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meados

“Em meado de setembro” ou “em meados de setembro”? Ambas estão corretas, mas o PLURAL é a forma preferida desde o séc. XIX. Outra daquelas falsas polêmicas que seriam evitadas com um pouco mais de leitura…

 

Alguns leitores estranham que uma coluna como O Prazer das Palavras, dedicada singelamente a comentar e a apreciar as riquezas do idioma, nem sempre seja tão mansa e serena como o tema faria supor. Afinal, dizem eles, trata-se de gramática e de ortografia, e não de futebol ou política — e não há nada que justifique o ânimo agreste, quase impertinente, com que freqüentemente estas poucas linhas são traçadas. Pois se enganam, amigos, que nem tudo são rosas por aqui; as questões de linguagem têm o condão de despertar as emoções mais primitivas do indivíduo, e certamente vocês ficariam surpresos com a raiva instilada em certas cartas que recebo.

Um bom exemplo foi o que aconteceu com meados. Um leitor perguntou se era verdade que a expressão em meados seria condenável, como afirmava taxativamente um de seus professores. “Ele me descontou um ponto na prova, argumentando que meado significa “meio” e só deve ser usado no singular, pois seria ilógico falarmos em meados de 2011; está certo o raciocínio?”. Expliquei-lhe, então, que o professor estava desatualizado; embora historicamente o vocábulo fosse usado no singular, há quase dois séculos passamos a preferir meados, forma já empregada por escritores do porte de Machado de Assis e Eça de Queirós, e que o próprio dicionário Houaiss, no verbete meado, informava que o termo é “freqüentemente usado no plural, como substantivo”.

Ao que parece, meu leitor, faceiro com a resposta, fez da minha mensagem uma capa vermelha e foi agitá-la diante dos olhos do touro — no caso, o referido professor; este, depois de escarvar o chão com as patas, tomado de fúria contra mim, que era mero espectador da tourada, investiu com tudo que tinha, numa mensagem agressiva que culminava num parágrafo cheio de peçonha: “Quando você se faz escrevente de Machado de Assis, Eça de Queirós e demais escritores para justificar alguns termos considerados incorretos pelos especialistas em língua portuguesa, vem-me a crassa dúvida: esses distintos escritores ditavam as regras de nosso vernáculo ou eram meros mortais regidos pelas regras impostas pelos filólogos, lexicólogos e afins?”. Viram só o topete? Mas isso lá é jeito de entrar numa discussão acadêmica? Infelizmente eu não tenho a virtude cristã da tolerância e acabo reagindo no mesmo tom; diga-se a meu favor, porém, que nunca cito o nome desses malcriados, pois acho que precisam ser protegidos deles mesmos. O que segue é a resposta que ele recebeu.

“Mas que raciocínio arrevesado, cidadão! Então o senhor não sabe que os especialistas em nossa língua são exatamente Machado, Eça, Vieira, Drummond, e não os gramáticos, filólogos e professores? Estes últimos, aliás, entre os quais humildemente me incluo, não têm direito algum de impor regras, especialmente para os escritores; seu papel neste universo é tentar entender como funciona o idioma e formular regras que descrevam esse funcionamento. Isso não significa, é claro, que o escritor tenha um toque de Midas que transforme em norma  qualquer idiossincrasia de seu estilo, pois, como diz o antiquíssimo brocardo filológico, “às vezes até o próprio Homero cochila” —, mas o uso frequente de uma determinada forma por vários desses especialistas mostra ao usuário consciente uma das possibilidades do idioma.

No início, meado era usado como adjetivo (na verdade, o particípio do verbo mear, “repartir, chegar ao meio”): “ele morreu meado dezembro”, “vinho meado de água”, “círculo meado de branco e preto”. Com relação a tempo, opunha-se aos também particípios findo e começado: “Meado setembro, começaram as chuvas” (“Findo setembro”, “Começado setembro”). A partir do séc. XIX, porém, vai se firmando o seu emprego como substantivo plural. Euclides da Cunha fala em “meados do século”, Eça fala em “meados já tépidos de março”; Aquilino Ribeiro usa “meados da Quaresma” e Machado, sempre o melhor, fala de uma senhora que “prorrogou seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto”. Não vejo nada de inusitado nesta pluralização, também ocorrida com fim e com começo (nos fins do verão, nos começos do século, etc.), que pode ser encontrada abundantemente em Vieira, Euclides, Eça e Machado, entre muitos outros.

Ora, quando autores deste quilate usam determinada palavra ou expressão assim, e algum professor diz só poderia ser assado, não tenha dúvida: o gajo não fez as  leituras que deveria ter feito em seu curso de Letras. Se existem dezenas de exemplos do plural meados na obra dos grandes escritores, isso significa que classificá-lo de “erro” é uma asneira que só pode ser cometida por quem não os leu. Entre os caminhos que a língua portuguesa oferece, o senhor tem o direito de achar meado mais bonito ou mais lógico, mas não pode cometer o absurdo, no seu sonho onipotente, de dizer que Machado e Eça (que conhecem cem vezes mais o idioma do que todos nós) estavam errados.”

[O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH — 24/09/2011]

Depois do Acordo: freqüentemente>frequentemente

Nota para os amigos do Prata

Embora de cunho nitidamente escatológico, acho necessário um pequeno esclarecimento dirigido a vocês e a outros hispanohablantes que porventura cheguem a ler esta página: meado, em Português, é o inofensivo particípio do verbo mear, “dividir em dois, partir ao meio”, enquanto meado, em Espanhol, é o particípio do verbo mear, “urinar” (sua raiz, segundo o dicionário da Real Academia, é o verbo  meiāre, do Latim Vulgar, que também originou o nosso rústico mijar). Ora, tendo esses verbos a mesma forma, mas significados tão diferentes, fica fácil imaginar a estranheza que o título deste artigo será lido por quem tenha o Castelhano como língua materna…

Aproveitando a charla — já que falamos de mijar e da Real Academia —, registro um fato pitoresco e praticamente desconhecido para o leitor brasileiro: entre as duas Grandes Guerras, na Espanha, os jovens membros de um movimento poético de vanguarda promoveram uma grande mijada (“una meada grupal“) nas paredes da Real Academia Espanhola. Este grupo, conhecido como a Geração de 1927, organizou várias manifestações para comemorar o tricentenário da morte do poeta Luís de Gôngora, cujo gênio e talento não eram ainda reconhecidos pela cultura oficial da época. Indignados com a indiferença dos acadêmicos para com uma data tão importante, reuniram-se, na tarde de 23 de maio de 1927, diante do edifício da Academia e, na descrição de uma testemunha, decoraram suas paredes com uma “caprichosa coroa de efêmeros jorros dourados”. Achei a ideia inspiradora; nossa ABL bem que merece a homenagem de uma meada colectiva, depois da c*g*da que fez com seu Vocabulário Ortográfico.

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

talibã, talebã, taliban ou taleban

O recentíssimo carro-bomba encontrado na Times Square e o vídeo que apareceu na internet com declarações dos possíveis responsáveis trouxeram de novo à baila um problema que tinha ficado esquecido: como se deve escrever o nome do grupo islâmico que reivindica a paternidade do diabólico engenho? A grafia correta seria talibã, talebã, taliban ou taleban? A dúvida se justifica: quem acompanha os últimos acontecimentos encontra todas essas formas empregadas nos jornais, nas revistas e nos sítios de notícias mais importantes, numa dança enlouquecida de grafias alternativas. Dois leitores já escreveram, querendo saber — assim, pão, pão; queijo, queijo qual é o correto. Para quem só quer a respostinha seca, já vou dizendo: escrevo talibã, talibãs. Para quem não se contenta com isso, vou apresentar minhas razões.

Em primeiro lugar, preciso lembrar que em nomes como esse não existe a forma correta, mas sim a mais recomendável. Isso acontece, aliás, com todos os nomes provenientes de línguas que não usam o alfabeto romano (o que aparece no teclado de nosso computador) e que precisam, portanto, ser transliterados, o que vem a ser bem diferente de traduzido. Ao traduzirmos, vamos buscar no estoque da nossa língua uma palavra que tenha um significado equivalente à palavra estrangeira. Ao fazermos a transliteração de um nome, por outro lado, tentamos reproduzir o som que ele tem na sua língua original usando o nosso próprio alfabeto o que sempre vai produzir, é lógico um resultado meramente aproximado, pois tentamos representar fonemas que nossa língua desconhece usando um sistema gráfico elaborado para dar conta da fonologia do Português. Lembro as diferentes propostas de transliteração para Kruschev (ou Khruschev, ou Khruschov, ou Kruchev, etc.), ou para o falecido camarada Mao, que eu cresci chamando de Tse Tung, e hoje aparece como Dze Dong (ou coisa assim). Quem já leu diferentes edições de Dostoiévski (ou Dostoievsky?) está acostumado a mudanças na grafia dos nomes dos personagens.

A forma talibã também é uma transliteração e, portanto, também aproximativa; de todas as outras, contudo, é a que está mais de acordo com a tradição e a que melhor se enquadra em nossos padrões fonológicos:

(1) Por que “I“e não “E” na segunda sílaba? Embora na pronúncia local, dependendo da região, registre-se um som intermediário entre o /i/ e o /e/, nas línguas ocidentais mais importantes vem prevalecendo, como no Português, a forma grafada com “I“, e não com “E“: para o Inglês, é the Taliban; para o Francês, le taliban; para o Espanhol, nosso irmão mais próximo, el talibán.

(2) Por que o final em ? Há muitos nomes asiáticos terminados em /a/ seguido de consoante nasal. Enquanto o Inglês registra tudo como –an (Afghanistan, Pakistan, Jordan; Iran, Teheran, Oman, Ramadan), nós aportuguesamos essa terminação de duas maneiras diferentes: ora como –ão (Afeganistão, Paquistão, Jordão), ora (o que é mais frequente) como (Irã, Teerã, Omã, Ramadã). Como Said Ali muito bem observa em seu Dificuldades da Língua Portuguesa, contudo, os terminados em –ão são casos excepcionais, diante da esmagadora preferência pelo final –ã. Por isso, entre talibão (nossa!) e talibã, a escolha é óbvia. O que nós não temos é o final –an, como o Inglês; é impossível, portanto, em nosso sistema, uma forma como *taliban.

Outro problema que ainda não apareceu por aqui, mas que já vou matando, já que estou com o porrete no ar, é o do plural. Acontece que, no dialeto persa falado pelos talibãs, o vocábulo é uma variante plural do vocábulo árabe talib, que significa “estudante; aquele que procura o conhecimento”; na verdade, “estudante da teologia islâmica” – o que espelha historicamente a origem do movimento, cujos líderes são filhos diretos das movimentações estudantis dos anos 60 (leia-se “anos sessenta”; há por aí os que defendem o indefensável “*anos sessentas”. Credo!). Por esse motivo, a maior parte da imprensa européia usa o vocábulo como se já fosse um plural (“the Taliban are“; “les taliban“; “los talibán“. Julgo, entretanto, que imitar essa prática no Português seria criar uma injustificável exceção ao paradigma (imaginem “os talibã“!) e ignorar a extraordinária capacidade que nosso idioma tem de deglutir os vocábulos estrangeiros e nacionalizá-los fonológica, ortográfica e morfologicamente. Já escrevi várias vezes sobre isso: para entrar no Português, o vocábulo estrangeiro tem de aprender a dançar miudinho, tratando de comportar-se como seus colegas nativos. Um talismã, dois talismãs; um talibã, dois talibãs.

 

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Flexão nominal Lições de gramática

plural dos compostos

Ilustre professor, venho indagar-lhe sobre o plural de certas palavras compostas, cujo primeiro termo são verbos, v.g. bate-bola, come-quieto, vale-transporte, esta última especialmente. Discutindo o problema com meus colegas, defendi a posição que me parece a mais simples de todas: bater bola, valer passagem são AÇÕES, logo, uma pessoa pode bater bola, mas mil também podem praticar a mesma ação, bater bola (até mesmo na frase que acabo de escrever se nota o caráter neutro de uma ação qualquer). Ansioso por seus esclarecimentos, reitero que a dúvida dos compostos é dirigida especialmente às palavras iniciadas por VALE. Mário V. —   Rio de Janeiro

Meu caro Mário: infelizmente, as coisas não são tão simples assim. Aliás, quando se trata de compostos, nunca são simples. Os compostos do Português são sintáticos, isto é, mantêm entre seus componentes as mesmas relações que os sintagmas da frase mantêm entre si. Uma das formas mais comuns de composição é [verbo transitivo + objeto direto]: porta-bandeira, guarda-roupa, saca-rolha (bandeira, roupa e rolha são os objetos diretos dos verbos portar, guardar e sacar). A leitura que deles se faz é a de “alguém ou alguma coisa que porta a bandeira, que guarda a roupa, que saca a rolha”. Este tipo de composto só flexiona no segundo elemento: porta-bandeiras, guarda-roupas, saca-rolhas.

Acontece que em vale-transporte não há verbo: vale aqui é um substantivo, que também pode ser usado independentemente (“Preciso de um vale“, “Já tirei dois vales este mês”). Este vocábulo pertence a outra estrutura de composição, já menos freqüente, [substantivo+substantivo], presente também em hora-aula, salário-família, operário-padrão. A leitura desses compostos seria, a rigor, “hora de aula”, “salário para a família”, “operário que serve como padrão”, “vale para o transporte”. O plural, portanto, sintaticamente condicionado, é horas-aula (horas de aula), salários-família (salários para a família), vales-transporte (vales para o transporte). Assim se escreve na norma culta — hoje. No entanto, como a língua é História, a percepção que os falantes têm dos vocábulos muda com o passar do tempo: à medida que o vocábulo composto vai deixando de ser percebido como estrutura sintática e começa a ser considerado um vocábulo uno, sente-se uma fortíssima pressão estrutural da língua no sentido de colocar também uma marca de plural no final do composto. Daí o uso cada vez mais generalizado de horas-aulas, salários-famílias, vales-transportes, variantes que eu jamais usaria, mas que despontam como a interpretação mais moderna desse tipo de composto.

No mesmo caso estão vale-brinde, vale-refeição, vale-pedágio. Bem diferente (o que ajuda a entender o que estou dizendo) é vale-tudo; aqui sim temos o verbo valer (“luta onde vale tudo“). A formação é análoga à de porta-bandeira; deveria flexionar apenas o segundo elemento. Neste caso específico, todavia, como tudo é uma palavra invariável, o composto fica sem flexão: os vale-tudo. Consegui ser claro? Abraço. Prof. Moreno

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os sem-terra

Prezado Professor: ao responder à minha consulta sobre o plural de sem-terra, o senhor disse que a palavra fica invariável: os sem-terra, do mesmo modo que os sem-vergonha, os fora-da-lei. No entanto, o plural de sem-termo (s. m.) é sem-termos, de sem-razão (s. f.) é sem-razões, de sem-vergonheza (s. f.) é sem-vergonhezas, de sem-segundo (adj.) é sem-segundos. E aí, como fica? Desculpe-nos, mas o Aurélio e outros não querem, nos parece, “comprar a briga”, e não trazem o plural dessas palavras. Aqui no jornal, é uma discussão só. Pode nos esclarecer melhor? Desde já, ficamos muito gratos pela atenção.

Carlos  — Vitória (ES)

Meu prezado Carlos (e colegas de redação): este vocábulo fica mesmo invariável; o plural é “os sem-terra“. Não podes fazer uma analogia com sem-razão ou sem-vergonheza porque estes dois funcionam como legítimos substantivos. Já sem-terra tem a posição e a função de um verdadeiro adjetivo, já que ele sempre tem um referente externo a ele (expresso ou elíptico); em outras palavras, este composto sempre estará numa posição sintática que pode ser descrita como [alguém sem–terra]: [o camponês sem-terra], [os camponeses sem-terra]; [o sem-terra], [os sem-terra]. Algo idêntico acontece com o homem fora-da-lei, os homens fora-da-lei; o fora-da-lei, os fora-da-lei. Aliás, tem um filme por aí, nas locadoras, que tem o vistoso título de “Os foras-da-lei” (eta, ferro! Conseguiram pôr o plural na preposição!). Também podes comparar com sem-sal: [mulher sem-sal], [mulheres sem-sal]. Acho que o pessoal aí do teu jornal não ia aceitar um “mulheres sem-sais” — ou ia? Abraço. Prof. Moreno

P.S.: o mesmo vale para os sem-teto, os sem-dinheiro, os sem-família, os sem-pão, os sem-vergonha, etc. 

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Flexão nominal Lições de gramática

Os Maias – plural?

Caríssimo Professor: certamente Eça de Queirós não teria errado e, se o tivesse, poderia virar escola [muito bem observado, Tales!]. Mas me perturba “Os Maias“. Devem-se pluralizar sobrenomes e marcas? Não seria mas adequado, não obstante menos sonoro, falar “Os Maia“? Certamente é este o sobrenome de família. Ou ainda, “os Volkswagen produzidos em 1968″ e assim por diante. Por exemplo, não parece soar tão mal “os Sousa“, ao me referir aos meus parentes. Ademais, sem conhecer a obra de Eça, poderia pensar estar a série se referindo ao povo Maia, aquele que a gente estuda junto com os Incas e os Astecas.

Tales S. —  São Paulo

Professor, gostaria de saber se nome próprio tem plural. Qual o correto? “Os Maias” ou “Os Maia“? “Nós, os Oliveira e Silva, somos donos de muitas terras” — ou seria “Oliveiras e Silvas“?

Soraya M. – São Paulo

Prezados amigos: apesar de quase todo o mundo pensar o contrário, os antropônimos — nomes próprios de pessoa – também podem ser usados no plural. Com que finalidade? Bem, podemos estar falando de várias pessoas com o mesmo prenome: as Marias, os Joões, os Pedros, os Albertos. Podemos estar distinguindo diferentes aspectos de uma mesma pessoa: “Nossos manuais de História da Literatura reconhecem, no mínimo, dois Machados: o da fase romântica e o da fase realista”. Podemos estar falando de obras artísticas (quadros, esculturas, etc.), usando o nome de seu autor: “Naquele museu, há três Picassos e dois Matisses“. Podemos estar designando várias pessoas com o mesmo sobrenome, sejam ou não da mesma família: “Na Semana de Arte Moderna, os Andrades, Mário e Oswald … ” ; “O poema fala dos Albuquerques“; Camões se refere, em Os Lusíadas, aos “temidos Almeidas“. Em várias cidades do Brasil temos uma Rua dos Andradas, em homenagem a José Bonifácio e seus irmãos. Como podem ver, levamos nomes próprios para o plural desde que o Português começou a ser escrito. Os gramáticos – tanto os tradicionais, quanto os modernos, de Carneiro Leão a Celso Luft, passando por Rocha Lima, Evanildo Bechara e o próprio Napoleão — registram e endossam essa prática, adotada também por Eça de Queirós ao batizar seu romance de Os Maias.

Falei da tradição; hoje, no entanto, embora continuemos a pluralizar os prenomes (“Na minha turma existem quatro Maurícios“; “Nas piadas de português, só há Joaquins e Manuéis“), é inegável que a tendência atual é deixar o sobrenome no singular: os Figueiredo, os Cavalcânti. Enquanto Machado falava nos “irmãos Albuquerques” (Dom Casmurro) e Eça falava no “baile das Senhoras Macedos” (A Relíquia), Carlos Drummond já prefere referir-se aos Mendonça (Contos de Aprendiz). Na literatura, nascidos no Rio Grande do Sul, Érico e seu filho Luís Fernando são os Veríssimo. Nosso mundo cinematográfico fala do clã dos Barreto, enquanto os irmãos Gracie vão alegremente distribuindo pernadas pelo mundo afora. Não me espanta, portanto, que haja leitores que já começam a estranhar o plural de “Os Maias“.

Quanto à outra pergunta da leitora Soraya, sobre o plural de Oliveira e Silva, tudo vai depender da posição que adotarmos. Se preferimos seguir a tendência atual de deixar tudo invariável, sobrenomes compostos como este não trazem dificuldade alguma: os Oliveira e Silva, e pronto. Se nosso ouvido, no entanto, pender para o costume tradicional de flexionar os sobrenomes, teremos de distinguir as seguintes construções: (1) em compostos de dois nomes justapostos, usamos plural em ambos (os Costas Limas, os Peixotos Carvalhos); (2) em compostos com preposição, levamos só o primeiro para o plural (os Pereiras da Costa, os Moreiras da Silva); (3) em compostos com conjunção, levamos só o segundo para o plural (os Lima e Silvas). Nesse caso, os Oliveira e Silvas.

Finalmente, devo informar que usar Maia, no singular, não vai impedir a confusão com aquele famoso povo pré-colombiano, meu caro Tales. Quanto mais eu vivo, mais me convenço que uma das forças mais espantosas da natureza é a estupidez humana: um colega meu, da Universidade, foi procurado por uma aluna de Letras que queria saber se ele ia tratar, em suas aulas, “daquela, aquela que escreveu Os Inca [sic] – que ele logo identificou como Eça, que escreveu Os Maias. Dá para ver que a celerada, além de poucas luzes em literatura, deixou há muito de usar o S do plural. Abraço para ambos. Prof. Moreno

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Lições de gramática Semântica

todos olham seu umbigo

Professor, eu e dois colegas escrevemos um texto cuja última frase é a que segue: “os funcionários parecem ter sido treinados para ficar olhando apenas para seu próprio umbigo”. Ficamos na dúvida entre escrever “apenas para seu próprio umbigo” ou “apenas para seus próprios umbigos.” 

Júlio B. — Curitiba

Prezado Júlio: embora estejamos falando no plural (funcionários), é muito adequado usar o singular para umbigo, porque está perfeitamente implícita a idéia de cada um o seu. “Os indianos rezavam com a mão na testa”, “Os holandeses dormiam com o olho esquerdo fechado” (os exemplos são besteirol puro, mas servem para mostrar o que quero dizer). O plural, nesses casos, seria desajeitado e desnecessário — o que, aliás, a julgar pela pergunta, vocês também haviam notado. Eu teria escrito a frase exatamente como vocês o fizeram; talvez eu eliminasse o possessivo seu: “ficar olhando apenas para o próprio umbigo”. Pega os dois exemplos que eu dei acima e introduz um possessivo — sua mão e seu olho esquerdo — e vais perceber a (pequena) diferença. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

softwares

O Doutor adverte: as palavras estrangeiras que ingressam em nosso idioma devem receber tratamento idêntico às nacionais.

Olá, Professor! Trabalho em uma agência de publicidade, e um cliente de tecnologia disse que não existe o plural da palavra software. Consultei o Houaiss e ele não diz nada sobre isso. O cliente está correto?

Carolina G. — São Paulo

Prezada Carolina: no Inglês culto formal, hardware e software ainda são considerados substantivos não-contáveis (mass nouns), o que faz com que o emprego do plural seja desaconselhado pela maioria dos gramáticos daquele idioma. Para o resto das línguas do planeta, contudo, a opinião dos gramáticos do Inglês vale menos que um tostão furado, e os dois vocábulos, que entraram no vocabulário tecnológico de dezenas de países, passaram por uma evidente evolução. Inicialmente, quando software designava a parte não-física da máquina (como na velha piada: “Software é o que a gente xinga, hardware é o que a gente chuta”), era comum usar-se este vocábulo apenas no singular; no entanto, no momento em que ele passou também a significar “programa de computador”, o plural passou a ser empregado largamente. Só para teres uma idéia, a forma pluralizada softwares bateu mais de 20.000.000 ocorrências no Google; quase todas essas páginas são escritas em países cuja língua nativa usa o S como marca do plural (Português, Francês, Espanhol, por exemplo) ou em países cuja língua, apesar de marcar seus plurais de outra forma, usa o S para os plurais estrangeiros (como o Alemão e o Italiano). É natural que assim aconteça, porque os falantes de todos esses idiomas tratam software como um substantivo normal, desconsiderando a classificação de “não-contáveis” que a gramática do Inglês atribui a ele.

Quando os vocábulo migram, eles terminam, assim como as pessoas, submetendo-se às leis do seu novo país. Não importa que gramáticos ingleses considerem e-mail como um não-contável, porque o mundo inteiro envia e recebe e-mails (no plural); não importa que, em Inglês, o plural de mouse seja mice; para nós, é mouses mesmo. E tem mais: como a internet é uma estrada que vai e vem, os próprios falantes do Inglês começam a aceitar esses plurais — a julgar pelo considerável número de artigos americanos, ingleses e canadenses que condenam a sua adoção (e que não seriam escritos se não houvesse simpatia pelas novas formas). A forma mouses, aliás, vem recebendo a preferência dos usuários técnicos e já está registrada num dicionário importante como é o American Heritage.

Prezada Carolina: o teu cliente disse que esse plural “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o singular é a forma recomendada no Inglês culto, ou também no uso técnico, quando estiver em jogo a oposição conceptual hardware x software. Aqui, no entanto, é diferente. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

hambúrgueres

Querido professor Moreno (acho que posso chamá-lo assim, afinal, já é um membro da família cibernética), tenho 16 anos e faço o segundo ano do ensino médio. Língua mesmo eu só aprendo nos livros e na Internet. Ando com uma dúvida antiga: se o plural de mulher é mulheres, por que o plural de hambúrguer é hambúrguers e de trailer é trailers? Justifica-se por serem palavras estrangeiras? Aguardo sua resposta; grande abraço de uma admiradora.

Marcela A. — Goiânia

Minha cara Marcela: a tua intuição está correta: o plural de hambúrguer é hambúrgueres, e o de trêiler é trêileres — da mesma forma que revólver, revólveres; dólar, dólares; destróier, destróieres; líder, líderes (todos provenientes do Inglês). As leis da morfologia de uma língua se aplicam a qualquer vocábulo que nela exista ou venha a existir; palavras estrangeiras que entram aqui vão dançar conforme a nossa música. *Revolvers, *hamburguers são plurais do Inglês, não do Português. Continua atenta, esperta e admiradora. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

plural de SIM e NÃO

Ó dúvida atroz! Por favor, o SIM e o NÃO podem ser flexionados, isto é, usados no plural?

Bayard Fonseca 

Prezado Bayard, é uma dúvida razoável, mas chamá-la de atroz já é exagero (por que será que tu e muitos outros leitores ficam melodramáticos quando enviam suas dúvidas para o Sua Língua? Sossega, que a banca aqui é risonha e franca). Quanto à tua pergunta, a resposta é sim, eles podem ser usados no plural. Esse é um dos traços característicos de nosso idioma: qualquer vocábulo, de qualquer classe, pode vir a ser (dependendo da estrutura sintática em que está inserido) substantivado, isto é, pode vir a ocupar a posição nuclear de um sintagma nominal, que sempre será um substantivo. Quando isso ocorre, o vocábulo passa a ter a mesma flexão que os substantivos têm. Vou dar alguns exemplos: (1) numeral: “Estão faltando dois oitos neste baralho”; “vamos fazer a prova dos noves“; (2) verbo: “Os comes e bebes“, “os pores-do-sol“; (3) interjeição: “Ela não ouve os meus ais”. E assim por diante. No teu caso específico, é muito comum ouvirmos, depois da apuração de votações, frases como “tivemos 23 sins e 32 nãos“. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

degrais?

Prezado Professor: há um cartaz em nossa escola que diz “Não sente nos degrais“. Não deveria ser degraus? Obrigada por responder.

Paula (10 anos) — Salvador (BA)

Minha prezada Paula, tão jovem e já tão atenta para os problemas de nosso idioma: tens toda a razão. O plural de degrau é degraus, como o de todos os vocábulos terminados no ditongo “au” — mingau, mingaus; luau, luaus. O que deve ter atrapalhado a pessoa que escreveu essa preciosidade de cartaz é a semelhança fonética com os vocábulos terminados em “al“, que fazem o plural em “ais”: jornal, jornais; quintal, quintais. A mesma confusão às vezes se manifesta entre os terminados em “éu” e os terminados em “el”: chapéu, chapéus; escarcéu, escarcéus; ilhéu, ilhéus; mas papel, papéis; tonel, tonéis.

Na cidade em que nasci, corria uma anedota sobre um famoso prefeito que, apesar de honesto e competente, tinha pouco ou quase nenhum estudo e vivia tropeçando da Língua Portuguesa. Certa feita, ao discursar de improviso na recepção de três atletas locais que tinham sido premiados em diferentes modalidades olímpicas, percebeu que não sabia se o plural de troféu era troféus ou troféis (nota, Paulinha, que ele já estava ficando mais sabido, pois ao menos deu-se conta da dificuldade). Fez então o que fazemos muitas vezes, quando encontramos um desses “recifes” gramaticais — desviou e passou pelo lado: “Eu ia saudar esses atletas pelo troféu conquistado, mas agora me dou conta que não foi só um, foram três!”. Seria mais ou menos como o cartaz do teu colégio dizer: “Não sente no degrau – em nenhum deles!”. Abraço. Prof. Moreno