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Crase Destaque Lições de gramática

sutilezas da crase

 

Tenho certeza, caro leitor, que você sabe muito bem que só os ingênuos acreditam em soluções simples para problemas complexos — e isso vale também para a gramática. O acento de crase  é um bom exemplo: há tantos fatores envolvidos em seu emprego que, percebendo que o gelo é fino e a mata é espessa, nenhum de nós se arrisca a usá-lo sem antes fazer uma pausa para pensar. Uma certa dose de angústia é inevitável aqui (há até quem se benza!), mas  asseguro que um pouco de calma e reflexão há de nos pôr no bom caminho.

Pois é exatamente sobre crase a consulta feita por uma enfermeira que, por razões pessoais, pede que eu não publique seu nome. Em seu trabalho na transcrição de consultas médicas, recorre constantemente a dicionários e a gramáticas, mas não consegue entender por que o A não deve ser acentuado em construções do tipo “paciente submetido A cirurgia de catarata”. Diz ela: “Um médico afirmou que é sem acento, mas, para mim, as duas condições de crase estão presentes: submetido pede a preposição A e o segundo termo é um substantivo feminino: não seria o suficiente?”.

Não, prezada amiga, não seria o suficiente. Assim como para o tango, são necessários dois participantes para que ocorra a crase: a preposição A está ali, como você percebeu, mas ela está sozinha; o outro parceiro, o artigo feminino A, não compareceu. Apesar de cirurgia ser palavra feminina, está sendo usada de modo indeterminado e, portanto, desacompanhada de artigo definido. Fica mais fácil de explicar se usarmos substantivos masculinos, pois a presença ou ausência do artigo O termina deixando tudo mais visível. Note que escrevemos “paciente submetido A exame de dependência toxicológica” — e não “ao exame”, o que prova que temos apenas a preposição. 

O que parece ser uma complicação inerente à crase não passa, na verdade, de uma sutileza do emprego do artigo, uma palavra injustiçada, que tem de importante o que tem de nanica. O que está por trás disso é a diferença entre o dado e o novo, categorias que raramente são mencionadas nas gramáticas tradicionais. Quando nos referimos ao novo, não há artigo definido: “Polícia evita assalto na BR-101″ (e não “O assalto”). 

A presença (ou não) do artigo faz muita diferença. Compare “Referindo-se A peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…” com “Referindo-se À peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…”. Ambas estão corretas, mas dizem coisas diferentes. Na primeira, peça é um dado novo, sendo usado com sentido indefinido (“uma peça”); na segunda, pressupõe-se que os leitores compartilhem o conhecimento prévio de que a deputada tinha assistido a um espetáculo infantil na Rocinha. Seu Fulaninho informa que uma vez operou a catarata; na ficha dele se registra “paciente submetido a cirurgia de catarata” (“uma cirurgia”). Seu Fulaninho comenta que não ficou satisfeito com o resultado: “referindo-se à cirurgia de catarata, o paciente… (ele está falando daquela cirurgia já mencionada). 

Como você pode ver, a resposta é complexa porque este não é mesmo um caso tão simples —  ou tosco, como a de um leitor indignado que escreveu, em estilo meio arrevesado: “O acento craseado [sic] foi colocado em um texto na palavra ègua (credo!). Em qual caso na língua portuguesa se utiliza esse tipo de acento?”. Meu pensamento voou. Éguas, cavalos, jumentos… confesso que a tentação foi grande, mas engoli a piada.

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Pré-datado?

 

Como já disse outras vezes, só dois tipos de pessoa não se importam com a ortografia. Há as alminhas rebeldes que pregam a liberdade absoluta no uso das letras e dos acentos por acreditar que uma regra — qualquer espécie de regra — é apenas outra forma de discriminação social que as elites inventaram para perpetuar sua supremacia; para um desses revolucionários de formigueiro, é claro, escrever como lhe der na veneta torna-se um verdadeiro ato de autoafirmação política. 

Na outra ponta do espectro, encastelados no topo da montanha, vivem aristocratas como o Cardeal Richelieu, que tachava de plebeia qualquer preocupação com a grafia das palavras. Se ele vivesse entre nós, olharia para o hífen ou para o cê-cedilha com a mesma desconfiança com que a grã-fina olha para o indefectível pratinho de maionese no batizado do filho da empregada. Nós outros, contudo, que não pertencemos a nenhum desses dois grupos, achamos importante seguir, o mais fielmente possível, o modelo vigente, pois só assim fica assegurada a fluidez da leitura. Cada vez que me desvio da norma, quem sai perdendo sou eu, pois levo meu leitor a desviar sua atenção do texto para fixá-la na grafia da palavra. 

Por esse motivo, entendo perfeitamente o desabafo do leitor Silvio C., de Campinas, que, como todos nós, vive aos tombos com o misterioso hífen: “Caríssimo professor, o emprego do hífen com o prefixo pre está me tirando o sono. Escrevo pré-escolar e pré-nupcial, mas predeterminado e preestabelecer? É isso? Mas não há critério? O Acordo esqueceu de fazer uma regra para isso?”.

Não, prezado leitor, existe uma regra, sim — na verdade, uma velha regra que está em vigência desde 1943, que o atual Acordo apenas confirmou. Trocando em miúdos, ela reza que o prefixo tônico pré- (bem como seus irmãos pós- e pró-) será sempre seguido de hífen: pré-fabricado, pré-pago, pré-pizza. Esta regra obedece ao princípio básico de que prefixos com sinal diacrítico (acento ou til) são morfológica e fonologicamente independente, devendo, por isso, vir separados do vocábulo que os segue. 

Mas… (ouço, ao longe, o Diabo esfregando as mãos…), pelas mesmíssimas razões, a mesma regra determina que as versões átonas desses mesmos prefixos (pre-, pos- e pro-) não serão seguidos desse sinal: predispor, predestinado, preconcebido. É uma regra bem clara, mas, como você mesmo constatou, não serve para coisa alguma. Afinal, quem determinou que em preconcebido o E é fechado e átono, e não aberto e tônico (préconcebido)? Isso, meu caro, é o 5º mistério de Fátima. Há discussões similares sobre o cheque predatado ou pré-datado, sobre prejulgar ou pré-julgar, sobre preaquecer ou pré-aquecer o forno antes de assar o bolo. Esta hesitação natural sobre a tonicidade do prefixo é histórica e jamais vai ser resolvida; nunca teremos certeza sobre a sua pronúncia e, ipso facto, de sua grafia. O máximo que podemos fazer, nesses casos, é ver o que o Aurélio, o Houaiss ou o Aulete andam fazendo, para então decidir se vamos ou não concordar com a opinião deles.

   

 

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propinocracia

 

 

A algumas semanas da eleição, poucos foram os brasileiros que ficaram indiferentes à denúncia oferecida contra o ex-presidente Lula pelos procuradores da operação Lava a Jato — uns a criticar, outros tantos a aplaudir. Entre estes últimos certamente se inclui nosso leitor Alberico Z., de Caxias do Sul, o qual, depois de elogiar muito esta coluna (“Recorto sempre e mostro para os amigos”), lamenta que os jovens integrantes da força-tarefa do Ministério Público tenham maculado sua apresentação ao empregar o termo propinocracia, que não está nos dicionários. “Professor, entendo o que eles querem dizer com isso, mas acho que um neologismo deste quilate destoa como um resto de feijão no dente. O senhor não concorda?”.

Não, caríssimo leitor, não concordo — e aconselho que você puxe uma cadeira e aproveite o divertido desfile dessas palavras que nascem da recombinação de elementos que todos conhecem. Como sabem que o termômetro e o barômetro são instrumentos de medir, os falantes criaram, por analogia, palavras como olhômetro, impostômetro, sonegômetro e bafômetro, que são muito úteis e de significado muito claro. Os hotéis equiparam cada quarto com um frigobar? Pois um folheto anuncia um passeio ecológico pela Serra do Mar, em que os participantes serão acompanhados por um guia e um paciente frigoburro. Não é uma beleza?

Além disso, a palavra propinocracia já não é tão nova assim. Em 2011, por exemplo, Cláudio Noronha publicou em seu blogue um texto facecioso em que deita e rola, descrevendo uma suposta república propineira, que segue o regime da propinocracia. O poder é dividido entre propinocratas novos e velhos — os neopropinocratas e os propinossauros, todos eles imbuídos do mais legítimo espírito propinocrático.  O problema, diz o autor, é que “recente pesquisa, feita pelo Instituto de Propinologia
e disponibilizada na propinet, revelou uma tendência perigosa da sociedade se polarizar, opondo propinistas contra antipropinistas” — e por aí vai a valsa. 

Como podemos ver, não precisamos consultar um dicionário para entender essas palavras, pois nosso léxico é como um imenso Lego: as peças estão na caixa, à disposição do falante, que pode usá-las para produzir centenas de milhares de combinações que, é quase certo, não haverão de estar dicionarizadas. O blogueiro Cláudio Noronha ou os procuradores, portanto, não inventaram propinocracia ou o também recente propinoduto; elas já existiam virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera de que a realidade produzisse as condições necessárias para que alguém as empregasse. É isso que explica, aliás, a cara de paisagem que faço quando me perguntam quantas palavras tem nosso idioma…

Ah, outra coisa: o amigo disse que costuma recortar e guardar o que escrevo — no que muito me honra; talvez lhe interesse saber, por isso mesmo, que a Coleção Pocket da editora L&PM inclui três volumes de O Prazer das Palavras, reunindo uma
boa parte das colunas aqui publicadas.

(Ilustração do incomparável Edu – Jornal ZH) 

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Por falar em paraolimpíada

Confesso que não entendi essa aceitação pacífica — quase ovina, eu diria — com que a maior parte da imprensa brasileira engoliu uma aberração do calibre de “paralimpíada”. 

Os meios de comunicação, sempre tão sensíveis (e críticos) a qualquer inovação vocabular — lembro, por exemplo, de quanta tinta se gastou para comentar o imexível do ministro Magri ou o sugerimento de Dunga, palavras, aliás, formadas dentro dos mais legítimos princípios do idioma —, desta vez aderiram imediatamente a esta malparida “paralimpíada” e ao não menos lamentável adjetivo “paralímpico”.

“Foi exigência do Comitê Nacional”, dizem uns; “do Comitê Internacional”, emendam outros — como se alguma instituição desportiva, política, religiosa, financeira, jurídica ou o que seja, desta ou de qualquer outra galáxia, tivesse o poder de determinar a forma das palavras que nossa língua produz ou deixa ingressar em seu léxico!

Se, com muita boa vontade, equipararmos o nome de um comitê esportivo a uma marca registrada, podemos até admitir que ele seja grafado de acordo com a vontade ou fantasia do dono (ou dos dirigentes).

No entanto, assim como as corporações que produzem a Gillette e o Band-Aid nada podem fazer se resolvemos criar, a partir de seus nomes, os substantivos gilete e bandeide, os referidos comitês não vão influir, com suas decisões privadas, na grafia de palavras como paraolimpíada  e paraolímpico, já de uso comum e assim registradas em todos os nossos bons dicionários.

A língua inglesa, de onde veio a novidade, tem lá suas desculpas por ter produzido essa aberração: segundo o Oxford English Dictionary — o incomparável OED —, o termo paralympic foi cunhado nos anos 50 a partir da união de pedaços dos vocábulos paraplegic e olympic, já que, em sua primeira edição, o evento era dirigido exclusivamente para quem sofria algum tipo de paralisia.

Este tipo de fusão lexical (chamada tecnicamente de amálgamamesclagempalavras-valise, etc.), que junta o segmento inicial de uma palavra ao final de outra para formar uma terceira é bastante produtivo no Inglês: smog (somoke+fog), bit (binary+digit), brunch (breakfast+lunch), fanzine (fan+magazine), freeware (free+software), entre dezenas de outras. Duas delas, inclusive, passaram a fazer parte de nosso vocabulário técnico: mecatrônica (mechanics+electronics) e estagflação (stagnation+inflation).

Em nossa língua, no entanto, esse é um processo exótico, usado principalmente por quem busca o efeito crítico ou jocoso que as palavras amalgamadas despertam: showmícioportunholbrasiguaiobebemorarchafé (café muito diluído), namorido (é mais que um namorado, mas menos que um marido — vocábulo que, misteriosamente, ainda não tem o seu equivalente feminino…), onguessugas (usada para ONGs não muito honestas), chocólatra, etc.

Os humoristas de primeira linha (no meu dicionário, aqueles que descobrem, para alegria geral, as pepitas de humor que se escondem no idioma) exploram bastante este veio. É o caso de barcilo, “bactéria encontrada num bar”; boicejo, “o tédio do marido da vaca”; cartomente, “adivinha que nunca diz a verdade” (todas do Millôr Fernandes); ou de marmúrio, “barulho longínquo do mar”; zerossímil, “que não se parece com nada”; e triglodita, “muito, muito primitivo”, do nosso Luís Fernando Verissimo.

Como se vê, esse curioso processo de criação produz vocábulos efêmeros, apropriados para situações especiais, lúdicas ou literárias, mas não faz parte daquela “máquina de fazer palavras” que todos os falantes do Português usam desde pequeninos.

O interessante é que paralympics tornou-se discutível mesmo no Inglês, sua língua de origem:  como os jogos passaram a incluir portadores de outras deficiências, a ideia primitiva de paraplegics desapareceu, e o vocábulo passou a ser reanalisado como para+olympics, onde o primeiro elemento é o prefixo de origem grega “para”, que significa, entre outras coisas, “semelhante, paralelo” — o mesmo que encontramos em paramilitarparadidático e paramédico, ideia também presente na paraolimpíada, que passou a ser um evento regular, paralelo e estreitamente relacionado à olimpíada.

Não me cabe criticar os ingleses por persistirem no uso da forma primitiva; afinal, eles têm uma rainha, dirigem do lado errado da estrada e devem ter lá os seus motivos para se conformar com paralympics — mas asseguro que aqui é diferente: não há como justificar, no Português, esta forma esquisita, que causa estranheza a todos os que entram em contato com ela.

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Esposas

Esposas - Edu

 

Baseado na etimologia, um leitor alega que o termo “esposa” designa a mulher prometida em casamento, não devendo ser empregado para as que já estão casadas.  

Um fiel leitor desta coluna, L. Barros, de Pelotas, pede minha opinião sobre um ponto que ele julga controverso: “Ainda ontem li outro colunista do jornal Zero Hora falando sobre sua esposa de tantos anos. Volta e meia corrijo algum amigo dizendo que esposa é a mulher que está casando, isto é, a noiva; depois do casamento os cônjuges passam a se chamar marido e mulher. Sempre atribuo a um certo “respeito” o fato de chamarem a mulher de esposa, como se o termo mulher fosse depreciativo. Por isso, para esclarecer para sempre esta questão, pergunto se podemos mesmo chamar nossos cônjuges de esposo ou esposa”.

Prezado leitor, acho que você está levando a sério demais a etimologia do termo. Como todos sabem, são incontáveis os casos em que o passar do tempo modifica o sentido original das palavras. É verdade que esposa vem do Latim sponsa (“prometida”), feminino de sponsus, do verbo spondere (“prometer solenemente”), mas o Português e as suas irmãs, ao herdarem o vocábulo da língua-mãe, passaram a usá-lo principalmente no sentido de “mulher casada” — épouse (Fr.), sposa (It.), esposa (Cat. e Esp.).

No nosso caso, desde o séc. 15 (antes mesmo do Brasil ser descoberto!) usamos esposa e mulher como sinônimos. Vercial, no seu tratado de liturgia (séc. 15), ao descrever o sacramento do matrimônio, recomenda: “publicamente deve assim dizer: eu te recebo por meu esposo e marido, e ele deve dizer: eu te recebo por esposa e mulher“. O padre Vieira (séc. 17) deixa bem claro: “respondeu que se não queria descasar de sua esposa“. A Bíblia, em suas inúmeras versões, ora usa um, ora usa outro, como, por exemplo, em Salmos 109,9: “Que seus filhos fiquem órfãos, viúva sua esposa” (Católica); “Sejam órfãos os seus filhos, e viúva sua mulher” (Ferreira de Almeida). Como se pode ver, em princípio a escolha é livre.

É evidente, porém, que essa livre escolha pode estar condicionada, em cada situação, por todas aquelas forças sociais e psicológicas que interferem no uso que cada um faz das palavras. Como você muito bem reparou, caro leitor, o termo esposa é considerado por muitos uma forma mais refinada de chamar a sua cara metade. Balzac, em 1830, descrevendo um burguês parisiense, ressalta que ele vai sempre usar o termo esposa (épouse) no lugar de mulher (femme), que ele considera vulgar e descortês.

Além disso, há casos em que o termo mulher pode não deixar claro se estamos falando do feminino de marido ou de homem: “Fulano teve várias esposas” não deixa dúvida, ao contrário de “Fulano teve várias mulheres“. Hoje, mais do que nunca, o termo esposa contrasta com as inúmeras formas não tradicionais de relacionamento entre os casais modernos. Quem diz “Apresento minha esposa” quer, conscientemente ou não, subentender que ele e sua consorte estão casados oficialmente — o que não está implícito no conceito (muito mais amplo) de “minha mulher”, que engloba tanto as esposas quanto as companheiras, as namoradas, as parceiras, as “queridas”, os “rolos”, e todas as outras formas  de convívio que nossa imaginação afetiva puder criar.

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Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

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Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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verba volant

VERBA VOLANT-EDU

As palavras, caro leitor, não são como as moedas, que têm para mim o mesmo valor que têm para os outros. Eu me lembro disso cada vez que deparo com frases corriqueiras ou surradíssimos lugares-comuns empregados com um sentido completamente diferente daquele que eu jurava ser o único possível. Numa dessas manhãs, ganhei meu dia ao encontrar uma dessas surpresas na tira do Hagar, o horrível, um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos do jornal. Como viking que é, Hagar ganha a vida sitiando castelos e enfrentando inimigos tão aguerridos como ele. Na tira em questão, o sábio Dr. Zook sentencia, solenemente: “Violência gera violência!”. Hagar pensa um pouco no que acabou de ouvir e depois, com ar satisfeito, exclama: “É justo!”. Bingo! Hagar acabava de me mostrar que a tradicional mensagem pacifista podia ter uma interpretação diametralmente oposta daquela que parecia ser a única.  

Pois nesta semana, a expressão latina que Michel Temer escreveu na carta dirigida à presidente – verba volant, scripta manent – foi medida, cheirada e explicada em praticamente todos os jornais do país. Se é relativamente fácil descobrir o seu significado − uma tradução honesta desta frase seria “A palavra falada voa, a palavra escrita permanece”, ou, como quis um autor clássico, “as falas voam, os escritos ficam” −, é importante frisar que ela pode ter duas leituras também opostas.

Eu sempre tinha lido (e empregado) essa frase como um conselho para registrar as coisas por escrito, a fim de não perdê-las em algum desvão da memória. Para mim e para milhões de outras almas deste mundo −  incluindo, certamente, Michel Temer −, essa era uma advertência contra a volatilidade da palavra falada; não me passava pela cabeça a hipótese de que outros tantos milhões vissem nela um alerta contra o uso desta técnica tão perigosamente indiscreta.

Pois se Hagar me ensinou alguma coisa, agora foi a vez de Plutarco me surpreender: ao narrar a vida de Alexandre, conta que o grande conquistador censurou Aristóteles, seu mestre e tutor, quando soube que ele tinha decidido publicar seus tratados mais importantes: “Que vantagem terei sobre o resto dos homens, se as valiosas lições que tu me deste vão ficar ao alcance de todos?”. Cáspite! Então Alexandre não se importava com a transitoriedade do que Aristóteles falava, mas sim com a permanência do que ficaria escrito! Bingo, de novo! O que eu sempre tinha considerado uma virtude da escrita era, para ele, o seu maior perigo e desvantagem!

Prisioneiro da minha própria interpretação, que parecia óbvia, nunca tinha examinado essa frase com mais atenção. Fui consultar os dicionários especializados e − para minha vergonha! − vi que para muitos o verba volant é um conselho de discrição: sejam  circunspectos nas situações em que pode ser imprudente deixar uma prova material sobre algo que foi dito; e vocês, escritores, cuidado com o que publicam, pois os livros ficarão para sempre como testemunhas do seu talento −  ou da falta dele.

[Ilustração de Edu – ZH 19/12/2015]

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concursos: adjunto adnominal x complemento nominal

Um candidato desesperado vem pedir auxílio para fazer um recurso urgente, numa questão que envolve a famigerada distinção entre adjuntos adnominais e complementos nominais. Não obteve tudo o que pedia, mas saiu daqui levando o mapa da mina.

Olá, professor Moreno. Serei o mais breve possível, pois preciso urgentemente saber seu posicionamento sobre uma questão do último concurso do TRT-7ª (2009). Em nome de seus filhos, por favor, me ajude, porque isso pode decidir a minha vida e a da minha família. Reproduzo abaixo a questão:

A busca por explicações para os diversos matizes da personalidade”

A mesma regência assinalada acima NÃO está caracterizada na expressão:

 (A) vários países da Europa.

(B) a influência dos hábitos e do estilo de vida.

(C) na formação da personalidade.

(D) produto apenas do ambiente.

(E) uma reação à série de barbaridades.”

O gabarito oficial dá como correta a alternativa “A”. Não entendo por quê; afinal, nenhuma alternativa apresenta a preposição POR, destacada no enunciado. Como eu poderia ter resolvido esta questão? Ela poderia ser anulada? Quanto o senhor cobraria para fazer um recurso para mim?

J.B. —  Juazeiro do Norte – CE

 

RESPOSTA —  Meu caro J.B, a questão parece ter um defeito grave. Vamos examinar, primeiro, a estrutura do enunciado: “por explicações” é complemento nominal de “busca”. Assim como o verbo buscar exige complemento verbal (objeto direto, no caso), o seu substantivo derivado necessita de um complemento nominal. Essa estrutura se repete na alternativa (C), em que “a personalidade” é o CN de “formação”, bem como na alternativa (E), em que “a série de barbaridades” é o CN de “reação”.

Ocorre que as outras três alternativas têm adjuntos adnominais e se enquadrariam, portanto, naquilo que a banca pede, pois nenhuma delas tem a mesma regência assinalada no enunciado. O exemplo mais óbvio está na alternativa (A), indicada no gabarito oficial (“países da Europa”). O problema é que, na alternativa (B), “dos hábitos e do estilo de vida” também são adjuntos adnominais (já que, na estrutura profunda, “os hábitos e o estilo de vida influem” — e o princípio indiscutível é que o sujeito da estrutura profunda se transforma em adjunto na estrutura de superfície). O mesmo ocorre na alternativa (D), em que “ambiente” é o adjunto adnominal  de “produto” (“o ambiente produz”).

Desta forma, a questão apresenta TRÊS alternativas que não correspondem à estrutura assinalada no caput e, portanto, deveria ser anulada. Essa é a minha opinião —  e aqui ficamos. Não faço recursos individuais, nem poderia: eu trabalho sozinho e não é fácil atender a todos os consulentes do Sua Língua. Teu apelo, entretanto, me comoveu. Não vais sair com as mãos abanando: com base no raciocínio que apontei acima, um bom professor de Português aí da tua cidade certamente vai montar um sólido recurso. Boa sorte!

Prof. Moreno

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Janta

Injustamente condenada por velhos gramáticos, a palavra JANTA é filha legítima do verbo JANTAR, da mesma forma que VISITA e DESOVA nasceram de  VISITAR e DESOVAR.

 

Em algum desvão esquecido do meu computador, reencontro uma pergunta que me fez, há tempos, a talentosa Haydée Porto, caríssima amiga, figura imprescindível do nosso teatro: “Uma conhecida me criticou bastante por causa de uma palavra que usei: janta. Na verdade, nunca tinha me dado conta disso. Nós, gaúchos, estamos errados ao falar assim?  Ela é portuguesa, dona de uma escola famosa em SP, e se orgulha de não cometer erros de Português ― mas diz “meia cansada”! Quando chamei sua atenção para isso, quase morreu de susto! Mas e nós, hein, Moreno, como ficamos com a nossa janta?”.

Ficamos muito bem, minha cara Haydée. Janta é um substantivo formado por derivação regressiva do verbo jantar, criado à semelhança de dezenas de outros que extraímos de verbos (chamados, por isso mesmo, de deverbais): por exemplo, suplicar deu súplica, alcançar deu alcance, baixar deu baixa e almoçar deu almoço. Por que, então, jantar não poderia dar janta? Na fronteira com os países do Prata já ouvi muita gente dizer suba (“Vou comprar o carro antes da suba do dólar”), como substantivo para subir. Eu acho estranho esta suba (que Houaiss registra como variante do Rio Grande do Sul), assim como tua amiga deve ter achado estranho a nossa janta ― e  assim como nós, os brasileiros, não estamos habituados ao termo apanha, muito usado em Portugal (“No Alentejo, a apanha da azeitona começa em outubro”). E daí? É natural que, de uma região para outra, haja preferências distintas em tudo ― na maneira de fazer churrasco, na música que toca no rádio e, mais do que em todas as demais áreas reunidas, nos vocábulos que empregamos.

Uma passada no Google (em setembro de 2015) deu mais de 13 milhões de ocorrências para janta; mesmo que isso não possa ser considerado argumento “científico”, é, no entanto, uma evidência amazônica da vitalidade desta variante. Todos os bons dicionários a registram, embora a assinalem com o rótulo de “popular” ou “familiar” ― uma forma prudente de alertar o usuário para o fato de que ela pode ser considerado inadequada em registros mais formais, o que está de acordo, a meu ver, com a nossa realidade. Eu, por exemplo, reservo jantar para uma refeição especial, geralmente comemorativa e com mais formalidade: jantar de formatura, jantar dançante, jantar de encerramento. Janta, para mim, designa a nossa refeição usual da noite (às vezes carinhosamente chamada de jantinha), seja na família, seja entre amigos ―  como, aliás, aparece em todos os autores modernos: “Finda a janta, o primeiro arroto real ecoa” (Monteiro Lobato); “A mulher mandará a empregada pôr a janta, e perguntará se ele quer tomar banho” (Rubem Braga); “resto de janta abaianada” (João Cabral de Melo Neto); “A janta posta” (Vinícius de Morais); “Devia ser hora de se comer a janta” (Guimarães Rosa). Diz para tua amiga que, ao usarmos janta, estamos em excelente companhia… E diz para ela, também, que os deuses da gramática há muito estabeleceram uma lei inexorável: quem se mete a corrigir os outros, logo, logo acaba sendo corrigido.