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Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.

 

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Car@s amig@s

Apesar de toda a sua genialidade, o velho e bom Machado de Assis não previu, entre as várias espécies de loucura que Simão Bacamarte catalogou, a sanha que leva alguns indivíduos a propor reformas na sua língua materna — exatamente aquela que, como diria Cervantes, ele bebeu junto com o leite da mãe. Alguns, talvez entrevendo o tamanho sacrilégio que vão cometer, limitam-se a propor sistemas ortográficos próprios, delirantes, feitos em casa, que ganham os seus quinze minutos de fama na imprensa e terminam melancolicamente na barraca de aberrações do circo gramatical (não é por acaso que a totalidade dessas propostas absurdas — todas elas autoproclamadas “salvadoras” ou “simplificadoras” — venha da pena de autodidatas, que não tiveram em suas vidas um mestre que os ensinasse a evitar tanto desperdício de inteligência e criatividade).

Pois o último grito nesta nau dos insensatos é uma proposta que vai ainda mais fundo que a simples troca de letras: como o leitor pode ver no título desta coluna, trata-se da recomendação de “corrigir” também o sistema morfológico do Português, a fim de “limitar ou eliminar a hegemonia masculina” e “tornar o Português mais próximo do igualitário”, como apregoa, de boca cheia, um de seus arautos. Ora, como se aprende nos primeiros meses de qualquer curso de Letras que mereça esse nome, a tal “hegemonia masculina” não existe; usamos o gênero masculino para designar grupos mistos (o brasileiro é feliz — eles e elas) porque, como demonstrei na coluna anterior, ele é inclusivo, ao contrário do feminino, que exclui (a brasileira é feliz — apenas elas).

Infelizmente, explicar isso a esses malucos é tão inútil quanto pregar aos peixes, pois eles são surdos aos ditames da Ciência. Friso que um adepto dessa seita, horrorizado, jamais escreveria assim, mas optaria entre a arroba ou o “x” para substituir a terminação “o” ou “a” — “el@s são surd@s” ou “elxs são surdxs” — e o pior é que sairia com passo firme, orgulhoso, acreditando ter posto mais uma pedrinha na ereção (epa!) da pirâmide da igualdade dos gêneros. Para quem não se deu conta, esta proposta estapafúrdia (felizmente limitada a alguns ambientes universitários inexpressivos) é uma tentativa de melhorar aquela moda esquisita de sempre mencionar, lado a lado, os dois gêneros, que andou em voga há poucos anos, lembram? O que é uma cortesia perfeitamente aceitável em “senhoras e senhores” fica insuportável em “Quando os professores e as professoras entrarem no recinto, o coro dos alunos e das alunas vai saudá-los (las) com uma polca caprichada”. Melhor seria escrever “quando xs professorxs entrarem no recinto, o coro dxs alunxs vai saudá-lxs com uma polca caprichada”? Convenhamos que a nova alternativa é uma emenda muitíssimo pior que o soneto, e que nada se compara a “quando os professores entrarem no recinto, o coro dos alunos vai saudá-los com uma polca caprichada”.

Gostaria de encerrar com duas mensagens, já que o Ano Novo está logo ali: aos leitores, peço que não se preocupem com essa loucurada toda, que vai fazer ainda algum barulho mas logo se extinguirá como um foguete de estrelinhas; aos adeptos desta reforma radical, peço que não abandonem a luta pela igualdade de direitos para o homem e a mulher, que é nobre, mas que tomem juízo e procurem maneiras mais sensatas e eficientes de fazê-lo. Ah, e que aproveitem o feriado para ler (ou reler) A Reforma da Natureza, do Monteiro Lobato, onde vão certamente aprender algumas coisinhas.

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Outros sinais

lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

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Concordância Destaque Flexão nominal

nenhuns

A leitora Frederica W. escreve de lugar não identificado para dizer que levou um susto quando encontrou em Mia Couto, seu autor do momento, a frase “Caiu sem nenhuns sentidos“. Bem-humorada, ela acrescenta: “Não vou perguntar se isso está certo; afinal, se ele escreveu assim, é porque pode — mas bem que eu gostaria de uma explicação para suavizar o golpe…”

Prezada Frederica, este nenhuns que estranhas é o polo oposto do pronome indefinido alguns. Ele sempre esteve lá, em todas as gramáticas, mas uma coisa é vê-lo arrumadinho numa lista de pronomes, onde parece inofensivo como uma aranha espetada num tabuleiro de museu, e outra é vê-lo assim, ao vivo, com cara de que já vai saltar sobre nós.

Se fosses portuguesa, nem terias notado este plural, porque ele continua bem vivo na terra de nossos avós. Em Lisboa, uma campanha publicitária proclama que “Lenços há muitos, mas nenhuns como estes”; um fórum da internet registra, abaixo de uma postagem: “Nenhuns comentários”; no belíssimo fado Partindo-se, que põe em música um poema do séc. XV, Amália Rodrigues canta: “Senhor, partem tão tristes/ Meu olhos por vós, meu bem/ Que nunca tão tristes vistes/ Outros nenhuns por ninguém”.

Antes que alguém pense que se trata de uma dessas inovações “suspeitas” da língua falada, lembro que nenhuns figura abundantemente na obra de escritores importantes como Gil Vicente, Camões, Vieira, Garret, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, entre muitos outros.

Deste lado do Atlântico, contudo, sua sorte foi diferente. Este plural chegou a ser usado por Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Rui Barbosa, Euclides da Cunha (“duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns“) e até mesmo pelo grande Machado de Assis (“Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhuns“; “nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela”), mas não soube bem ao paladar brasileiro, que terminou aposentando-o.

Qualquer um de nós diria “não posso indicar nenhum restaurante” — ou, para os mais elegantes, “não posso indicar restaurante algum“. Já “não posso indicar nenhuns restaurantes” parece um daqueles plurais de brincadeira do saudoso comediante Mussum — de quem muito me lembro, quando vejo na TV a chamada para (mais) um programa de culinária, em que o chef, que tem a figura ideal para representar o personagem Queequeg, o arpoador do filme Moby Dick, tropeçou ao formar o plural de mel. Em vez de optar entre méis (minha preferida) ou meles, ambas dicionarizadas, saiu-se com um impossível mels — concorrendo com Mussum, que chamava qualquer birita (“biritis”, para ele) de , forma reduzida de mel, que ele flexionava sabiamente no plural mézis.

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Destaque Etimologia e curiosidades

Guardanapo

 

 

Às vezes a pergunta vem de tão pertinho que não acho justo deixá-la na fila: meu filho Matias, que é um dos ases da cozinha do Chicafundó, de Porto Alegre, manda mensagem por Whatsapp: “Pai, estávamos discutindo aqui no restaurante e surgiu uma dúvida que só tu podes resolver: o que é que o guardanapo guarda?”. Descontando o “só tu”, que é evidente exagero filial, gostei muito da pergunta, porque vem lembrar que o interesse pelas palavras, assim como os deuses de Heráclito, pode se manifestar em qualquer lugar.

Como a pergunta revela, vocês identificaram corretamente a ocorrência aqui de um composto do verbo guardar, como tantos outro de nosso idioma. Alguns estudiosos, subindo muito alto no afã de enxergar mais longe, pensam encontrar a origem do termo no nosso velho Latim; de minha parte, prefiro, como fez Bluteau, ver em guardanapo um empréstimo do Francês, língua a que devemos tantos vocábulos no campo da culinária, do requinte e do conforto. Embora os súditos de Macron usem atualmente o termo serviette para designá-lo, seu nome antigo era gardenappe (no It., guardanappa), vocábulo formado por garder (“guardar, proteger”) e nappe (“toalha de mesa”).

Para entender essa etimologia, é necessário relembrar alguns detalhes pitorescos da história dos nossos hábitos à mesa: exceto as sopas, é claro, que demandavam a colher, comia-se tudo com a mão, o que resultava, como diria minha vó, numa inevitável lambança. Aliás, na Crônica da Ordem dos Frades Menores (1557), no capítulo que trata da etiqueta à mesa, recomenda-se que aquele que assoa o nariz na mão ou “se coça com sua mão nua” tome cuidado na hora de estender esta mão abençoada para os alimentos dos outros; e que não encoste o pão ao peito para cortá-lo, e que − prática considerada “cousa suja e vil” − não esfregue os dentes nos panos da mesa. Acrescentem a essas mãos sujas as grandes barbas e os longos bigodes, como era o uso da época, e teríamos uma sinfonia de imundícies, não fossem tomadas algumas precauções indispensáveis de higiene.

Uma delas eram as pequenas bacias de prata com água perfumada, para limpar os dedos, a boca e o que mais a decência permitisse; a outra era o guardanapo, uma espécie de descanso circular de prata, de estanho, de couro ou de vime trançado,  sobre o qual se punha, na mesa, o vinho, a água, o pão (no início) e mais tarde o próprio prato, para proteger a toalha de possíveis manchas. O passo seguinte foi transformá-lo numa “toalha pequena, que cada pessoa estende desde baixo do seu prato até os joelhos, ou sobre eles somente, para lhe não cair sobre os calções, ou para se limpar” (a definição é do dicionário de Bluteau, de 1728). Não é por acaso que os ingleses o chamem de napkin, que também deriva do Francês nappe mais o sufixo diminutivo –kin − literalmente, portanto, uma “toalhinha”.

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Através dos dicionários Destaque Formação de palavras Origem das palavras

Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

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coco e cocô

A consulta veio do outro lado do Atlântico, mais precisamente de Lisboa. Escreve de lá o leitor Nuno T.: “Professor, fiquei muito curioso quando li, num site do Reino Unido, que a palavra deles coconut (“noz de coco”) tinha vindo do Português coco. Gostaria de saber se é verdade, pois isso seria para mim motivo de orgulho. Afinal, a gente só vive a importar… E por falar no dito, tenho outra dúvida que o senhor pode não responder, se não achar conveniente: e o cocó das criancinhas (ou cocô, como dizem em vosso país), por que é tão parecido? Haverá alguma relação com o fruto do coqueiro?”.

Prezado Nuno, a resposta é sim para a primeira e não para a segunda. No caso do coco, a origem é mesmo lusitana e, a meu ver, bastante supreendente. Esta palavra designava, inicialmente, uma entidade imaginária usada para assustar as crianças — algo da estirpe do nosso bicho-papão (do verbo papar, ogro que tinha o desagradável hábito de papar os petizes que não se comportassem). Vários estudos folclóricos da Península Ibérica descrevem o antiquíssimo costume de abrir dois olhos e uma boca numa abóbora ou numa cabaça, muitas vezes iluminando-as por dentro (o que não é, como podemos ver, uma invenção dessa praga do Halloween).

Quando os portugueses se lançaram na aventura dos descobrimentos, tomaram contato com o coqueiro nas praias do Oceano Índico (coqueiro esse que mais tarde foi transplantado para cá e se aclimatou tão bem que passou a ser um dos símbolos nacionais, como diz a letra da ufanista Aquarela do Brasil). Vendo no fruto a semelhança de uma cabeça com olhos vazados, tal qual a cara da assombração, acharam natural designá-lo pelo mesmo nome. João de Barros, em suas Décadas na Ásia, de 1563, é um dos autores que deixam bem clara essa origem, ao dizer que o fruto do coqueiro parece ter um “nariz posto entre dois olhos redondos… por razão da qual os nossos lhe chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer coisa com que querem fazer medo às crianças”.

Já o vocábulo cocô não tem assim ilustres antecedentes literários, pois pertence àquele léxico especializadíssimo que se usa na interação do adulto com seus pequerruchos. O nome das pessoas e das atividades cotidianas mais importantes é modificado, reduzido para uma forma mais pronunciável, mais adequada ao ainda inexperiente aparelho da fala da criança, que só domina as sílabas de estrutura mais simples —  no caso da nossa língua, uma sequência de consoante seguida de vogal, que geralmente aparece  reduplicada. É por isso que se criam, no coração das famílias, tantos apelidos como Zezé, Dudu, Lili, Juju, Dadá, etc. —  o mesmo processo que está presente nas primeiras palavras que nossos brasileirinhos pronunciam (e que todos na casa passam a adotar, no seu diálogo com os pequeninos): cocô, pipi, popô, xixi, totó, babá, bebê, papá, mimi, por exemplo, que podem ser diferentes em Portugal. Aliás, o cocó que os portuguesinhos usam no lugar de cocô é, para os nossos pequenos, a designação da galinha e assemelhados, numa evidente formação onomatopaica. França Júnior, autor de comédias do séc. 19, desdobra o vocábulo e faz ouvir em cena o que seria uma frase complexa na língua dos galináceos: “Có, có, cocó, coró có, có có coró”. Não sei o que quer dizer, mas tem estilo.

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Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

propina

Embora pareça ser uma especialidade brasileira, PROPINA, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado, aqui e além-mar.

 

Um fiel amigo acaba de voltar da Europa, de onde quase me trouxe um presente. Fiquei muito agradecido pelo quase, não por acreditar naquela conversa fiada de que é a intenção que vale, mas porque ele sacrificou as duas preciosas horas entre um voo e outro, em Lisboa, na tentativa de comprar, para mim, uma garrafa de um bom tinto de Colares. O trânsito estava interrompido por uma estrondosa manifestação de estudantes que protestavam contra o recente aumento no valor das propinas. Para aumentar ainda mais o absurdo da cena, o motorista do táxi virou-se para trás e, como a se desculpar pela bulha que os jovens faziam, declarou: “Eles não deixam de ter sua razãozinha. Vá lá que se pague, mas dentro do bom senso! Essa nova tabela de propinas é um verdadeiro abuso! Um verdadeiro abuso!”. Como o engarrafamento não cedia, meu amigo voltou para o aeroporto sem o meu presente, mas convencido de que a corrupção que grassa em nossa Pindorama é uma herança direta de Portugal, país que chega à perfeição de ter propinas tabeladas! Por sorte, fui eu a primeira pessoa a quem ele expôs essa teoria  genética da desonestidade brasileira  — primeira e única, porque fiz questão de desmanchar imediatamente esse perigoso mal-entendido.

Ocorre que propina, como qualquer outro vocábulo tradicional de nosso idioma, sofreu muitas mudanças e acréscimos no seu significado. Na Grécia, propinein (de pro, “antes”, e pinein, “beber”)  era uma espécie de brinde muito comum nos banquetes, destinado a reforçar os laços entre amigos ou parentes. A cerimônia se dividia três ações sucessivas, sempre na mesma ordem. Por exemplo, numa festa de casamento, o sogro enchia de vinho uma taça especial, geralmente valiosa, bebendo ele próprio alguns goles de seu conteúdo; depois, levantava um brinde à saúde do genro e dava-lhe a taça de presente. O jovem, então, bebia do mesmo vinho que o sogro tinha bebido, a fim de que se estabelecesse entre os dois um vínculo incorruptível de parentesco.

No passo seguinte, em Roma, propinare já não se referia a esse ritual formalizado, mas simplesmente significava “convidar alguém para beber” e, mais tarde, “dar de beber a alguém, ministrar, servir”. É nesse sentido que o verbo aparece na fórmula de exorcismo do tempo do Papa Leão XIII, quando, dirigindo-se ao capeta, o exorcista ordena: “Cesse decipere humanas creaturas, eisque aeterna perditionis venenum propinare” — o que vem dar, em vernáculo, algo como “Deixa de enganar as criaturas humanas e ministrar-lhes o veneno da perdição eterna”. Aliás, é nesse mesmo sentido que nossos escritores do séc. XIX usaram o verbo propinar: “Há envenenamentos propinados por escravos” (Macedo); “Guardai-vos das Circes: prometem prazeres e propinam veneno” (Marquês de Maricá).

No séc. XVIII, o vocábulo propina passou a ser usado para designar  a bebida que se pagava a alguém para premiá-lo por um bom serviço prestado, prática que foi simplificada com a simples oferta da quantia correspondente. Nos países de língua espanhola, esse continua sendo o sentido preponderante do vocábulo; dá-se propina ao garçom, ao porteiro do hotel ou ao carregador de malas para recompensar sua eficiência ou sua boa vontade. No Brasil atual, no entanto, criou-se uma curiosa distinção entre o antes e o depois: essa gratificação  por um serviço qualquer  é chamada de gorjeta, enquanto propina passou a designar o dinheiro que o brasileiro dá antecipadamente a alguma autoridade corrupta para garantir a obtenção daquilo que ele deseja; como invariavelmente se trata de atos ilícitos, o funcionário corrompido cobra sua recompensa  antes,  para evitar possíveis calotes do corruptor. A classe dos que recebem propina vai ficando tão numerosa que aqui e ali já há indícios de um progressivo aperfeiçoamento da instituição, tais como a emissão de recibo, o registro das propinas auferidas na declaração do Imposto de Renda e o pagamento parcelado por meio de carnê.

Em Portugal, no entanto, propina adquiriu um significado totalmente diferente daquele que tem no Grego, no Latim, no Espanhol ou no PB (Português do Brasil); na terra de Eça e de Camilo Castelo Branco, o termo designa simplesmente as anuidades cobradas pelas faculdades e pelos colégios, sejam privados, sejam  públicos (que também são pagos). Várias instituições de ensino divulgam, na internet, o seu “regulamento de propinas“; o estudante bolseiro (que nós chamamos de “bolsista”) está isento de pagar a propina; o Conselho de Reitores fixa o valor da propina — e assim por diante. Os estudantes que meu amigo encontrou nas ruas de Lisboa, portanto, protestavam  contra o aumento das anuidades.      Era só isso.

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Numa coisa todo o mundo concorda: a riqueza de uma língua é medida, em grande parte, pelo número de vocábulos que ela oferece a seus falantes — assim como, em escala menor, a riqueza de cada um de nós se mede pelo número de vocábulos que conhecemos. No entanto, toda hora aparece, na minha caixa de correio, alguém que vem lamentar o nascimento de uma palavra nova. Nesta semana de Natal, um leitor que assina com o pseudônimo de Indignado vem manifestar — por que a surpresa? — a sua indignação com a palavra desprincesamento. “De onde saiu essa doidice? Os jornais publicam assim sem o menor pudor! Até dá para entender o que a palavra quer dizer, mas pode ser assim? É só inventar e pronto? Não se poderia criar um instrumento legal que regulamentasse essas novidades?”.

Meu caro Indignado, está na hora de revisarmos alguns princípios básicos que regem nosso léxico. Em primeiro lugar, não há, neste planeta, lei com poder suficiente para regulamentar o funcionamento de uma língua. O máximo que se consegue fazer é regulamentar a sua ortografia, que é uma pura convenção entre os usuários. Tentar legislar sobre o resto — a sintaxe, a criação de palavras, o sentido que elas têm, etc. — seria tão inútil como pregar aos peixes. No caso do léxico, então, a tarefa é impossível, pois é nele que melhor se enxerga o caráter infinito do idioma.

Ao contrário das sementes, as palavras jamais perdem o seu poder germinativo. No dicionário, em ordem alfabética, as centenas de milhares de vocábulos que ali repousam mantêm, intacta, a capacidade de gerar descendentes. Pardal, por exemplo, ali figurou, durante cinco séculos, como um simples passarinho; no momento em que resolveram assim designar os controladores de velocidade, a semente saiu de sua dormência e produziu pardalizar (as estradas), despardalizar, pardalização, despardalização… Ao contar aquela história em que Pedro Malasartes enche de moedas o fiofó de seu cavalo para enganar o fazendeiro rico e prepotente, um famoso poeta de cordel estampou na capa do folheto “O cavalo que descomia dinheiro”, evitando assim o c*gava do título popular. Aliás, por falar no tema, no tempo do presidente Figueiredo, uma lei sancionada teve de ser dessancionada para correção, sendo algumas horas depois ressancionada — dois novos galhos na árvore da palavra sanção foram criados no espaço de horas!

Aqui se inclui também o desprincesamento, palavra feinha que surgiu em contraposição a princesamento, outra novidade. Uma mãe em Curitiba achou importante e necessário abrir uma escola para ensinar às meninas aquelas artes e atitudes que, segundo ela, caracterizam uma verdadeira princesa; a iniciativa teve tanto sucesso que já se abriram várias filiais. Outras mães, ao contrário, vendo nisso uma submissão precoce das meninas a estereótipos de gênero, trouxeram do Chile a ideia de uma escola de desprincesamento, para incutir desde cedo nas garotas a consciência do novo papel da mulher na sociedade.

Como se pode ver, o processo é incontrolável; os vocábulos resultantes entram na implacável filtragem pelo uso e, aos poucos, vai-se vendo quais são as criações que já ingressaram na corrente sanguínea e quais vão ficar adormecidas, talvez para sempre. Gostar delas ou não, empregá-las ou não, criticá-las ou não — tudo depende da simples decisão de cada usuário. Para consolo do amigo Indignado, ofereço outra criação do mesmo quilate, o desencapetamento: já vi anúncio na internet oferecendo um “método fácil e eficaz para desencapetar um homemsexual“. Feliz Ano Novo!