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Desinquieto

As aparências enganam: DESINQUIETO não é o contrário de INQUIETO. Há muitos vocábulos em que o prefixo DES- não tem mesmo valor negativo que apresenta em DESLEAL ou em DESFAZER.

Confesso que fiquei faceiro quando recebi, dia desses, uma consulta proveniente do Acre, lá dos extremos da fronteira oeste, quase na linha do Equador. Quem me escreveu foi Irany G., gaúcha de nascimento, aluna deste que vos fala lá pelos anos 90: “Professor, moro aqui em Rio Branco, na capital, muito longe de minha querida Porto Alegre, mas sempre dou um jeito de ler suas colunas pela internet. Agora que encontrei o senhor no Facebook vou poder lhe fazer perguntas diretamente. Tenho uma dúvida há muito tempo, mas não sei se vou conseguir explicar direito: se desatento é antônimo de atento, como é que desinquieto é sinônimo de inquieto? Não deveria ser seu antônimo? Minha cunhada, que é mineira, vive dizendo que o filho dela é uma criança desinquieta; sei que ela quer dizer que ele é uma criança agitada (aqui entre nós, o guri é um demônio), mas se o prefixo des- indica negação, desinquieto não significaria não inquieto — ou seja, calmo, sereno, exatamente o contrário do que ela quer dizer? Será linguagem típica de Minas? Deu para entender?”.

Perfeitamente, Irany. Vários outros leitores, ao longo dos dez anos de existência desta coluna, já estranharam esse desinquieto, o qual, como vais ver, é um pacato cidadão de nosso vocabulário. Se vens acompanhando O Prazer das Palavras, vais lembrar que outro dia — acho que falávamos das paraolimpíadas — mencionei aquela “máquina de fazer palavras” que todo falante do Português traz dentro da cachola e que lhe permite não só formar vocábulos novinhos em folha, como também compreender as criações lexicais de seus vizinhos. Foi exatamente por saber disso que um habilíssimo ourives da língua como Mário Quintana não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram“, certo de que até o mais ingênuo de seus leitores poderia decompor instantaneamente o sentido deste verbo.

Palavras derivadas como essa, resultantes da combinação de radicais com afixos, não param nunca de surgir, numa rapidez vertiginosa. No entanto, as peças que entram nessa combinação — especialmente os prefixos e os sufixos — pertencem a um grupo fechado, limitado a tão poucos itens que vários desses morfemas terminaram se tornando polissêmicos — o que significa, em vernáculo, que passaram a ter diferentes significados. Este é o caso do prefixo des-,  que nem sempre  vai indicar negação, como faz em desleal, descarregado, descrente, desestimulante. Mesmo os gramáticos mais antigos, como Said Ali, já observavam que ele também pode ser usado com sentido positivo — uma espécie de intensificador —, sem contrariar o significado original do  vocábulo. Essas formas prefixadas são empregadas como meras variantes das formas simples: infeliz ou desinfeliz, apartar ou desapartar, abalar ou desabalar, afastar ou desafastar, apear ou desapear, etc. — e não apenas na linguagem popular: “…o nosso benévolo confrade está, claro, na condição dos que desapartam rixas” (Rui Barbosa);  “Adoro queijos. Deixa ver. Desafasta” (Eça de Queirós); “Não deixe o homem desapear, doutor” (Taunay); “Agora, é verdade que ninguém mandou o desinfeliz ir pescar por riba da catedral!” (Olavo Bilac); “Macunaíma sentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci, a inesquecível” (Mário de Andrade).

Tua suspeita de que desinquieto seja criação regional de Minas Gerais também não procede, pois vamos encontrá-lo igualmente em escritores portugueses, desde o Renascimento: “Muito bem me lembra a promessa que vos fiz no Tangu acerca do saque desta desinquieta cidade(Fernão Mendes Pinto); “De tarde faz o ofício do demônio tentador, a desinquietar quanta rapariga e mulher honesta tem o Porto” (Garrett); “Desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima” (Eça de Queirós).

Outro prefixo de comportamento semelhante é o a-, que indica negação ou privação em atípico, amoral, acéfalo e apátrida, mas perde seu valor negativo em dezenas de palavras: abrasado, apavorado, afivelado, ajoelhado, amanteigado. A um molho apimentado não pode faltar pimenta, Irany — bem pelo contrário; do mesmo modo, apesar da incredulidade de meu amigo Márcio Pinheiro, um bife não pode ser chamado de acebolado se não vier coberto de muita cebola.

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anti-EUA

Jamais devemos esquecer que as normas ortográficas foram (e ainda são) feitas por homens, mortais como nós, com momentos de brilhantismo e outros de absoluta estupidez. Nosso sistema ortográfico até que  é muito razoável, se levarmos em conta o que significa regulamentar a grafia de uma gigantesca quantidade de fatos de linguagem; o que não podemos exigir dele é que seja perfeito e que dê conta de todas as situações possíveis que o uso nos faz descobrir, como aconteceu no caso do hífen.

O emprego deste infeliz “tracinho”, de utilidade discutível, foi definido pelos elaboradores do Acordo de 1943 e aperfeiçoado pelo Acordo de 1990. É bem assim que funciona no Brasil: decide-se num gabinete qual a melhor grafia para as palavras, publica-se no Diário Oficial da União (não estou brincando!), dá-se um prazo para sua utilização compulsória, emitem-se pareceres, baixam-se portarias, etcétera e tal; isso é suficiente para despertar no brasileiro comum aquele respeito pela leizinha, aquele amor ao carimbo, aquele prazer bem ibérico pelo regulamentozinho chinfrim de cartório. E ai de quem lhe diga que a regra pode estar equivocada, ou incompleta, ou incongruente: vai olhá-lo como a um sacrílego que tentasse emendar os Dez Mandamentos. Felizmente esta coluna é lida por pessoas que têm miolo e que já devem ter percebido que a regra do hífen não é uma lei interna do idioma, mas uma simples disposição concebida por pessoas que talvez não tenham imaginado todas as suas conseqüências, como veremos.

Pelas novas regras, este prefixo deve ser hifenizado antes de H e de I, o que nos leva a escrever anti-Holanda, anti-Israel, como anti-hemorrágico e anti-islâmico. Até aqui, tudo bem. E o resto? Vamos deixar de escrever anti-Cuba, anti-Afeganistão, anti-Rússia e anti-França, para escrever anticuba, antiafeganistão, antirrússia (credo!) e antifrança? Em vez de anti-EUA, como escrevo, vou escrever antieua? Quem sabe antissarkozy (tipo antissemita, antissísmico), em vez de anti-Sarkozy? Enlouqueceram?

É evidente que todos sentimos o hífen aqui como indispensável; na verdade, este prefixo, cada vez mais em moda (tem gente que consegue ser anti-tudo!), sugere que se é “contra tudo aquilo que estiver do lado direito do hífen”. Um crítico que não gosta do Cinema Novo é anti-Cinema Novo, e não anticinema novo, como gostariam os idiotas da objetividade (o prefixo estaria se opondo a “cinema”). Há os anti-Lula, os anti-Fernando Henrique, os anti-privatização da Petrobrás, os anti-Sarney, os anti-stalinistas

Este é um belo exemplo de como os fatos concretos atropelam as leis feitas pelo homem; lá pelos anos 40, ninguém poderia prever a intensidade e a variedade do emprego de anti no início do século 21  — e a regra não estava preparada para isso. O novo Acordo (1990) já deveria ter tomado consciência dessa nova realidade; deveria, mas não tomou.  Isso tudo sem falar em outro uso moderno para anti-, mais profundo, em que ele exprime uma posição de “negação” conceptual do que vem depois. O anti futebol (ou seria antifutebol, ou anti-futebol?) não é contra o futebol, assim como o anti cinema não é contra o cinema, mas um tipo de  futebol ou cinema (ambos muito chatos) que se opõe a tudo aquilo que tradicionalmente se conhece por cinema ou futebol. E aí? Esse anti está contido naquela regrinha, é um novo prefixo ou é um daqueles elementos que se independentizou, como súper ou máxi? Esta é uma questão que só o uso poderá decidir.

Depois do Acordo: conseqüências > consequências

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Formação de palavras Lições de gramática

desinquieto

Sempre me interessei pela formação das palavras, mas não consegui chegar a conclusão alguma sobre uma delas, apesar do dicionário Aurélio aceitá-la. Em Minas, costuma-se falar muito que uma criança está desinquieta, ou seja, “agitada”. O prefixo des-, sendo de negação, não indicaria que ela é uma criança “não inquieta”, ou seja, quieta? Obrigada. 

Nilza S. Araxá (MG)

Prezada Nilza, nem sempre o des- vai ser prefixo de negação. Mesmo os gramáticos mais antigos, como Said Ali, já observavam que ele pode ser usado com sentido positivo — uma espécie de intensificador —, sem que o vocábulo mude o seu significado. Essas formas prefixadas são empregadas como meras variantes das formas simples: desinquieta (inquieta), desinfeliz (infeliz), desapartar (apartar), desabalar (abalar), desafastar (afastar). Sugiro-te uma olhadela, tanto no Houaiss quanto no Aurélio, no verbete “des-“; ambos registram e exemplificam o fenômeno.

Isso não ocorre apenas com o des-; compara as dobradinhas soprar e assoprar; levantar e alevantar (bem no início de Os Lusíadas); mostrar e amostrar; baralhar e embaralhar; soalho e assoalho; renegar e arrenegar; esposar e desposar. Há uma teoria de que esses seriam “falsos prefixos”, já que são vazios de sentido (embora se perceba, em alguns casos, o efeito de reforço) e não chegam a formar um vocábulo novo. Se prestares atenção, vais encontrar muitos outros exemplos. Abraço. Prof. Moreno