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Patinete

Quando se trata de determinar o gênero das visitantes francesas, tudo pode acontecer

Luís Carlos W., de Guarulhos (SP), comparece com uma novidade: “Vi um lançamento no jornal que me deixou em dúvida, professor. Como já ocorre com bicicletas, em breve vamos dispor também de patinetes para alugar. O problema é que a reportagem fala todo o tempo em patinetes compartilhadas e patinetes elétricas, e eu, que já tenho netos, passei toda a minha vida usando patinete como masculino. Minha filha tem um dicionário que diz que é feminino mesmo, mas eu não me conformo. Falei errado todo esse tempo? E meus amigos também? Isso é coisa do novo Acordo Ortográfico?”.

Começo respondendo à tua última pergunta: a resposta é não. O Acordo, mesmo que tenha seus defeitos (e não são poucos, como cansei de expor nesta coluna), não trata disso. Ele regula apenas a maneira de escrever as palavras, ou seja, o uso das letras e dos sinais de que se utiliza nosso sistema ortográfico.

Agora, vamos à tua dúvida central: patinete é masculino ou feminino? Que o termo vem do Francês patinette, ninguém discute. Nas margens do Sena, é um substantivo feminino. E aqui? Em que porta do banheiro ele vai entrar – “Eles” ou “Elas”? “Damas” ou “Cavalheiros”? Ou, como vi num desses cafés de estrada, na porta do “Adão” ou na da “Eva”? (este maniqueísmo, considerado conservador para alguns, corresponde a um mundo em que os banheiros eram distribuídos por sexo, não por gênero).

Ora, como sabes, atribuímos um gênero a todos os nossos substantivos. Os que correspondem a seres sexuados (leão, professor, mestre) geralmente apresentam uma forma masculina e uma feminina; nesses casos, o gênero combina biologicamente com o sexo. O gênero dos demais substantivos, contudo, é arbitrário: eles se distribuem entre masculinos e femininos segundo critérios imponderáveis. Como apontou Jorge Luiz Borges,  nada explica − nem o significado, nem o tamanho − por que espada e alfinete têm o gênero que têm.

No caso de palavras importadas, a hesitação é praticamente inevitável, já que nada pode nos dizer, de antemão, se o vocábulo vai ser masculino ou feminino quando chegar aqui. Ao ingressar em nosso idioma, qualquer vocábulo imigrante deverá ser classificado mentalmente pelo falante num dos dois gêneros que o Português reconhece, sem garantia alguma de que vá coincidir com o gênero que tinha no idioma de origem. Há casos clássicos de palavras que mudaram de gênero na travessia do Atlântico: por exemplo la cocarde virou o cocar, la purée virou o purê (ou, na linguagem das crianças, o pirê) e la enveloppe virou o envelope.

Quanto às visitantes francesas terminadas em -ette (que lá são feminininas), os brasileiros (incluindo os vetustos gramáticos e os intrépidos lexicógrafos) se dividem − e aqui tudo pode acontecer. Essas autoridades nos concedem, por exemplo, o direito de escolher o gênero que quisermos para omelete. De minha parte, prefiro considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que todos os dicionários registram) é omeleta. Não consigo entender, no entanto, por que não estendem a mesma liberalidade a patinete, a que atribuem, sem perdão, o gênero feminino − quando, na pesquisa implacável do Google, o masculino é a preferência de cinco de cada seis usuários.

Vai terminar acontecendo o mesmo que aconteceu com croquete, que (nada mais moderno!) está trocando de gênero. Inicialmente era apontado como feminino, mas o uso privilegiou esmagadoramente o masculino − aliás, com o apoio da famosa geração do Pasquim, que usava “agasalhar um croquete” como sinônimo de “entubar uma brachola” ou “enfornar um robalo”, se bem me entendem.

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Moquecas

Do Espírito Santo à Grécia de Homero: uma viagem através do dicionário

Já mencionei aqui, em outras ocasiões, o prazer que tenho em viajar pelo dicionário – às vezes ao acaso, como um simples flâneur, outras vezes com roteiro determinado por algum interesse específico. Pois andei, na semana passada, pelo Espírito Santo, onde fui apresentar uma sessão de storytelling (é assim mesmo que chamam?) sobre nada mais, nada menos que a Odisseia, quando então pude constatar, com prazer, que Homero continua sendo mais atual que os jornais do dia.

Terminado o evento, meus anfitriões me levaram para saborear uma inesquecível moqueca capixaba ― segundo eles, a legítima, sem dendê ou leite de coco ―, acompanhada de uma surpreendente (para mim) moqueca de banana-da-terra! Fiquei tão entusiasmado com a combinação que, ao voltar para Porto Alegre, decidi reeditá-la ao vivo, já que o pessoal aqui em casa já não aguentava ouvir minha descrição do prato. Reunidos os ingredientes, surgiu o problema de encontrar a tal banana, incomum por estas plagas. Na feirinha orgânica do Bom Fim, no sábado, finalmente encontrei uma espécie parecida, própria para cozinhar, mas sem o porte avantajado da fruta espírito-santense. Bem que a boa alma que me atendeu avisou: “Não estranhe a cica dela, que é assim mesmo”. Na hora, achei graça do cacófato e não dei bola para o resto. Só depois de pronta é que eu entendi a observação: a tal banana ficou intragável, deixando a língua grossa e os dentes botos.

Findo o almoço, lá me fui para o dicionário. A palavra cica veio do tupi e designa aquela adstringência “presente nas frutas ainda verdes mas também em maduras, como a banana-maçã ou o caju”. Era isso; eu tinha sido avisado. Não pude deixar de reparar na inadequação de dar este nome à antiga Companhia Industrial de Conservas Alimentícias ― a Cica, lembram? A que bons produtos indica… (inadequação semelhante à escolha do símbolo adotado por nossa saudosa Varig ― Ícaro, o jovem que depois de voar por algum tempo perdeu as asas e precipitou-se no oceano. Convenhamos, não é um bom mito para inspirar uma companhia aérea).

Esta então era a cica. Alguma coisa me fez lembrar do episódio de Monteiro Lobato, em que Pedrinho, na Grécia, sobe numa oliveira para colher azeitonas. Sem saber que elas só podem ser comidas depois de curtidas, põe uma na boca, para cuspi-la em seguida. “Lembra certas frutinhas do mato que ninguém come, de tão amargas ou itês“, conclui. Lobato não usou cica, mas itê. No dicionário, “ité ou itê ― verdolengo, não amadurecido; diz-se geralmente da banana ainda verde ou de outra fruta que esteja com cica“. Bingo!

Como estava com o dicionário aberto, fui ver de onde tinha vindo a palavra moqueca; ao contrário do que eu pensava, não proveio de língua indígena, mas do quimbundo mukeka, “caldeirada de peixe”. Talvez meus prezados leitores estranhassem, no verbete, a própria definição: “guisado de peixe, frutos do mar, carne ou ovos, feito com leite de coco, dendê e bastante tempero”. Para nós, gaúchos, guisado é um prato com carne moída (o que o resto do país chama de picadinho); na tradição, contudo, guisado é um prato que se prepara refogado ou ensopado: “… um cordeiro frito em manteiga sobre arroz muito bem guisado e com muita especiaria” (Antonio Tenreiro – 1529); “Nunca juntou ao arroz mais que alguma fruta ou ervas guisadas ao modo da terra” (Lucena – 1600). Pronto; dicionário fechado, fim desta viagem.

E por falar na Odisseia, que é a viagem das viagens, lembro que estou formando um novo grupo ― esta será a sexta edição ― para visitar, em fevereiro de 2019, a Grécia da mitologia e da literatura ― Atenas, Micenas, Corinto, Argos, Náuplio, Olímpia e Delfos. Ainda há vagas.

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Através dos dicionários Destaque Lições de gramática - Respostas rápidas

As manhas do dicionário

Apesar de parecer sólido e oracular, o dicionário vai desapontar quem não apertar os botões corretos. Mesmo sendo cavalo mansinho, ele também tem o lado certo de montar.

Entre muitas outras coisas, a vida de professor nos ensina que nenhuma pergunta é óbvia para quem a faz. Aliás, essa é a nossa principal tarefa: a partir da dúvida do aluno, descobrir qual o fiozinho que está desligado, isto é, qual é a informação que está faltando para que ele volte, pelas próprias pernas, para o caminho certo. Até mesmo o dicionário, que era inocentemente chamado de amansa-burro (expressão que hoje pode desagradar tanto às pedagogas quanto às defensoras dos animais) — até mesmo o dicionário, repito, que parece tão sólido e oracular, vai desapontar o usuário que não souber apertar os botões corretos. Abaixo vão alguns exemplos.

A leitora Cássia A. escreve: “Sei que a palavra noz possui os diminutivos irregulares núcula e nucela; gostaria de saber se ela possui também o diminutivo regular nozinha, que não está no dicionário” — Não está porque não precisa, Cássia. Qualquer substantivo ou adjetivo pode formar, se quisermos, um diminutivo em -inho ou em -zinho. Se voz tem vozinha, luz tem luzinha, noz pode ter nozinha (aliás, usamos muito, aqui em casa, no Natal). Por medida de economia, os dicionários registram só os diminutivos e os aumentativos irregulares: chorinho, de choro, é indispensável por causa da música; folhinha, de folha, por causa do calendário; macacão, por causa do traje — e assim por diante.

A mesma explicação, aliás, serve para a leitora Belisa F., de Macapá, que informa não ter encontrado em lugar algum a explicação da palavra inextricavelmente: basta procurar inextricável. Por ser um processo automático do idioma — todo adjetivo pode, com o acréscimo de -mente, produzir um advérbio —, os dicionários aproveitam para registrar apenas aqueles que fogem ao significado original (literalmente, por exemplo, que pode ser tanto “expressamente” quanto “totalmente”, como em “Isso foi dito literalmente” e “Estava literalmente arrasado”).  E aqui vai um caveat para ambas, Cássia e Elisa: esta é a maior, se não única,  desvantagem do dicionário eletrônico (tanto no computador quanto no celular): na edição em papel, ao procurar inextricavelmente, o usuário vai deparar com inextricável, e aí mais de meio caminho já estará andado. Na edição eletrônica, porém, vai receber apenas a chocha mensagem de “verbete inexistente”.

João Carlos C., de São Paulo, tem dúvida sobre a pronúncia do “X” no nome do filósofo grego Anaxágoras, enquanto Carlos R. Júnior, de Porto Alegre, precisa saber se a grafia correta é Groenlândia ou Groelândia. O problema é o mesmo, e mesma é a solução: nossos dicionários, ao contrário dos dicionários ingleses, não incluem nomes próprios, mas sempre podemos encontrar algum substantivo ou adjetivo derivados que nos deem a informação procurada. O dicionário Houaiss, nos verbetes anaxagoriano e anaxagórico, recomenda pronúncia /cs/, e define groenlandês como “aquele que é natural ou habitante da Groenlândia“. Está respondido.

Javier S., de Montevidéu, quer saber por que os dicionários não indicam se incesto e dolo têm a pronúncia aberta ou fechada. Caro Javier: eles indicam, sim. Nossos dicionários seguem sempre a mesma  convenção: quando deixam de indicar o timbre da vogal, é porque a consideram aberta. Em porto, cedo e lagosta, há a indicação, entre parênteses, de que a vogal é fechada — mas nada consta em verbetes como porta, credo e, da mesma forma, incesto e dolo

Finalmente, Misael P., de Recife, escreve para dizer que não encontra o significado de boxo e boxa que aparecem num poema de Drummond: “Hoje sou moço moderno,/ remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável,/boxa, dança, pula, rema”. Ora, prezado Misael, o velho Drummond está usando o verbo boxar (variante de boxear) — e os lexicógrafos jamais registram os verbos conjugados (a cinquenta e poucas flexões por verbo, isso implicaria acrescentar mais de um milhão de formas ao corpo do dicionário). Aqui um dicionário eletrônico ganha mil pontos sobre seus colegas impressos: ao consultarmos o verbete de um verbo, podemos abrir, a um simples clique, uma janela contendo sua conjugação completinha.

 

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Dois a um

“Conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender nossa língua materna”

Ao longo desses quase vinte anos de coluna, já devo ter respondido algumas vezes à pergunta que me envia Nise P., de Juiz de Fora: afinal, em termos de vocabulário, quem leva a melhor − o Inglês ou o Português? Diz ela: “Na minha última viagem à Inglaterra, fiquei surpresa quando o atendente da quitanda não entendeu meu comentário de que as bananas estavam green, isto é, verdes; foi só no hotel, olhando o Google, que me dei conta do mico: a palavra certa seria unripe, porque green só serve para a cor. Por que eles têm duas palavras onde só temos uma?”.

Pois aí está, de forma bem concreta, prezada Nise, a comprovação de que conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender a “língua que bebemos com o leite”, na bela expressão de Cervantes para descrever a língua materna. A inevitável comparação entre os dois sistemas nos faz enxergar, a cada passo, características que antes passavam despercebidas, especialmente no léxico, e nos damos conta, como tu, de que nossa língua pode fazer distinções que a outra não tem, e vice-versa. Reconheço que fiquei muito orgulhoso quando fiquei sabendo que o Espanhol  designa com uma só palavrinha (celo, celos) o que nós distribuímos meticulosamente entre três, zelo, cio e ciúme  — mas logo ali adiante vi o jogo empatar, ao saber que eles distinguem entre sino e pero onde temos apenas o nosso mas.

Na verdade, o idioma inglês tem um léxico mais rico do que o nosso. As razões são conhecidas: sendo uma língua do tronco germânico, como o Holandês e o Alemão, o Inglês recebeu também forte influência do Latim da Igreja e do Francês (através dos Normandos, que ocuparam a Inglaterra do séc. 11 ao séc. 12 − o que, aliás, teria daria um simbolismo especial a uma decisão da Copa entre a Inglaterra e a França, não tivesse a Croácia surpreendido os súditos da rainha Elizabeth). Por causa disso, o léxico apresenta uma variada mistura dessas três diferentes origens − o que faz com que os falantes do Inglês tenham mais escolhas do que nós, dispondo de dois vocábulos onde temos apenas um.

As redes sociais comentam o aborto da cantora? Lá seria feita a distinção entre abortion (como em “legalização do aborto”) e miscarriage (“O choque provocou o aborto”). O nosso voto lá é trocado por dois: vote (“pôs o voto na urna”) e vow (“voto de pobreza”). Eles têm dois tipos de banco: bank (onde mora o dinheiro) e bench (o banco da praça). Nossa política lá vai ser traduzida por politics (na pena corrosiva de Ambrose Bierce, “a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares”) ou policy (a política da empresa). Falamos sobre o sucesso de um casamento? Essa frase é ambígua para nós, mas nunca o seria no Inglês, pois ele distingue wedding (a cerimônia) de marriage (a convivência).

Às vezes o escore aumenta para três a um. Onde temos raio, por exemplo, eles têm (1) ray (“raio de luz”, “pistola de raios”), (2) radius (o “raio de um círculo”) e (3) lightning (a “descarga elétrica”). Aqui, podemos dobrar o papel, o braço, a aposta e dobrar à esquerda; lá, fold o papel, bend o braço, double a aposta e turn à esquerda. Usamos tocar onde eles usam touch (fazer contato), play (tocar um instrumento) e ring (o telefone). A nossa receita corresponde, na língua deles, a recipe (culinária), prescription (médica) e revenue (“a receita do município”).

Esses, Nise, são apenas alguns dos tantos exemplos que eu poderia mostrar. Confesso que alguns deles me deixam com inveja (no mundo da linguagem, distinções precisas de significado são ouro puro), mas me contento com o nosso tesouro, que eu não trocaria por toda essa lista de casos: a oposição entre ser e estar. Nós distinguimos naturalmente “ela é bonita” de “ela está bonita”, coisa que o Inglês não pode fazer porque dispõe, para ambos os casos, do simples verbo to be, sendo obrigado a recorrer a expressões auxiliares para assinalar a distinção entre o permanente e o transitório, fundamental na vida e na Filosofia.

[Publicado em ZH – 12/07/2018  | Ilustração de Edu Oliveira]

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Língua brasileira?

O Brasil se expressa de uma forma tão peculiar que nos permita falar de uma LÍNGUA BRASILEIRA?

O leitor Vanderlei S.T, de Caxias, Rio de Janeiro, vem ressuscitar uma questão há muito sepultada: “Professor, vendo na TV as entrevistas dos jogadores portugueses na Copa, lembrei que o grande compositor Orestes Barbosa, que nos deu o imortal Chão de Estrelas, dizia que não importava quem tinha descoberto o Brasil, porque a língua que falamos é a língua brasileira e não a língua portuguesa. Por que esse assunto não é mais discutido?”.

Caro Vanderlei, não existe uma língua brasileira. Nós falamos a língua portuguesa, da mesma forma que Portugal, Angola, Moçambique e os demais países que integram a chamada comunidade lusófona. O âmago é o mesmo: o sistema flexional é o mesmo, os processos de formação de palavras são os mesmos, o sistema de subordinação é o mesmo, e mesma também é conjugação dos verbos — num quadro similar, mutatis mutandis, ao que acontece com o Inglês, no qual se reconhecem variações britânicas, americanas, australianas e sabe-se lá quantas outras.

As diferenças que existem entre essas variedades, se por um lado ajudam a identificar sua proveniência, são insuficientes para caracterizar um idioma diferente. Um brasileiro diria “Passei a manhã lendo o jornal”, “Te amo”, “Preciso falar com você“; já um português preferiria “Passei a manhã a ler o jornal”, “Amo-te“, “Preciso falar consigo” — mas isso é muito pouco. Na pronúncia, é verdade, o Brasil e Portugal (com sua redução do quadro das vogais) se afastaram muito, o que exige de brasileiros como eu e tu, diante de um programa de TV gerado em Portugal, um esforço inicial para acomodar o ouvido ao novo sistema.

A diferença mais chamativa — e talvez a que mais influa na sensação de que haveria uma língua brasileira autônoma — está no léxico, isto é, nos nomes que damos às coisas. Ora, se isso ocorre mesmo dentro do Brasil, onde uns param no sinal, outros no farol, outros na sinaleira e outros ainda no semáforo, nada mais natural que isso ocorra entre países com realidades tão diversas — ainda mais que Portugal não teve, como nós, a contribuição enriquecedora das línguas indígenas e africanas. A compilação mais completa que conheço foi feita por Mauro Villar, nome assaz conhecido por ser o diretor do instituto que edita (e cultiva) o dicionário Houaiss. Em 1989, depois de passar alguns anos no Velho Mundo, o autor publicou o interessantíssimo Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro, no qual relaciona os vocábulos usados em Portugal e dá o seu equivalente no léxico brasileiro; embora não tenha sido escrito com a intenção de ser cômico, é uma excelente e divertida leitura (a obra está esgotada, mas pode ser encontrada na Estante Virtual,  o  sebo de todos os sebos.

Ali, por exemplo, podemos enxergar nitidamente a riqueza dos nossos processos de formação de palavras: nossa parada do transporte coletivo lá é paragem; aposentadoria é aposentação; bolsista é bolseiro; canadense é canadiano; a indústria automobilista é a indústria automóvel. O refrigerador é o frigorífico, enquanto o salva-vidas é o banheiro (na minha distante Rio Grande, nós o chamávamos de banhista); o que chamamos de banheiro lá é a casa de banho, prima do nosso quarto de banho. (Friso que esses exemplos e todos os que virão abaixo datam de 1989; se nesse meio tempo houve uma ou outra alteração neste quadro, o número certamente será desprezível).

Há casos em que a lógica que presidiu a formação é a mesma, mas a base escolhida é diferente. Nosso aquecedor é lá o esquentador; os mergulhadores portugueses usam barbatanas onde os nossos usam pés-de-pato; nós pisamos nos freios para frear, eles nos travões para travar. O encanador é o canalizador, e o batedor de carteiras, nosso punguista, lá se chama de carteirista.

Também divergimos da língua onde fomos buscar o vocábulo: nosso concreto lá é  betão (do Fr. béton — de onde veio, aliás, a betoneira); a tela é o ecrã (do Fr. écran); o grampo (para grampear papéis) é agrafe (do Fr. agrafe); a mamadeira dos nossos bebês lá é o biberão (do Fr. biberon). Nossa herança indígena e africana nos deu excelentes termos genéricos como capim e pereba, que eles não têm. Nossa caxumba é a papeira deles, o camundongo é simplesmente o ratinho e ONDE temos a bunda eles têm a nádega ou o rabo − e assim por diante, numa lista de menos de mil vocábulos numa língua que tem mais de meio milhão. Como eu disse, é muito pouco.

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Galicismos

Podemos viver sem as palavras de origem francesa? Imagine se nosso léxico fosse atingido por um raio desgalicizador! Ao acordar pela manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, omelete ou tricô.

Em 1882, na abertura de seus Papéis Avulsos, dirigindo-se ao leitor, como de costume, Machado de Assis encerra assim sua apresentação: “Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição”. Ah, não deu outra: na edição seguinte, ele se sente na obrigação de acrescentar uma nota ao final, onde informa, com sua habitual elegância: “Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião. Reproche não é galicismo” — e segue a explicação, citando autores clássicos e respeitáveis. Duas cartas em dois anos! E de um correspondente educado! Que inveja! Penso no frenético Facebook e imagino hoje o pobre Machado enfrentando aquela lista interminável de opiniões tiradas do oco do umbigo (para não citar outro oco mais ao sul) e de bordões como “Fora Temer” e “Lula na prisão”…

Mas a que se deve essa manifestação de Machado? Por que acusar o  recebimento de uma banal carta anônima? A quem se dirigia, realmente, esta justificativa? Ora, sem dúvida alguma, ao clã dos puristas: no final do 2º Império, a extraordinária (e benéfica, a meu ver) influência da França em nossa cultura e em nossa língua começou a receber a oposição de um seita de radicais conservadores, absolutamente xiitas, que bradavam, com muita vontade e pouca ciência, contra a adoção desses galicismos, termo despectivo com que  tentavam fulminar os vocábulos franceses. Este grupo militante, é claro, pregava aos peixes, exaurindo-se numa causa equivocada, travada bem no momento em que mais forte foi sentida a influência do Francês em nossa vida (é significativo que um simpósio sobre a influência da cultura francesa no Brasil Imperial, ocorrido na USP em 2009, tenha escolhido como mote “O Século 19: um imenso galicismo”. Já o século 20, com as duas guerras e o cinema, traria, como sabemos, a ascensão vertiginosa do Inglês).

Para avaliar a extensão do equívoco dos puristas, imagine o amigo leitor que numa noite trágica nosso léxico fosse banhado por um raio desgalicizador, que eliminasse todos esses intrusos: ao acordar de manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, batom, bege, bijuteria, boate, boné, bufê, buquê, cachê, camelô, cassetete, chalé, chantagem, chique, chofer, creche, croquete, cupom, dossiê, filé, garagem, garçom, greve, guichê, lingerie, maiô, maionese, maquete, marrom, menu, omelete, placar, raquete, reprise, revanche, sutiã, toalete, tricô — e isso seria apenas a entrada, porque ainda faltariam os pratos quentes, a sobremesa e o licor. Alguns desses empréstimos eram desnecessários e apenas duplicavam palavras que já tínhamos; o tempo os eliminou, e só os consagrados sobreviveram.

Um caso curioso é rastaquera, que serve de título a esta coluna. Na aparência, poderia ser tomada por uma daquelas  expressões de origem obscura, como brega ou mocorongo, por exemplo; no entanto, ela nos veio do  Francês rastaquouère, termo usado para designar os novo-ricos latino-americanos que ostentavam sua riqueza e seu mau gosto na Paris no final do séc. 19. Incultos, ruidosos, inconvenientes, eles se carregavam “profusamente de joias — para faiscarem de longe”, diz Eça de Queirós (ele escreve rastaquère mesmo, despachando aqueles ditongos incômodos). Os dicionários mais rigorosos da França, no entanto, dizem que o termo é uma adaptação francesa do Espanhol rastracueros, literalmente “arrasta couros”, uma referência ao fato de que esses milionários da América Latina deviam sua fortuna principalmente ao comércio de couro. Não é para nos gabar, mas brasileiro foi usado por muito tempo na Europa como sinônimo para rastaquera, principalmente por causa dos emigrados que voltavam para o Velho Mundo com suas riquezas bem ou mal havidas, dispostos a tudo para “brilhar” na sociedade — até mesmo a enrolar um guardanapo na cabeça para executar, num restaurante grã-fino, aquela constrangedora dancinha que marcou, simbolicamente, o fim de Sérgio Cabral e sua quadrilha.

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Destaque Etimologia e curiosidades Formação de palavras Origem das palavras

Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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Ovação

 

Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Não poderia ser diferente com as palavras.

Pois as tais fake news só vicejam porque encontram terra fertilíssima dentro de nós mesmos. Assim como as lendas urbanas nascem dos nossos temores e desejos mais profundos — e por isso parecem tão verossímeis —, assim essas “notícias falsas” (como se diria em bom vernáculo) parecem bem verdadeiras porque vêm confirmar aquilo que previamente já pensávamos ou sentíamos sobre um tema. Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Sempre foi assim, desde a caverna, e acho que nunca vai mudar. Na versão homérica, os gregos venceram a guerra e destruíram Troia; oitocentos anos depois, Dio Crisóstomo afirmou que isso era uma deslavada mentira, e que Homero havia invertido o desfecho para agradar aos gregos e fazê-los esquecer do vergonhoso fiasco…

Não poderia ser diferente com as palavras. A etimologia pretendia, como diz o nome (do Grego etymon, “verdadeiro”) chegar ao verdadeiro significado das palavras; a realidade, no entanto, reduziu-a aos limites do possível, e ela passou a estudar a história das palavras − ou seja, as narrativas que se tecem sobre elas. Nossos primeiros dicionaristas de renome − Bluteau (1728), e depois dele Morais (1789) − definiam enfezar como “meter fezes”, “encher de fezes o que está limpo”. De onde veio isso? Do Latim? De costumes romanos? Jacaré deu algum exemplo disso? Não? Pois nem eles. Ao menos ambos tiveram a prudência de registrar, como observação lateral, que o termo pode significar também “enfadar muito, fazer encolerizar”. Os dicionários modernos preferem derivá-lo do Latim infensare, “encarniçar-se contra, ser hostil a”, hipótese mais provável que a anterior, mas sempre uma hipótese. Há pontos que ainda falta esclarecer, especialmente no significado, pois hoje enfezar significa tanto “aborrecer, irritar” (“Verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora” – Macedo) quanto “impedir o desenvolvimento; não se desenvolver; tornar-se raquítico” (“a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma” – Alencar). Veremos qual será a próxima explicação…

O mesmo se dá com ovação. A etimologia popular, na sua comovente simplicidade, fixou-se na evidente semelhança com o radical de ovo e inventou uma história condizente: seria uma cerimônia típica da caserna, uma espécie de trote em que o vencedor era saudado com uma chuva de ovos − podres, acrescentam alguns, para aumentar a macheza da ocasião. Afinal, como disse Flaubert no seu famoso Dictionnaire, a etimologia só precisa de um pouco de Latim e de imaginação…

Os homens de letras, no entanto, contestaram com veemência essa versão ginasiana; diferentemente da espetacular cerimônia do triunfo, que tinha pompa e luxo capazes de matar Hollywood de inveja, a ovação era a comemoração de uma vitória militar de menor importância (combate a escravos ou a piratas, ou vitórias sem derramamento de sangue), ao cabo da qual era sacrificada uma ovelha − em Latim, ovis (daí o nosso ovino). Essa seria, segundo Plutarco, a verdadeira origem do nome. Alguns estudiosos, no entanto, acharam a teoria da ovelha insatisfatória, duvidaram dos conhecimentos que Plutarco teria do Latim (ele só falava e escrevia em Grego) e sugeriram que ovação vem do verbo ovare “lançar gritos de entusiasmo e de alegria”, mais ou menos como o evoé das festas dionisíacas. Achei esta melhor do que as duas outras, até porque existe, em nossa língua, o adjetivo ovante, “triunfante, vitorioso”, que Eça usa mas só fui conhecer agora: “Pus uma rosa ao peito e saí, ovante“, conta o patife do Teodorico, em A Relíquia. E é neste ponto que estamos − por enquanto.

 

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Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

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Velharias

 

Posso usar palavras tiradas do baú? Pode, é claro — assim como pode andar com chapéu de três bicos e sapatão com fivela.

Aldrovando K., de Ponta Grossa, Paraná, advogado recém-formado, esbarrou num pedregulho colocado em seu caminho por um colega veterano: “A petição assinada por ele fala todo o tempo no imóvel “suso descrito” e nos compradores “juso relacionados”, vocábulos que não constam na minha edição eletrônica do dicionário Houaiss. Pela posição em que a descrição do imóvel vem no texto, imagino que suso seja um sinônimo de “acima”, e juso seja um sinônimo de “abaixo”. Mas de onde saiu isso, professor? Posso usar também? E já que estou aqui, aproveito para perguntar sobre tirante, palavra que me soa muito refinada, mas que um amigo me disse que é velharia. O que o senhor acha? Formas históricas devem ser evitadas?”.

Caro Aldrovando, teu colega está empregando vocábulos que no Bluteau, avô de todos os nossos dicionários, aparecem com a rubrica “antiquados” já no séc. 18. Suso vem do Lat. sursum, “acima”, o mesmo que aparece no sursum corda (“corações ao alto”) da liturgia cristã. Seu oposto é juso, “abaixo, debaixo”, que vamos encontrar em jusante, “maré baixa, rio abaixo”. O Livro de Alveitaria de Mestre Giraldo, um tratado primitivo de veterinária publicado em 1318, no capítulo sobre anomalias, afirma que os cavalos podem nascer “com sua queixada de juso mais longa que a de suso …” (leia-se “a de baixo mais longa do que a de cima”). Os testamentos dos primeiros reis de Portugal estão repletos, como a petição a que te referes, de “suso ditos”, “juso descritos” e outros que tais. Se podes usar também? Claro — como também podes comparecer à audiência com um chapéu de três bicos, casaca com galões dourados e sapatões com fivela, se quiseres te fantasiar de capitão da marinha de Dom João VI. O baú das palavras também está cheio de velharias, prezado leitor, e na linguagem, assim como na vestimenta, tudo é uma questão de adequação aos costumes vigentes…

Já o tirante ainda circula com desenvoltura em nossa língua atual — e nos seus dois sentidos (refiro-me à preposição; como substantivo, tirante é de uso comuníssimo, indo dos vestidos aos arreios da carroça, passando pelas estruturas arquitetônicas). Até o séc. 18 ele era usado apenas no sentido exemplificado tanto por Antônio Morais, em seu dicionário (“cor tirante a amarelo, isto é, que se aproxima a ele”) quanto pelo padre Bluteau (“Ametista — pedra preciosa da cor da púrpura, tirante a roxo”). A partir do séc. 19, no entanto, o termo adquiriu também o sentido de “exceto”: “Tirante esta última hipótese, bem pouco provável” (Rui Barbosa); “Tirante este incidente, o dia passou em completa paz” (Euclides da Cunha). Na linguagem usual, familiar, tirante realmente soaria como pedantismo (preferimos dizer “a cor puxa pelo roxo” e “tirando esta última hipótese”); na linguagem técnica, porém, de terno e gravata, ele não chamará maior atenção.

E para quem aprecia estas nossas discussões quinzenais, participo que vou ministrar um curso rápido intitulado “Origem e Evolução da Língua Portuguesa”, no Instituto Ling, nos dias 22 e 29 deste mês de maio. O motivo desta escolha? Está assim expresso no programa:  “É nossa língua que nos faz ocidentais, herdeiros da Grécia e de Roma, do Velho e do Novo Testamento, da cristandade, da matemática decimal, do calendário gregoriano. Ela foi usada por santos e cruzados, por navegadores, por carrascos e por vítimas da Inquisição. Quando o Brasil foi descoberto, foi nela que Pero Vaz e Caminha, o escrivão da frota, relatou o feito ao rei de Portugal; foi nela que Camões cantou seus amores e Vieira pregou na Igreja contra as invasões holandesas, falando a colonos, índios e escravos. Quem viajar pela história de nossa língua vai entender o quanto devemos ao Grego e ao Latim, vai poder avaliar a dívida cultural que temos para com os árabes, os povos indígenas e africanos e − para a surpresa de muitos − descobrir o quanto o Português contribuiu para outras línguas do mundo”.