Latim, no Espanhol ou no PB (Português do Brasil); na terra de Eça e de Camilo Castelo Branco, o termo designa simplesmente as anuidades cobradas pelas faculdades e pelos colégios, sejam privados, sejam  públicos (que também são pagos). Várias instituições de ensino divulgam, na internet, o seu “regulamento de propinas“; o estudante bolseiro (que nós chamamos de “bolsista”) está isento de pagar a propina; o Conselho de Reitores fixa o valor da propina — e assim por diante. Os estudantes que meu amigo encontrou nas ruas de Lisboa, portanto, protestavam  contra o aumento das anuidades.      Era só isso.

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propinocracia

 

 

A algumas semanas da eleição, poucos foram os brasileiros que ficaram indiferentes à denúncia oferecida contra o ex-presidente Lula pelos procuradores da operação Lava a Jato — uns a criticar, outros tantos a aplaudir. Entre estes últimos certamente se inclui nosso leitor Alberico Z., de Caxias do Sul, o qual, depois de elogiar muito esta coluna (“Recorto sempre e mostro para os amigos”), lamenta que os jovens integrantes da força-tarefa do Ministério Público tenham maculado sua apresentação ao empregar o termo propinocracia, que não está nos dicionários. “Professor, entendo o que eles querem dizer com isso, mas acho que um neologismo deste quilate destoa como um resto de feijão no dente. O senhor não concorda?”.

Não, caríssimo leitor, não concordo — e aconselho que você puxe uma cadeira e aproveite o divertido desfile dessas palavras que nascem da recombinação de elementos que todos conhecem. Como sabem que o termômetro e o barômetro são instrumentos de medir, os falantes criaram, por analogia, palavras como olhômetro, impostômetro, sonegômetro e bafômetro, que são muito úteis e de significado muito claro. Os hotéis equiparam cada quarto com um frigobar? Pois um folheto anuncia um passeio ecológico pela Serra do Mar, em que os participantes serão acompanhados por um guia e um paciente frigoburro. Não é uma beleza?

Além disso, a palavra propinocracia já não é tão nova assim. Em 2011, por exemplo, Cláudio Noronha publicou em seu blogue um texto facecioso em que deita e rola, descrevendo uma suposta república propineira, que segue o regime da propinocracia. O poder é dividido entre propinocratas novos e velhos — os neopropinocratas e os propinossauros, todos eles imbuídos do mais legítimo espírito propinocrático.  O problema, diz o autor, é que “recente pesquisa, feita pelo Instituto de Propinologia
e disponibilizada na propinet, revelou uma tendência perigosa da sociedade se polarizar, opondo propinistas contra antipropinistas” — e por aí vai a valsa. 

Como podemos ver, não precisamos consultar um dicionário para entender essas palavras, pois nosso léxico é como um imenso Lego: as peças estão na caixa, à disposição do falante, que pode usá-las para produzir centenas de milhares de combinações que, é quase certo, não haverão de estar dicionarizadas. O blogueiro Cláudio Noronha ou os procuradores, portanto, não inventaram propinocracia ou o também recente propinoduto; elas já existiam virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera de que a realidade produzisse as condições necessárias para que alguém as empregasse. É isso que explica, aliás, a cara de paisagem que faço quando me perguntam quantas palavras tem nosso idioma…

Ah, outra coisa: o amigo disse que costuma recortar e guardar o que escrevo — no que muito me honra; talvez lhe interesse saber, por isso mesmo, que a Coleção Pocket da editora L&PM inclui três volumes de O Prazer das Palavras, reunindo uma
boa parte das colunas aqui publicadas.

(Ilustração do incomparável Edu – Jornal ZH) 

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Esposas

Esposas - Edu

 

Baseado na etimologia, um leitor alega que o termo “esposa” designa a mulher prometida em casamento, não devendo ser empregado para as que já estão casadas.  

Um fiel leitor desta coluna, L. Barros, de Pelotas, pede minha opinião sobre um ponto que ele julga controverso: “Ainda ontem li outro colunista do jornal Zero Hora falando sobre sua esposa de tantos anos. Volta e meia corrijo algum amigo dizendo que esposa é a mulher que está casando, isto é, a noiva; depois do casamento os cônjuges passam a se chamar marido e mulher. Sempre atribuo a um certo “respeito” o fato de chamarem a mulher de esposa, como se o termo mulher fosse depreciativo. Por isso, para esclarecer para sempre esta questão, pergunto se podemos mesmo chamar nossos cônjuges de esposo ou esposa”.

Prezado leitor, acho que você está levando a sério demais a etimologia do termo. Como todos sabem, são incontáveis os casos em que o passar do tempo modifica o sentido original das palavras. É verdade que esposa vem do Latim sponsa (“prometida”), feminino de sponsus, do verbo spondere (“prometer solenemente”), mas o Português e as suas irmãs, ao herdarem o vocábulo da língua-mãe, passaram a usá-lo principalmente no sentido de “mulher casada” — épouse (Fr.), sposa (It.), esposa (Cat. e Esp.).

No nosso caso, desde o séc. 15 (antes mesmo do Brasil ser descoberto!) usamos esposa e mulher como sinônimos. Vercial, no seu tratado de liturgia (séc. 15), ao descrever o sacramento do matrimônio, recomenda: “publicamente deve assim dizer: eu te recebo por meu esposo e marido, e ele deve dizer: eu te recebo por esposa e mulher“. O padre Vieira (séc. 17) deixa bem claro: “respondeu que se não queria descasar de sua esposa“. A Bíblia, em suas inúmeras versões, ora usa um, ora usa outro, como, por exemplo, em Salmos 109,9: “Que seus filhos fiquem órfãos, viúva sua esposa” (Católica); “Sejam órfãos os seus filhos, e viúva sua mulher” (Ferreira de Almeida). Como se pode ver, em princípio a escolha é livre.

É evidente, porém, que essa livre escolha pode estar condicionada, em cada situação, por todas aquelas forças sociais e psicológicas que interferem no uso que cada um faz das palavras. Como você muito bem reparou, caro leitor, o termo esposa é considerado por muitos uma forma mais refinada de chamar a sua cara metade. Balzac, em 1830, descrevendo um burguês parisiense, ressalta que ele vai sempre usar o termo esposa (épouse) no lugar de mulher (femme), que ele considera vulgar e descortês.

Além disso, há casos em que o termo mulher pode não deixar claro se estamos falando do feminino de marido ou de homem: “Fulano teve várias esposas” não deixa dúvida, ao contrário de “Fulano teve várias mulheres“. Hoje, mais do que nunca, o termo esposa contrasta com as inúmeras formas não tradicionais de relacionamento entre os casais modernos. Quem diz “Apresento minha esposa” quer, conscientemente ou não, subentender que ele e sua consorte estão casados oficialmente — o que não está implícito no conceito (muito mais amplo) de “minha mulher”, que engloba tanto as esposas quanto as companheiras, as namoradas, as parceiras, as “queridas”, os “rolos”, e todas as outras formas  de convívio que nossa imaginação afetiva puder criar.

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Férias no dicionário

Edu sáb ago 2015

Veja como um bom dicionário pode transportar seus filhos para um mundo de aventuras e descobertas.

Para aqueles que, como eu, ainda têm criança em casa, a segunda metade de julho é a época ideal para chegar mais perto dos petizes e compartilhar com eles alguns breves mas preciosos momentos culturais (suspeito, às vezes, que o prazer seja bem mais nosso do que deles, mas não faz mal: todos vão sair ganhando). Se não tiver um bom livro ou um bom filme à mão, aconselho a recorrer ao dicionário, que tantas aventuras pode oferecer. Quer ver como é fácil, leitor? Pois há dias se ouve aqui em casa (muito mais vezes, confesso, do que eu gostaria) a música Pomar, do incomparável grupo Palavra Cantada ― uma composição infantil bem ritmada em que desfilam todas as frutas conhecidas e as árvores que as produzem (“mamão, mamoeiro; banana, bananeira; pera, pereira…”). O que dá para tirar daí? Muito mais do que se pensa, como vamos ver.

Primeiro, tenho certeza de que nosso pequeno ouvinte não ficará indiferente ao ser informado de que, em nossa língua, a árvore sempre tem o mesmo gênero que sua fruta: abacate, abacateiro, mas laranja, laranjeira, e que este princípio vale para todas elas ― com a enigmática exceção do figo, que nasce na figueira. Como esse é um caso único entre centenas, temos aí um bom pretexto para voltar ao passado, no período em que a nossa e as demais línguas românicas se formavam ― quando descobriremos que, no Catalão, a fruta também é feminina (una figa). Não fica difícil, assim, defender a ideia de que o Português preferiu dar o gênero masculino à fruta para distinguir da figa, aquela mãozinha sem-vergonha com o polegar enfiado entre o dedo médio e o indicador, gesto usado tanto para afastar o mau-olhado quanto (tirem as crianças da sala!) para sugerir aquilo que Luzia foi fazer na horta.

Em seguida, que tal uma história de sangue e horror, daquelas que sempre agradaram aos pequenos? Que tal contar-lhes a lenda do Papa-Figo, o velho sinistro que raptava meninos para extrair-lhes o fígado, usado na tentativa de cura de um ricaço leproso? E explicar que o tal velho papão devia se chamar, na verdade, Papa-Fígado, mas que esse Papa-Figo popular não é tão errado como parece, porque figo e fígado nasceram juntos, na mesma hora e na mesma maternidade? Basta lembrar que era costume entre os romanos engordar os gansos com figos em passa, a fim de que sua carne ficasse com sabor mais refinado, e que a parte mais requintada era o jecur ficatum  (jecur, “fígado” + ficatum “com sabor de figo”). Com o tempo, o primeiro elemento se apagou e só restou ficatum ― exatamente como aconteceu com uma (linha) diagonal, um (dente) canino, uma (carta) circular, entre tantos outros.

Como um guia na floresta, você continua mostrando os caminhos que ligam pontos que pareciam tão distantes: o sobrenome Figueiredo que aparece na lista de chamada do colégio vem de um bosque de figueiras, assim como de árvore saiu arvoredo e de vinha saiu vinhedo. E mais ainda teria para contar, se não terminassem antes as férias, tão curtas, ou  a paciência dos filhos.

[A ilustração tem a marca registrada do genial Edu Oliveira]

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Azeite de oliva

Por que dizemos azeite de OLIVA, se ele vem da azeitona? E existe alguma diferença entre ÓLEO e AZEITE?

 

Como os médicos e os policiais, os professores de Português não podem deixar de prestar auxílio, quando solicitado, Desta vez foi num hotelzinho na serra, diante de um possante fogão a lenha. A proprietária, muito hospitaleira, tinha cozinhado para nós sua última reserva de pinhões desta safra e assistia, interessada, ao ritual da família — o escravo aqui a descascá-los no dente, e minha filha pequena a comê-los alegremente, sem remorso algum, com sal e azeite de oliva. Declarando-se leitora desta coluna — “Leio sempre o que o senhor escreve; fui professora primária e nunca perdi o gosto pelo Português” —, ela puxou da algibeira duas “dúvidas cruéis”: (1) por que a gente diz azeite de oliva e não de azeitona, e (2) por que usamos óleo, e não azeite, quando vem da soja. Prometi pesquisar (raramente me arrisco a responder assim, de bate-pronto, a perguntas sobre etimologia; as chances de fazer uma burrada, acredite, são imensas).

Pois vamos à primeira dúvida: do Latim oliva, introduzido pela dominação romana na Península Ibérica, veio o clássico oliva, usado inicialmente em Portugal e na Espanha. No entanto, quando os árabes entraram na região, no séc. VIII,  com eles entrou também o nome azeitona (az-zaituna), que passou a predominar sobre oliva. Este, apesar de substituído, ainda pode ser visto nas expressões “azeite de oliva” e “verde-oliva” (cor), além de participar, como radical, de oliveira, o que criou este exemplo raríssimo de árvore cujo nome não deriva, como as demais, do fruto que produz (figo:figueirapitanga:pitangueira; e assim por diante). Nos países que não tiveram a presença árabe, porém, o nome da azeitona até hoje é derivado da forma latina: olive (Ing.), olive (Fr.), oliva (It.).

A segunda pergunta também encontra sua resposta nesta dicotomia entre o Árabe e o Latim. Nosso óleo vem do vocábulo latino oleum (“azeite de oliva”), que entrou nos idiomas mais importantes do Ocidente — oil (Ing.), olio (It.), huile (Fr.), Öl (Al.) — para designar genericamente qualquer substância gordurosa em estado líquido. Contudo, por causa da influência árabe no mundo ibérico (muita gente esquece que os árabes conviveram com nossos antepassados por mais de sete séculos, do séc. VIII  ao séc. XV), o Português distingue o azeite (de az-zait, “azeite de oliva”) do óleo (daí o óleo diesel, o óleo de soja, de arroz, de rícino, de amendoim, de girassol, de milho, de canola, etc. — sem esquecer o terror das crianças da minha geração, o repugnante óleo de fígado de bacalhau). Esta dicotomia não existe nos outros idiomas, que denominam o nosso azeite de olive oil (Ing.), huile d’olive (Fr.), olio di oliva (It.) e Olivenöl (Al.).

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