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Egito e Grécia

 

Para falar na cultura egípcia, usamos palavras gregas  – algumas delas bem pouco elogiosas.

Escrevo estas linhas a bordo do navio Mayfair, que singra o Nilo em direção ao sul do Egito. Como Heródoto, quatro séculos antes de Cristo ─ e  como Dom Pedro II, dezoito séculos depois ─, nosso grupo vai fazendo um périplo inesquecível pelos mesmos templos e túmulos que eles visitaram, enfiando um rosário de nomes que sempre viveram na minha imaginação e que só agora se concretizam à minha frente: Luxor, Karnak, o Vale dos Reis, Edfu, Philae, sem contar Alexandria ─ para muitos a cidade de Alexandre, mas para mim a cidade de Antônio e Cleópatra  e, acima de tudo, a cidade de Cavafys.

Se foi pelo olhar da Grécia antiga que o Ocidente tomou contato com a terra dos faraós, não é de espantar que só possamos falar dele usando palavras de origem grega. Assim, vendo passarem, pela janela da minha cabine, as margens verdejantes do Nilo, com seus renques de tamareiras, vou explicar a origem curiosa de alguns nomes que os gregos escolheram para falar da cultura egípcia.

Em primeiro lugar, temos os hieróglifos, que figuram por toda a parte, nas paredes dos templos e nos monumentos. Esta é uma palavra de dupla prosódia, o que significa, em vernáculo, que tanto faz pronunciá-la com a tônica no /ró/ (como eu faço) quanto no /gli/ ─ aliás, como o nome de Cleópatra, que aqui no Egito é pronunciado à moda grega, com a tônica no /pa/, rimando (que a rainha me perdoe pelo mau gosto!) com alcatra. Esta palavra é composta do adjetivo hieros (“sagrado”) mais glifo (“letra, entalhe”) ─  algo assim como “letras sagradas”, porque os gregos, embora não soubessem ler este tipo de escrita, perceberam o seu caráter nitidamente religioso.

Depois vêm obelisco e pirâmide, duas imagens que associamos desde sempre ao Egito e que espantam mais pelo seu tamanho do que propriamente pela beleza artística. Outrora prevalecia aqui o gigantismo arquitetônico, com colunas que vinte homens não podem abarcar com seus braços abertos, ou com obeliscos de granito de mais de quarenta metros (o obelisco de Luxor, hoje instalado na Place de la Concorde, em Paris, pesa centenas de toneladas e exigiu, para seu transporte, a construção de um navio especial, com várias quilhas). As pirâmides são maiores ainda. A de Quéops tem mais de 140 metros de altura e foi por 4.000 anos (até o surgimento das catedrais medievais) a mais alta construção do planeta. Ora, sendo tudo isso tão despropositadamente grande, não poderia deixar de causar má impressão nos visitantes gregos, povo sabidamente inimigo da desmedida e do exagero ─  sem falar, imagino, na inevitável ferida narcísica que a visão daquelas massas gigantescas  deve ter provocado num povo tão orgulhoso de sua superioridade que consideravam bárbaros todos os demais povos que conheciam.

Segundo Lacarrière, grande conhecedor do mundo grego, essa é a única explicação para chamarem as imensas agulhas de granito inteiriço de obelisco, termo formado de obelos (“espeto”) mais o sufixo diminutivo isco (o mesmo que está em asterisco, “estrelinha”) ─  ou seja, apelidaram-nas de “espetinho”! E por ter a forma semelhante à das pirâmides, usaram para batizá-las o nome de um pão especial feito de trigo, pyramis, reduzindo assim todas aquela pompa e magnificência a um cenário de piquenique, com espetinhos e pãezinhos  ─ e não venham me dizer que foi por acaso.

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Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.

 

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bisesdrúxulas

Prezado professor: no ano passado, minha professora, ao explicar a posição da sílaba  tônica de uma palavra, disse que ocorre uma bisesdrúxula quando a tonicidade se localiza antes da antepenúltima sílaba. Eu gravei o nome e  fiquei interessado; porém, nunca encontrei nada a respeito. Diga-me: isso realmente existe?

Fernando  –  Maringá (PR)

Prezado Fernando: em primeiro lugar, uma pequena nota histórica, para que os leitores mais jovens entendam de onde veio esse estranho vocábulo. Antes de 1958, usava-se dividir os vocábulos, quanto à posição da tônica,  em agudos, graves e esdrúxulos, denominações que foram substituídas, respectivamente, pelos insossos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos de hoje. Se a Nomenclatura Gramatical Brasileira teve esse mau gosto, nossos vizinhos castelhanos resistiram, continuando a usar os mesmos nomes que abandonamos.

A posição da sílaba tônica de nossas palavras está submetida a uma restrição conhecida, em Lingüística, por “Janela de Três Sílabas” — o que significa, em  termos práticos, que a tônica deverá ser, obrigatoriamente, uma das três últimas sílabas. Ora, a idéia de uma bisesdrúxula (de bis + esdrúxula) implicaria a existência de uma tônica em sílaba anterior à antepenúltima. Isso não seria possível em um único vocábulo, mas ocorreria em certas seqüências fonéticas, como, por exemplo, [verbo + pronome clítico]. Esses, aliás, são os exemplos que encontramos no Aurélio XXI: tomávamolo, erguia-se-lhe.

O fato vai, no entanto, um pouco além dessas combinações de verbo e pronome. Como já expliquei em pronúncia dos encontros consonantais, os encontros consonantais imperfeitos são desmanchados pela inserção de uma vogal epentética (sempre o /i/), o que resulta, naturalmente, no surgimento de uma sílaba extra. Por causa disso,  África e afta (/afita/)  têm exatamente o mesmo número de sílabas; ritmo (/ritimo/) é uma proparoxítona das boas; pneu (/pineu/) tem duas sílabas; e assim por diante. Não quero insultar a inteligência de meus leitores alertando que tudo isso que explico nada tem a ver com a separação das sílabas na escrita, onde af-ta e rit-mo são dissílabos e pneu é monossílabo (!).

Ora, essa sílaba extra que existe nos encontros imperfeitos é o que vai permitir o aparecimento de verdadeiras bisesdrúxulas: rítmico, técnico, elíptico, helicóptero, apocalíptico e mais algumas, que são geralmente pronunciadas /rí-ti-mi-co/, /he-li-có-pi-te-ro/ — com três sílabas, portanto, depois da sílaba tônica. As gramáticas escolares não falam sobre isso, nem devem; os autores competentes são os que selecionam aquilo que o usuário comum precisa conhecer para entender o seu idioma – e o conceito de bisesdrúxula só passa a ser relevante para quem estuda o Português na Faculdade de Letras. Abraço. Prof. Moreno

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inox

Prezado Prof. Moreno: recentemente descobri teu sítio na Internet, e como sou apaixonado por curiosidades lingüísticas, volta e meia dou uma olhada nele. No ponto xerox ou xérox, citas diversas palavras que entraram no Português, como durex, inox, etc. A mim me parece que a palavra inox nao é um estrangeirismo (o que talvez pudesse justificar uma possível confusão na sua pronúncia), mas sim uma corruptela de inoxidável, do Português mesmo. Provavelmente não venha do idioma inglês, pois aço inoxidável em Inglês é stainless steel. Tampouco é uma marca registrada, pois há inox da Acesita, Usiminas e assim por diante. Alguma idéia? Duas observações: (1) sou engenheiro metalúrgico, daí a curiosidade; (2) desculpa a falta de acentos circunflexos, cedilhas e tils (til tem plural?). Estou na Alemanha e o teclado que estou usando não possui a configuração para o Português… Grande abraco e parabéns pelo excelente trabalho.” 

Rodrigo Villanova

Meu caro Rodrigo: muito me alegra ter um leitor atento aí nessa lonjura; obrigado pelos cumprimentos. Quanto ao inox, uma pequenina retificação: eu não disse (ou escrevi) que é vocábulo estrangeiro, mas sim que é um “vocábulo que entrou no nosso idioma depois da Segunda Guerra”. Atualmente, em Lingüística, tentamos definir as leis do comportamento das palavras de uma língua e descrever os modelos que estão operantes. Antes da Grande Guerra, os vocábulos terminados em X que “entravam” no Português eram marcados com a tônica na penúltima. Certamente aqui está o meu erro de expressão: usei entrar com o sentido de “passar a fazer parte”, o que engloba os vocábulos formados internamente, importados de outras línguas ou simplesmente inventados — e não apenas os estrangeirismos (não gosto desta palavra xenófoba). 

Depois que Hitler deu seu último suspiro em algum bunker perdido aí por onde tu andas, parece que o paradigma começou a trocar: todos os novos vocábulos com esta terminação passaram a um modelo com a tônica final. Isso inclui importações (durex, pirex), reduções (inox, redox) e até mesmo marcas comerciais (que, como hoje sabemos, também são inventadas dentro do “molde” prosódico que está vigendo no momento em que são criadas): Gumex, Mentex, Jontex, Giroflex. É por isso que xerox (importada) entrou aqui já dentro desse novo esquema prosódico. Vou ter que refrasear aquele artigo, para ficar mais claro. Estás a ver que Drummond tem toda a razão: “lutar com as palavras é a luta mais vã”! Não tinha me ocorrido que eu estivesse escrevendo de uma forma a deixar espaço para duas leituras. Um abraço. Prof. Moreno

P.S.: na medida em que til é um vocábulo de nossa língua, tem, como seus demais colegas de idioma, o direito a um plural; por que não? Cantil, cantis; funil, funis; til, tis.

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xerox ou xérox?

Eu sempre disse /xeróx/ (com a tônica na última sílaba), mas aqui no Tribunal já me corrigiram várias vezes para /rox/. Afinal, qual é a forma correta? E na escrita, leva ou não leva acento?

Secretária — Londrina

É sempre mais complicado definir a forma correta de pronunciar uma palavra, Secretária. As pessoas sentem-se mais seguras no que se refere à escrita, porque esta, por sua própria função de registro, é mais estável — sem contar que existe, no Brasil, uma lei que (mal ou bem) ajuda a fixar uma grafia uniforme: afinal, sempre podemos consultar o vocabulário ortográfico (um dicionário em que as palavras não são definidas, mas simplesmente relacionadas, numa grande lista, com a forma que a Academia resolveu achar correta). No que se refere à pronúncia, contudo, o falante precisa basear-se no exemplo das pessoas cultas e na opinião dos gramáticos e dos dicionaristas (faço questão de frisar: a pronúncia que um dicionário indica para uma determinada palavra representa apenas a opinião de seu autor; é uma opinião especializada, mas é uma opinião).

Entretanto, se examinar com cuidado as palavras e as frases de uma língua, um especialista em Fonologia pode ir além da simples opinião e estabelecer alguns fatos concretos sobre a organização intrínseca dos sons que a compõem — e, o que me parece mais importante, identificar quais são as tendências que essa língua apresenta no momento. Por exemplo, no caso do xerox, posso apontar uma tendência mais ou menos nítida, a partir dos anos 50, para os vocábulos terminados em X (na fala, pronunciado como /cs/): até a primeira metade do século XX, eram unanimente paroxítonas, isto é, com a tônica na penúltima, e com um indisfarçável caráter erudito. No Aurélio, entre outros, encontrei tórax, bórax, clímax, córtex, látex, sílex, cóccix, fênix, ônix.

De 1950 para cá, todavia, o modelo parece ter-se deslocado nitidamente: as palavras novas que entraram no Português desde então foram recebendo a tônica na sílaba final: durex, inox, pirex, gumex, telex, jontex, relax, prafrentex, redox. Não importa que muitas ainda sejam, ou tenham sido, nomes comerciais: os falantes dão-lhes instintivamente o padrão que a língua está usando neste momento para palavras com este perfil. Não tenho a menor dúvida de que todas as próximas que virão (e as palavras não param nunca de ingressar no nosso léxico) seguirão este padrão.

Como é que eu arrisco a data dos anos 50? Bem, aqui temos apenas mais uma confirmação de que a verdadeira análise lingüística precisa levar em consideração o componente cultural e histórico da língua que está estudando. O pirex e o inox, por exemplo, apontam para o final da 2ª Guerra, como subprodutos do avanço tecnológico que o esforço bélico produziu. A eles eu acrescento um vocábulo que omiti nas relações acima: dúplex, o avô de nossas coberturas, em que um apartamento é ligado ao de cima por uma escada interna (naquela época, um dos símbolos de status da classe poderosa de Rio e São Paulo; alguns chegavam ao clímax ao adquirirem um tríplex). Ora, dúplex é uma palavra muito antiga, usada como sinônimo de dúplice (“convento dúplex – convento para frades e freiras”, ensina Antenor Nascentes), portadora daquela nítida aura de palavra erudita e alatinada. Ao passar a denominar esse tipo de apartamento (que assim se chama até hoje), o vocábulo entrou verdadeiramente na corrente sangüínea do Português e tomou a forma duPLEX. O Aurélio, com honestidade, registra, no verbete dúplex: “Pronuncia-se correntemente como oxítono”; o Houaiss, um tanto ambíguo, registra duplex como “forma não preferível e mais usada do que dúplex“…

O xerox é recente, como o telex, e não vejo por que não seria pronunciado dessa forma. O Aurélio registra as duas — xérox e xerox—, embora indique preferência pela primeira.. . Isso está coerente com a orientação deste dicionário, que é excelente em muitos aspectos, mas nitidamente atrasado em sua orientação fonológica.  O Houaiss, mais moderno, prefere xerox, indicando expressamente, entre parênteses, a pronúncia /ócs/.

Como vemos, a pronúncia xérox representaria uma volta ao molde que a própria língua já abandonou (que levaria a algo como *télex, *dúrex, *pírex). Por outro lado, entre as pessoas que dizem xérox, suspeito que algumas o façam numa tentativa equivocada de manter a pronúncia estrangeira, com todo aquele prestígio que o Inglês dá aos vocábulos tecnológicos; se for por isso, deram com os burros n’água, já que no Inglês a palavra soa /zirocs/, com a tônica no /zi/ e o “o” bem aberto, como vovó. Abraço. Prof. Moreno

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Como se diz Como se escreve

optar, indignar

Prof. Moreno: primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo maravilhoso trabalho. Sem dúvida, impagável! Tenho uma grande dúvida quanto ao verbo optar. Quando pergunto “Vamos tomar um sorvete? Você opta por morango ou limão?”, qual é a forma correta de pronunciar o verbo? É /ópta/ ou /opíta/? E a resposta seria “Eu /ópito/ ou /opíto/ por limão”? Ficaria muito feliz se você me respondesse. Um grande abraço.

Rose C.

Prezada Rose: quando pronunciamos os encontros consonantais chamados de imperfeitos (D+V, P+T, G+N, T+M, B+T, etc., como em advogado, optar, digno, ritmo, obturar), sempre intercalamos entre as duas consoantes um fonema vocálico (/i/), ficando mais ou menos assim a pronúncia: /adivogado/, /opitar/, /díguino/, /obiturar/ [o acento é só para marcar a vogal tônica]. Quanto mais culta for a pessoa, mais atenuada será a pronúncia desse fonema — mas ele estará sempre lá, ocasionando uma inevitável mudança no número de sílabas. Pneu, por exemplo, é pronunciado obrigatoriamente com duas sílabas (/pi-neu/). Já escrevi sobre isso em pronúncia de encontros consonantais.

No caso do verbo optar, a conjugação é eu opto (/ópito/), tu optas (/ópitas/), etc. Nota que essa vogalzinha de apoio, intrometida, nunca deverá ser pronunciada como se fosse tônica — o que daria /*opíto/. Foi exatamente assim que nasceu outra forma esquisita que, com a vitalidade da erva daninha, está se alastrando entre os falantes mais jovens: o famigerado /*indiguíno/, que já está contaminando /*resiguíno/. Uma pessoa preocupada com sua formação, como tu, deve dizer “eu /ópito/”, “eu me /indíguino/”, “eu me /resíguino/”. Abraço. Prof. Moreno

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Como se diz Como se escreve

nokia, nókia

Gostaria de saber a pronúncia correta da marca de telefone Nokia. Liguei para a Telecom e a atendente insistiu que o correto é /nókia/, enquanto defendi que fosse /nokía/. Ela informou que esta foi a instrução que recebeu no treinamento. Vem ainda a marca de camionete Hilux. Em revendas de autopeças a briga é grande; na concessionária Toyota o pessoal pronuncia /railux/, enquanto outros dizem simplesmente /rilux/. Sem mais, agradeço.

André C. P.- Cuiabá – MT

Meu caro André: deves perceber que tua dúvida é sobre a pronúncia de nomes estrangeiros, o que vai muito além do alcance da minha página (ela trata da sua, da nossa língua, lembra?). No entanto, acho que posso fornecer alguns dados para meditação. Os nomes comerciais de outros países devem, em princípio, ser pronunciados ao jeito deles, não ao jeito dos vocábulos nacionais. Sei que os finlandeses dizem /nókia/, e assim eu pronuncio. No entanto, é normal que um leitor brasileiro aí tente aplicar o padrão fonológico habitual para vocábulos com essa grafia, que leva à leitura instintiva /nokía/(rimando com folia e mania). O jeito é esperar, para ver qual delas será a preferida. No caso da Texaco, por exemplo, venceu no Brasil a pronúncia /techaco/, bem diferente da /teksakou/ dos americanos. Já nos produtos Cashemere Bouquet, patrocinadores das antigas novelas de rádio, a pronúncia vitoriosa foi a mesma proposta pelos fabricantes; apesar de exigir uma leitura à francesa, a divulgação via rádio do nome tornou fácil sua aceitação por todos: /caximir buquê/.

 Claro que está fora de questão aplicar a esses nomes as nossas exigências de acentuação gráfica ou de emprego das letras. Com são marcas estrangeiras, cada falante lê como sabe (ou acha que sabe); não é, portanto, de espantar que haja divergências na pronúncia da nova Hylux da Toyota. Por falar nisso, como é que tu pronuncias Renault? E American Airlines? E o air de Air France? E Goodyear? E quando dizes Volkswagen, o primeiro fonema que pronuncias é /f/ ou /v/? Pensa sobre isso, e entenderás a minha mensagem. Abraço. Prof. Moreno

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Como se diz Como se escreve

micrômetro

Caro mestre, sou engenheiro, consultor de pintura industrial e trabalhei durante muito tempo como elaborador de normas técnicas brasileiras. A unidade de medida adotada para espessura de película de tinta é usualmente conhecida, no meio técnico, como micrometro, sem acento, correspondente a milionésima parte do metro, enquanto a palavra micrômetro serve para identificar o aparelho de medida. Pergunto se tudo isso faz sentido, e se existe alguma norma para o caso. Abraços.

Alfredo N.

Meu caro Alfredo: acho que há um equívoco aqui. A milionésima parte do metro é também micrômetro. Não se trata de um “micro metro”, mas de uma unidade com a mesma prosódia (leia-se: posição da sílaba tônica) das outras unidades da mesma espécie: centímetro, decímetro, milímetro, etc. O aparelho usado para medir também é micrômetro, da mesma forma que seus companheiros de função: paquímetro, telêmetro, hodômetro. Os dois vocábulos coincidiram; isso acontece. Agora, se no uso do pessoal técnico está começando a se criar uma diferença, então vamos esperar para ver. Se for funcional (minha intuição diz que não o é), o sistema da língua vai incorporar a distinção. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Emprego das letras

fluido ou fluído — como explicar?

Olá, tudo bem? Adorei sua página. Muito explicativa e didática. Aproveitando essa particularidade, tenho uma dúvida — não do que é certo ou errado, mas de como explicar uma coisa de forma que outras pessoas parem de cometer o mesmo erro. Sou professora de Materiais Dentários em uma Faculdade de Odontologia. Dentro de minha disciplina, trabalhamos muito com propriedades reológicas de Materiais, ou seja com sua viscosidade. E volta e meia, meus alunos, e até mesmo o meu assistente, insistem em dizer que o material é fluído e não o correto, que é fluido, com a tônica no I.  Já fiz de tudo, até parar a aula para explicar que é igual a gratuito, mas não tem jeito. Será que você poderia me ajudar a dar tal explicação de uma forma bem convincente? Assim, pelo menos, eles pensariam antes de dizer. Obrigada e parabéns pela página. Fernanda

Minha cara Fernanda, conheço muito bem a sensação: às vezes parece que nunca chegaremos a dissipar as névoas da ignorância. No entanto, como sabes muito bem, nós professores não desanimamos com pouca coisa; voltamos, e voltamos, e voltamos, até que apareça um caminho que nos leve à mente dos alunos (dito de maneira mais chã: acreditamos, no fundo, que água mole em pedra dura tanto bate até que fura). Por isso, o melhor que posso fazer é trazer-te alguns subsídios teóricos para apoiar a tua justa batalha. Eu já escrevi sobre fluido ou fluído (dá uma olhada), mas vou reforçar alguns pontos e acrescentar outros.

É necessário que teus alunos percebam que não estás insistindo em ninharias, mas que se trata de dois vocábulos diferentes, com prosódia (posição da sílaba tônica) e acentuação distintas. De um lado, temos o vocábulo nominal (pode ser tanto substantivo, como adjetivo) FLUIDO; a pronúncia é FLUI-do, com a primeira sílaba pronunciada como fui ou Rui. Como a vogal tônica é o U, é evidente que não cabe pôr um acento sobre o I. Este é o vocábulo que aparece em “mecânica dos fluidos“, “fluido de freio”, “substância fluida“, “a sala está com maus fluidos” (para quem acredita), ou, finalmente, no início do poema Antífona, de Cruz e Sousa:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

Incensos dos turíbulos das aras.

Sei que não é muito próprio para uma aula de Materiais Dentários, mas talvez até fosse estratégico mostrar a teus alunos como o terceiro verso ficaria destruído se o adjetivo fluidas fosse pronunciado como eles querem.

Do outro, temos o particípio do verbo fluir, FLUÍDO, à semelhança de caído, saído: “O filme era tão bom que eles não se deram conta que mais de duas horas haviam fluído“; “Havia um vazamento no tambor do freio, e todo o fluido havia fluído para o chão da garagem”. Acho importante ressaltar, na tua argumentação, que este vocábulo leva acento pela regra do hiato.

Acontece que há uma tendência popular a mudar a prosódia de termos como gratuito, circuito, fortuito. Em muitas rádios já se ouve entradas /gratu-í-tas/, /curto-circu-í-to/, com o I tônico — o que é um contra-senso, porque, se fosse tônico, deveria levar o mesmo acento de ruído e caído. Este é o processo que está agindo sobre o fluido, levando as pessoas descuidadas a pronunciá-lo da mesma forma que o particípio fluído. Isso ainda se aceita nos que não tiveram a sorte de ter estudo; agora, vamos combinar: alunos da Odonto, futuros profissionais, não têm desculpa! Eles têm a obrigação de zelar pelo apuro de sua linguagem tanto quanto pelo de seu avental ou seu jaleco — e não estou falando apenas de algum detalhe secundário que eu, reacionariamente, esteja tentando preservar, mas sim da diferença entre dois vocábulos distintos, o que não é pouca coisa. Espero que isso te ajude a domar as feras! Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

clítoris ou clitóris

Caro Professor: desde já quero agradecer-lhe pela oportunidade de consultar este interessante e tão útil sítio. Meus parabéns! Sou brasileira e moro em Coimbra há cerca de 10 anos. Gostaria de perguntar-lhe qual a maneira correcta de escrever (e pronunciar) a palavra clitóris. Será CLÍtoris ou cliris? Muito grata.” Sandra L. — Portugal

Minha cara Sandra: nem sempre temos certeza quanto à correta localização da sílaba tônica de um determinado vocábulo científico. Enquanto os vocábulos usuais são pronunciados sem a menor hesitação, os de uso mais restrito podem representar dificuldades embaraçosas. Como se deve pronunciar Nobel? É hieroglifo ou hieróglifo? É lípase ou lipase? Como determinar a sílaba que deve receber o acento tônico nesses vocábulos? Em suma, como definir a prosódia dessas palavras de pronúncia hesitante?

Não é por acaso que estes casos de indecisão são particularmente mais freqüentes em vocábulos eruditos de origem grega e latina. Embora haja certas regras gerais para a passagem do Latim para o Português e para a transliteração do Grego, tantos são os fatores intervenientes (históricos, fonéticos, ortográficos, etc.) que se torna impossível determinar, de antemão, qual a pronúncia a ser adotada em cada caso. Um dos grandes especialistas no ramo, o erudito José Inez Louro, da cidade do Porto, em seu esgotado O Grego Aplicado à Linguagem Científica, chega a dizer que “só por um acaso a sílaba tônica grega continua a ser tônica no Latim ou no Português”. Além disso, a comunidade científica não é uma só, unânime e homogênea. Dentro dela também existe uma rica variedade lingüística, tornando impossível o consenso sobre a forma de pronunciar (ou mesmo grafar) certos vocábulos. Em diversas situações, vais ser forçada a optar por uma das versões de uma determinada palavra, baseando-te, para isso, na tua formação cultural, no teu convencimento íntimo, no exemplo dos especialistas que respeitas.

Queres ter uma visão do inferno? Compara dicionários. Se tomarmos o indispensável Aurélio (2ª edição, é claro), o dicionário de Antenor Nascentes (um dos poucos a registrar a pronúncia em todos os verbetes) e o clássico dicionário de Ramiz Galvão (Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras portuguezas derivadas da Língua Grega), veremos que Aurélio registra acetonúria (com a variante acetonuria), Nascentes indica acetonúria e R. Galvão registra acetonuria. Que tal? Aurélio e Nascentes concordam em esfíncter e eczema, mas R. Galvão finca pé em esfincter (rimando com mulher) e éczema! E clitóris? Como se diz o nome desse ponto ainda tão pouco explorado da anatomia feminina? Apesar de ter sido descoberto no Renascimento por Realdo Colombo (“uma coisinha tão bonita e com tanta utilidade” — De re anatomica, 1559), a sua pronúncia até hoje ainda traz dúvidas para os estudiosos.

A maioria dos falantes diz clitóris, e esta pronúncia é confirmada por toda a tradição de dicionaristas de peso. Assim registram, no século XIX, Morais, Lacerda e Aulete; no século passado, Aurélio, Nascentes e o Dicionário Michaelis. A única voz destoante entre as autoridades é Ramiz Galvão, que argumenta que a quantidade grega mandaria dizer clítoris; nosso sábio da Belle Epoque (seu dicionário é de 1909), contudo, não insiste nessa prosódia, porque ele prefere mesmo é a forma clitóride, que ele classifica como um “substantivo feminino”! “A” clitóride! Assim já é ser extravagante demais …

E aí vem a nota desagradável: eu citei acima o Aurélio da 2ª edição, quando o autor ainda estava vivo. Sua lição é inequívoca: registra apenas clitóris, sem variantes ou hesitações. Qual não é a minha surpresa quando abro o Aurélio XXI (que recebeu vários acréscimos e emendas de uma tal “equipe”… será que ouço o mestre Aurélio rangendo os dentes em seu túmulo?) e me deparo com um verdadeiro qüiproquó: clitóris é dado como mera variante de clítoris, que remete à famigerada clitóride, com direito a verbete e tudo! Esta é mais uma que o Aurélio XXI me apronta; estou colecionando os casos e vou aproveitá-los para mostrar, em um próximo artigo, como uma nova edição de um dicionário não é necessariamente melhor que a anterior. Abraço. Prof. Moreno.

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qüiproquó > quiproquó