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Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

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ventosa

Aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu.

Ao contrário do que alguns andam apregoando por aí, aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu. Um bom professor deve ser um obsessivo leitor de sinais — as expressões do rosto, as exclamações, as perguntas, tudo vai contribuir para que ele descubra a melhor maneira de ajudar aquele que está ali, à sua frente, à espera desta ajuda. É mais ou menos o que acontece aqui quando me fazem uma pergunta: sem entender exatamente onde reside a dúvida do leitor, é impossível auxiliá-lo — mas, acreditem, isso exige paciência e muita atenção.

De uma pequenina cidade do agreste do Rio Grande do Norte — santa internet! —escreveu uma leitora para pedir notícias sobre o paradeiro de um vocábulo que sua família sempre usou mas que, como verificou com surpresa, não consta no dicionário. “Professor, cresci ouvindo meu pai dizer que a praia de Pirangi era muito ventosa, batida pelos ventos do Atlântico — mas o dicionário que consultei não registra este significado. É um sentido arcaico da palavra, ou não passa mesmo de fala de matuto?”.

É evidente que não levei a informação dela muito a sério, porque a experiência me ensinou que a trágica frase “não consta no dicionário” muitas vezes quer dizer, na verdade, “procurei num dicionariozinho escolar caindo aos pedaços — o único que temos aqui em casa — e não encontrei”. Por isso, com muito tato, tratei de aconselhar à leitora que pesquisasse num dicionário melhor — um Aurélio, um Houaiss, um Aulete —, já que não se trata de regionalismo ou palavra obsoleta, mas, bem ao contrário, de adjetivo usado correntemente, significando “com ventos fortes, com muito vento”. Meu conselho era didaticamente honesto: procura — e encontrarás!

A resposta não se fez esperar: ela costumava consultar nada mais, nada menos que o Houaiss on-line, e podia jurar que lá não havia menção alguma a esta associação com o vento, que tanto ela quanto eu atribuíamos ao vocábulo. “Só pode ser falha deles! Acho que não dá para confiar nesses dicionários da internet; digitei ventosa várias vezes e sempre deu a mesma coisa: fala de tratamento médico, de polvos, de árvores, mas nada sobre o vento”. Bingo! — só então me dei conta de qual era o verdadeiro problema que a afligia, qual era o nó que precisava ser desatado: apesar de escrever com certa desenvoltura, minha leitora não conhecia os rudimentos básicos de uma consulta ao dicionário. Coube a mim explicar-lhe que a palavra que estava procurando era um adjetivo — e que todos os adjetivos vêm sempre registrados no masculino, sobrando para os usuários a tarefa de deduzir o plural e o feminino; que encontramos bonito, mas não bonita, bonitos e bonitas; e que, portanto, se ela digitasse ventoso, finalmente apareceria o adjetivo que buscava, com o sentido de “com muito vento”, mais antigo do que a Sé de Braga. Daí as tardes ventosas, a praia ventosa de Pirangi. Como ela digitava indevidamente o feminino, abria-se o verbete ventosa, agora um substantivo, vocábulo de origem latina que designa aquilo que o polvo tem nos tentáculos e, por semelhança, aquelas campânulas de vidro que se aplicavam nas costas do paciente, consideradas pela medicina antiga como um meio eficaz para tratar diferentes problemas do organismo. Estava solucionada a questão: ela tivera a coragem de perguntar, e eu, felizmente, a coragem de explicar um detalhe que me parecia vergonhosamente óbvio, mas que, como ela mesma confidenciou depois, jamais lhe teria ocorrido espontaneamente.

Outro leitor — sintonizado, aliás, com o atual clima de Páscoa —, veio perguntar se a  expressão “entrou como Pilates no Credo” serve para crítica ou elogio, porque ouviu usarem-na a respeito de um amigo recentemente nomeado para cargo importante numa emissora estatal de televisão. Tenho de ser sincero: é uma crítica, meu caro leitor. Pôncio Pilatos (e não Pilates, que é o método de ginástica…) era o governador romano da Judeia quando Cristo foi crucificado; como seu nome é casualmente mencionado no Credo (do Latim, “creio”), uma das orações mais tradicionais da Igreja Católica, ele acabou se tornando, por isso, o símbolo do sujeito que não tem nada a ver com a situação em que se encontra — aquilo que o povo descreve como “entrar de gaiato”.

Após o Acordo: Judéia > Judeia

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Lendo o dicionário (2)

A leitura de um dicionário com personalidade pode trazer mais divertimento e emoção do que muitos desses romances premiados que hoje chovem por aí, em que nada acontece entre uma capa e outra.


3 — Quando falamos, na coluna anterior, sobre a possibilidade de encontrar prazer e divertimento na leitura de dicionários, usamos como exemplo supremo a obra do famoso Dr. Johnson (1755), cujo estilo pitoresco e impertinente é muito mais vívido que o estilo impessoal exigido pelas técnicas atuais. A meu ver, é uma pena que o humor não seja um critério valorizado por aqueles que se dedicam à lexicografia; entre os dicionários modernos, a exceção mais conhecida é The Chambers Dictionary, que nasceu — seria uma ironia do destino? — exatamente na Escócia, terra que o bom Doutor tanto gostava de criticar. Nele ainda se percebe o dedo do editor, que faz questão de estampar suas opiniões no próprio texto do verbete, como podemos ver em “zapear — alternar rapidamente entre vários canais de televisão, numa vã tentativa de encontrar alguma coisa interessante”, ou “restauração — renovação e reconstrução (algumas vezes, quase a destruição) de um prédio, de uma obra de arte, etc.”.

Se o humor for involuntário, pouco importa; vamos rir da mesma forma. Alexandre Dumas nos conta que certa feita, durante uma das revisões do Dictionnaire de l’Académie Française, o imortal a quem cabia redigir o artigo sobre o camarão pediu a Charles Nodier que opinasse sobre o verbete que tinha escrito: “camarão — pequeno peixe vermelho que anda de marcha a ré”. “Sua definição só tem um problema”, respondeu Nodier, implacável — “é que o camarão não é um peixe, só fica vermelho quando o cozinham e não nada para trás; quanto ao resto, está perfeita”.

4 — Na falta de um Dr. Johnson vernáculo, vamos nos contentar com um passeio pelas páginas dos dicionários de Bluteau (1712) e de Morais (1813, o ano da boa edição) — ambos com consulta livre aqui. O leitor deverá ter notado que todas as obras mencionadas foram escritas antes de 1850, data que poderíamos tomar como o marco inicial da explosão vocabular que acompanhou o desenvolvimento científico e tecnológico da segunda metade do séc. XIX — o que significa que elas praticamente só contêm as palavras de uso geral, não especializado. Como estes dicionários estão livres da imensa quantidade de termos técnicos e científicos que hoje seriam indispensáveis, oferecem a nossos olhos um retrato muito mais nítido  daquilo que poderíamos chamar de “núcleo lexical” do nosso idioma — a essência, o âmago, o cerne mesmo desta grande e frondosa árvore que é a língua portuguesa.

O estilo deles é variado, mas fascinante. Morais alterna entre o grosseiro e o sutil. O verbete para diarréia é tosco: “doença, fluxo do ventre, em que sai dele uma evacuação frequente de matéria clara, áquea, mucosa, glutinosa, com escuma, biliosa ou denegrida dos intestinos”, mas o de encalpelar é quase poético: “levantar, encrespar e fazer dobrar o ápice ou língua da onda sobre si mesma, como sucede andando o mar mui grosso”. Às vezes suas definições saem ao trancos e barrancos: anta – “animal quadrúpede do tamanho de um bezerro de seis meses, com figura de porco, mas a cabeça é maior; tem os olhos pequenos e em lugar do rabo lhe ficam uns cabelos que vêm caindo; nas mãos tem quatro unhas ocas, nos pés três, e um princípio de uma quarta unha”; alce — “espécie de cabra brava, de grandeza cavalar. Grã-besta”. Às vezes, por outro lado, são precisas e valiosas: acolá – “aquela parte, o lugar distante que se aponta, onde não está quem fala, nem a pessoa a quem se fala”. Algumas são surpreendentes: antecuco – “aquele que a mulher enganava antes do casamento”;  caramelo — “a neve congelada; caramelo de açúcar” (Bluteau, no verbete urso, diz: “no Mar Glacial há ursos brancos que andam por cima dos caramelos”).  Outras são de uma crueza comovente: batecu — “golpe que se dá com o assento do corpo, caindo”; Bluteau traz, com restrições, a palavra cu — “inurbano e descomposto sinônimo de assento traseiro e pousadeiro” — e aproveita para incluir cuada — “pancada que se dá com tal parte no chão”; em outro lugar, refere-se ao mesmo monossílabo como “o nome do cano real do microcosmo” — verdadeira obra-prima de ironia e de estilo.

Como sou otimista, imagino que muitos, além de mim, valorizem preciosidades desse tipo — às quais acrescento, volta e meia, a saborosa surpresa de constatar que existem relações há muito esquecidas entre palavras de cujo parentesco eu não suspeitava, apesar da óbvia semelhança — como garra e agarrar (“prender com garra”); andar e andaime (“o espaço por onde se pode andar”); desfile e desfiladeiro (“passo estreito por onde a tropa não pode passar senão marchando à desfilada”, a qual, por sua vez, vem a ser a “disposição dos soldados quando vão em fileiras um após o outro”); pinhão e apinhar (“ajuntar muito muitas coisas, como estão juntos os pinhões das pinhas”) — e assim por diante (as definições são do Morais).

Depois do Acordo: diarréia>diarreia

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Lendo o dicionário (1)

Que livro você levaria para uma ilha deserta? — Muitas vezes, ao longo da vida, respondi a esta clássica pergunta, sempre indeciso entre a “Odisseia”, “Guerra e Paz” ou “As 1001 Noites”. Hoje, sem hesitar, eu escolheria um dicionário.

 

1 — Não existe instituição com maior autoridade na casa de um brasileiro que o Dicionário. Que se discuta a infalibilidade do Papa, que se debatam os textos sagrados (excetuando-se, é claro, as letras de Chico Buarque), que se critiquem artigos da Constituição, vá lá; agora, o maluco que se atrever a contestar o Dicionário será olhado com aquele misto de temor e de piedade com que os crentes olhavam os sacrílegos. Para o homem comum, o que o Dicionário diz é lei; com base nele, solucionam disputas, decidem apostas e ficam sabendo se, afinal de contas, aquela palavra usada pelo ministro existe ou não existe. “Está no dicionário” é a frase que dá a um vocábulo o direito de existir; “não está” condena o pobre vocábulo ao nada, ao não-ser. Para a maioria dos meus compatriotas, o Dicionário é muito mais que um livro cheio de palavras; para eles, na verdade, é o livro que sempre terá a última palavra.

É desse respeito incondicional, aliás, que advém o curioso uso do artigo definido — O Dicionário (as maiúsculas são intencionais…) —, como se existisse apenas um texto único, fundador, difuso, que se corporifica em diferentes formatos e encadernações, assim como o Novo Testamento ou os romances do Machado de Assis. Esse tipo de leitor, naturalmente, olha o dicionarista com reverência: afinal, não é ele o Pai dO Dicionário? Como essa adoração não viceja apenas no Brasil, mas se manifesta em todo o Ocidente, posso aproveitar a ironia de Randolph Quirk, gramático e linguista britânico, quando diz que a maioria dos leitores reverencia o dicionarista como se ele tivesse subido ao Monte Sinai do conhecimento e voltado de lá com as tábuas que contêm as Palavras e o seu Significado, sua Ortografia e sua Pronúncia.

2 — Ora, nossa coluna sempre fez questão de combater essa visão quase mística do fazedor de dicionários. Como já demonstramos aqui várias vezes, ele é gente de carne e osso e está sujeito aos mesmos achaques e mazelas que nós outros — ou melhor, era gente de carne e osso e estava sujeito aos mesmos achaques; a mudança no tempo do verbo se impõe porque agora, no séc. XXI, nenhum dicionário é obra de um homem só. Caldas Aulete, Houaiss, Aurélio, Larousse e Webster não são mais nomes de pessoas reais, mas verdadeiras grifes, por trás das quais operam grandes equipes de lexicógrafos e pesquisadores. Ao se despersonalizar, ao concentrar o esforço de dezenas (às vezes centenas) de especialistas, o dicionário de equipe tornou-se muito melhor e muito mais científico que os antigos e heroicos dicionários de um homem só, como o Dr. Johnson, para o Inglês, Littré para o Francês, Bluteau e Morais para o Português — mas sou obrigado a confessar que leio a obra destes veteranos com um prazer que jamais pude encontrar nos modernos.

Meu atilado leitor terá percebido que eu disse ler, não consultar — o que significa, em outras palavras, que não estou me referindo ao dicionário como mera obra de referência (que é a sua própria razão de existir), mas como obra de leitura. Acho fascinante abrir um dicionário pelo simples prazer de me aventurar, ao acaso, pelas trilhas e alamedas esquecidas de nosso idioma, e se me fizessem a clássica pergunta sobre o livro que levaria para uma ilha deserta, certamente optaria por um bom dicionário, como fez W. H. Auden, um dos mais importantes autores de língua inglesa no séc. XX. As razões que ele dá para sua escolha (no prefácio de The Dyer’s Hand) me parecem irretorquíveis: é um livro que nunca acaba, pois mantém com o leitor uma relação de absoluta docilidade, permitindo que se comece em qualquer página, em qualquer direção, inclusive de trás para frente, em infinitas possibilidades de leitura.

Auden diz “um bom dicionário”, genericamente, mas seus comentaristas são quase unânimes em afirmar que ele tinha em mente a obra do incomparável Dr. Johnson, uma das figuras mais brilhantes da efervescente vida literária da Inglaterra do séc. XVIII. Para consulta, seu Dictionary of the English Language fica muito aquém de qualquer dicionariozinho moderno; para leitura e divertimento, no entanto, ele é um verdadeiro banquete. Como ainda não imperava este discurso objetivo e pretensamente neutro com que os dicionários atuais constroem seus verbetes, Dr. Johnson manifestava livremente suas crenças, suas preferências, seus interesses e suas excentricidades. Seus preconceitos afloram por toda a parte; como não sabe jogar xadrez, define-o como “um jogo sutil e abstruso”; como tem uma velha pendenga contra os escoceses, aproveita para fustigá-los no verbete aveia, que define como “um grão que na Inglaterra se dá aos cavalos, mas na Escócia serve para alimentar o povo” — afirmação que seria impensável nestes dias de politicamente correto. (continua))

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bonitíssimo

Professor Moreno: tenho um primo na Alemanha que está tentando aprender a nossa língua . Ele tem progredido bastante, mas outro dia, num museu, apontou para um quadro e exclamou: “Olhe! É bonitíssimo!”. Eu lhe disse que não era assim que se falava, mas terminei ficando com dúvida. Essa forma está muito errada mesmo? Todos os adjetivos têm um superlativo? Sei que os dicionários comuns (como o famoso Aurélio) só apresentam os superlativos menos óbvios, como boníssimo, mas não trazem belíssimo, por exemplo, que é óbvio demais. Ora, como sei se o superlativo que estou propondo existe? Bonitíssimo não está lá. O que devo concluir? Bonitíssimo não existe, ou existe e é tão básico que nem se dão ao trabalho de publicar umas letrinhas a mais no dicionário só pra tranqüilizar os menos informados?!

Alline C. R. – Campinas (SP)

Minha cara Alline: é claro que existe bonitíssimo. Os dicionários (de qualquer língua, por sinal) costumam deixar fora de suas listas todas aquelas formações que, de tão produtivas, são facilmente deduzidas pelo falante. Assim, em Português, quase não se registram (1) os diminutivos em –inho e –zinho, (2) os superlativos em –íssimo e (3) os advérbios em –mente. Por exemplo, não há necessidade de incluir pobrezinho, pobríssimo e pobremente, três formações automáticas a partir de pobre. É uma economia considerável de três entradas no dicionário — e não apenas de algumas letrinhas! Multiplica isso pelas dezenas de milhares de substantivos e adjetivos, e vais ver que vale a pena!

Agora, uma coisa é certa: há padrões morfológicos que se aplicam a todos os vocábulos que existem e a todos os que virão a existir em nossa língua. Se um dia, hipoteticamente, for criado um adjetivo calurdo, nascerá com ele a possibilidade de formar calurdozinho, calurdíssimo e calurdamente — porque essa é uma potencialidade de todo e qualquer adjetivo. O teu primo apenas aplicou uma regra poderosíssima de formação de superlativo; se nós não gostamos de usar bonitíssimo, haverá muita gente que goste; esta forma está lá, sempre latente, esperando apenas que alguém precise dela para vir à tona, como foi o caso. Teu primo está realmente começando a dominar o nosso idioma. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: tranqüilizar > tranquilizar

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cuidado com o Novo Houaiss!

Se a memória não me trai, a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato, reproduz o famoso ladrilho encontrado sob as cinzas de Pompéia que mostra a figurinha de um cachorro acorrentado, encimada pela frase latina “cave canem” — que, em vernáculo, corresponde ao costumeiro aviso de “cuidado com o cão”. É desse mesmo verbo cavere (“tomar cuidado, acautelar-se”), pai do nosso precaver, que vem o substantivo caveat, que nada mais é do que uma advertência, um aviso, uma recomendação de cautela (para os que perderam o seu Latim, lembro que a pronúncia é /cáveat/). Pois esta coluna, meus amigos, é um caveat quanto à nova edição do Houaiss, motivado por uma valiosa (e acabrunhante) descoberta feita por um perspicaz e persistente leitor.

Todos os que acompanham esta coluna sabem que sou um admirador de primeira hora do dicionário de Antônio Houaiss. Assim que foi lançado, publiquei no Caderno de Cultura um extenso artigo de boas vindas, cujo título já anunciava a minha instantânea conversão ao novo credo: “Sai Aurélio, entra Houaiss “. Na ocasião, não hesitei em proclamar: “…terminei virando o Milênio com o Aurélio, e aurelista cheguei até este mês de setembro de 2001. Agora, contudo, troquei: começa a Era do Houaiss“. Hoje, depois de oito anos de convívio diário, tenho certeza de que minha avaliação não estava distorcida pelo deslumbramento da estreia: no momento, este é, sem dúvida alguma, o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deste e do outro lado do Atlântico.

Ao entrar em vigor o nosso raquítico Acordo Ortográfico, neste ano da graça de 2009, nem passou pela minha cabeça trocar o exemplar que utilizo por um exemplar atualizado pela nova ortografia. Afinal, como sou do ramo, achei que não valia a pena a considerável despesa de quase meio salário-mínimo para adquirir uma edição concebida às pressas, sem o tempo necessário para que o próprio mundo acadêmico entendesse exatamente quais foram as mudanças introduzidas pela Reforma. Decidido, portanto, a postergar essa compra por mais um ou dois anos, não prestei maior atenção aos anúncios de lançamento do novo produto, imaginando que fosse o mesmo dicionário que possuo, acrescido das (pequenas) alterações na acentuação e no uso do hífen.

O amigo aí pensou o mesmo? Pois então fique sabendo que também caiu na esparrela. Quem levantou esta lebre foi Guilherme Braga, tradutor literário, licenciado em Letras pela nossa UFRGS, que, pensando em adquirir o novo dicionário, teve sua atenção despertada pela considerável diferença no tamanho físico das duas edições. O que ele já tinha, que é igual ao meu, vinha com mais de três mil páginas; o novo, com apenas duas mil. Ora, considerando que o dicionário antigo já é um volume de dimensões avantajadas, no limite da manuseabilidade, não parecia plausível que a editora as tivesse expandido ainda mais para acomodar o mesmo conteúdo em dois terços das páginas originais. Com a pulga atrás da orelha, nosso leitor efetuou um excelente trabalho investigativo. Ele próprio explica: “Anotei o intervalo de palavras constante na primeira página de cada letra do meu antigo Houaiss (a primeira página da letra c, por exemplo, vai de c a caapiá-verdadeiro) e o número de entradas contido neste intervalo – no caso da letra C, 57 entradas. Na edição do novo Houaiss, contei as palavras contidas no mesmo intervalo e elaborei uma tabela indicando a defasagem do novo Houaiss em relação ao antigo”. O resultado confirmou sua suspeita inicial: o “novo” dicionário é uma versão reduzida do anterior, “aliviada” da terça parte do conteúdo! Enquanto o dicionário antigo conta com 228 mil verbetes, o novo vem com míseros 146 mil — ou seja, a redução do conteúdo corresponde exatamente à redução de páginas.

Depois de uma troca de correspondências com a editora Objetiva e com Mauro Villar, atual responsável pelo Instituto Houaiss (o artigo, na íntegra, pode – e deve – ser lido aqui), o enredo ficou esclarecido: apesar de levar o mesmo nome –Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa-, são dois produtos diferentes. O antigo, de 2001, é o verdadeiro; o segundo, de 2009, é um dicionário menor, do tamanho do atual Aurélio. O antigo, que agora passa a ser chamado pela editora Objetiva de Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, terá a ortografia atualizada pelo Acordo em data ainda não prevista. É uma pena que só agora, graças ao Guilherme Braga, sejamos avisados dessa embrulhada, pois muita gente comprou a nova edição pensando estar adquirindo a versão completa. Não posso afirmar que a editora tenha agido com fé –  mas com boa eu tenho certeza que não foi.

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Pindorama é feminino?

Olá, Prof. Moreno! No texto sobre Colocação do Pronome o senhor utilizou a palavra Pindorama como substantivo feminino. Procurei no Houaiss e em outros dicionários, também no VOLP, e todos registram o vocábulo como masculino. O interessante é que esse vocábulo também foi usado, certa vez, no feminino pela professora Dad Squarisi, na coluna que ela escreve semanalmente no jornal Diário do Sul. Então só posso concluir que deve haver um motivo ou uma situação especial em que a palavra é usada no feminino. O senhor poderia me ajudar?

Marcelo M. –  São Paulo (SP)

Meu caro Marcelo: confesso que nunca tinha visto Pindorama como masculino. Foi tua mensagem que me alertou para o fato de que o Houaiss e o Aurélio registram esse gênero para o vocábulo – o que, para mim, é absoluta novidade. Para mim, sempre foi “Pindorama, a terra das palmeiras”; eles, ao que parece, pressupõem “país” (aliás, Houaiss registra, espertamente, “país ou região das palmeiras”, mas cita, no próprio verbete, o dicionário de Teodoro Sampaio, que fala em “região ou país das palmeiras”).

O que está em jogo aqui, Marcelo, é saber qual o vocábulo que está elíptico: é “terra”, “região”, “país”? Dependendo do que for, assim será feita a concordância. Existe um Clube Pindorama? Vamos falar “no [clube] Pindorama”. Existe uma cidade Pindorama? Vamos falar “em Pindorama”, pois as cidades não são antecedidas de artigo definido. Existe uma loja de brinquedos Pindorama? Vamos falar “na [loja] Pindorama”. E assim por diante. Como nunca imaginei Pindorama como um país, mas como “terra” (como, aliás, é o seu aposto: “a terra das palmeiras”) sempre usei o feminino. Eu e a maioria, aliás; se pesquisares no Google “NO pindorama”, “NA Pindorama”, “DO Pindorama”, “DA Pindorama”, “NESTE Pindorama”, “NESTA Pindorama”, etc.,  vais perceber que, embora sejam usados ambos os gêneros, a preferência nacional é marcadamente pelo feminino.

Como respeito os dois lexicógrafos cuja obra mencionaste (nota que deixei o VOLP de fora, deliberadamente, porque este não vale um níquel), vou ter de aceitar, também, que se use o masculino, se admitirmos que está subentendido o vocábulo “país” (no Google, há 5.000 ocorrências de “Pindorama, terra das palmeiras” contra 800 de “país das palmeiras”, mas tudo bem; 800 já é um número razoável).

O pior é que, mesmo admitindo que eles enxerguem um “país” onde a maioria enxerga uma “terra”, mesmo assim, atribuir-lhe o gênero masculino continua sendo uma excentricidade morfológica . Já escrevi sobre o gênero dos países: são femininos todos aqueles cujo nome termina em -A, e masculinos todos os outros, mais os que terminam em -A tônico (Canadá, Panamá). Só fogem a essa regra o Quênia e o Cambodja; ao que parece,  Houaiss e Aurélio querem incluir, neste número, a nossa querida Pindorama.

Abraço. Prof. Moreno

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etimologia médica – 2

Muitas palavras que o Português foi buscar no Árabe trazem, em seu início, o artigo definido al, que nossos antepassados ibéricos, na sua inocência lingüística, pensavam fazer parte do próprio corpo do vocábulo. Daí veio a primeira sílaba de álcool, de almanaque ou de Alcorão (no Inglês e no Francês, Koran); assim também nasceu a álgebra, que vem de al-jabr, “a reunião de partes em um só todo”. Seu ingresso no mundo da Matemática se deu com o livro Al-jabr w’al muqabalah, publicado em 825 d.C. pelo matemático árabe Al Khwarizmi (de onde nos veio, também, os vocábulos algarismo e algoritmo). A palavra jabr (“recolocar no lugar”) referia-se metaforicamente à transposição dos termos negativos de um lado da igualdade para o outro: ao se equacionar x-2=12 como x=14, era como se o lado esquerdo tivesse sido “consertado”.

O estimado leitor estará pensando, quiçá, que entrou na sala errada; o cartaz anunciava algo sobre Medicina, mas o filme (ou “a fita”, como diria minha saudosa avozinha) se passa no deserto, num cenário que parece mais adequado para o Homem que Calculava, de Malba Tahan… Pois não se assuste, que continuamos dentro do tema iniciado na coluna anterior. Estamos falando, na verdade, da cirurgia, palavra que nos veio do Grego através do Latim. Pelos elementos que acompõem — kheir (“mão”) e ourgós (de érgon, “trabalho”) —, o vocábulo cirurgia significava, literalmente, “trabalho feito com as mãos”, e se aplicava tanto ao artesão quanto ao cirurgião, o qual, na concepção antiga, não era necessariamente um médico. Este (chamado de iatros – daí o pediatra, o psiquiatra, entre outros) era o que detinha o saber teórico, enquanto o cirurgião, profissional de posição inferior, trabalhava manualmente, curando feridas e fraturas. Como resumiu um autor espanhol, o médico vendia seu saber; o cirurgião, o seu trabalho.

Durante séculos, as práticas cirúrgicas foram executadas pelos barbeiros, que, além de fazer a barba e cortar o cabelo aos clientes, também sabiam suturar ferimentos, fazer sangrias e extrair dentes. O dicionário de Morais (1813) ainda define cirurgia como “a parte da Medicina que ensina a curar feridas, chagas, tumores, deslocações; e as operações de abrir e cortar membros, &tc. do corpo humano” (note-se, de passagem, como se enganam os que consideram o “&” como um símbolo para o etc.; aqui fica claríssimo que ele corresponde apenas ao “e“). Pouco a pouco, porém, o avanço da Medicina tornou impossível essa divisão de tarefas, tornando-se impensável, como sabemos, um cirurgião que não tenha a formação médica completa.

Voltamos, assim, à nossa álgebra. Quando os árabes levaram o vocábulo al-jabr para a Península, seu significado também abrangia a arte de reunir ossos quebrados ou deslocados. Bluteau, em seu famoso dicionário, define álgebra como “reparação ou conserto de ossos quebrados ou deslocados”, e algebrista como “o que exerce a arte de consertar ou restituir a seu lugar ossos deslocados ou quebrados”. Assim aparece no Quixote, no Espanhol, e na Carta de Guia dos Casados, de Francisco Manuel de Melo. Nos dois países era comum estabelecimentos de barbeiro ostentarem letreiros anunciando “algebrista e sangrador“, depois substituídos simplesmente por “cirugião“.

Sempre que menciono o nome de Bluteau, algum leitor me escreve invejando o fato de eu ter à mão um exemplar do famosíssimo Vocabulário Português e Latino, mais difícil de encontrar do que cabeça de bacalhau; publicada em edição única, em dez volumes, no início do séc. XVIII, esta obra vale hoje uma pequena fortuna no mercado de bibliófilos, sem dúvida. No entanto, fiquem sabendo os interessados que já raiou a liberdade no horizonte do Brasil: por uma elogiável iniciativa de José Mindlim e da USP, o Vocabulário agora está à disposição de todos nós AQUI), lado a lado com o Dicionário da Medicina Popular, do famoso Chernoviz — e, o que é melhor ainda, dotado de um sistema de busca que reconhece tanto a grafia original quanto a moderna (podemos chegar a paranympho digitando simplesmente paraninfo). Nós, os  apaixonados pelas palavras — entre os quais faço questão de incluir o doutor Nelson Porto, médico com alma de filólogo, com quem costumo trocar um dedo de prosa sobre dicionários e etimologias —, ganhamos assim, graças à internet, o acesso a um mundo que só conhecíamos de ouvir falar.

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o dicionário analógico

1 — Enquanto meus amigos trocavam reminiscências sobre o futebol gaúcho da nossa infância, eu atiçava, distraído, o fogo da churrasqueira, esperando que a lenha se transformasse em brasa bem viva. Embora eu goste deste esporte, sinto um tédio mortal sempre que a conversa descamba para o terreno da tática e vira uma acalorada discussão sobre o aproveitamento de jogadores e esquemas alternativos. No fundo, aprecio um bom jogo assim como aprecio um bom livro, mas não tenho paciência para ficar ouvindo teses sobre um ou sobre o outro.

Desta vez, no entanto, acabou sobrando para mim: o tema eram os fardamentos de nossos clubes, com suas cores designadas por termos tradicionais da heráldica, como o alvinegro, o auricerúleo, o rubro-negro, e alguém lembrou o Grêmio Bagé, cujas cores — o amarelo e o preto — eram descritas também por um desses compostos de sabor parnasiano que ninguém ali da roda conseguia recordar. Perguntaram se eu conhecia; confessei que nunca tinha ouvido falar nisso, mas que, desde que ficassem cuidando o fogo, eu iria olhar no dicionário e logo os ajudaria a encontrar a resposta. Levei uma vaia. Como é que eu iria catar no dicionário uma palavra que eu nunca tinha visto ou ouvido? Em que letra eu ia começar a pesquisa? Como ia descobrir, dentre as duas mil e poucas páginas do Houaiss, aquela em que a desejada palavra se escondia? Pois é muito simples — para quem conhece o caminho. Este é o meu assunto de hoje.

Como qualquer bípede falante, eu tenho dois tipos de vocabulário: o ativo, que é composto pelas palavras que efetivamente consigo mobilizar na hora de falar ou escrever, e o passivo, muito mais extenso, que reúne também aquelas palavras que sou capaz de reconhecer quando as vejo empregadas por alguém. A passagem do passivo para o ativo é um processo de amadurecimento que inicia quando encontro uma palavra desconhecida. Na primeira vez não lhe dou muita atenção, mas encontros sucessivos começam a torná-la familiar; com o tempo, eu passo a reconhecê-la sempre que a vejo e já a saúdo com desenvoltura: ela acaba de entrar no meu vocabulário passivo e, dependendo da freqüência com que nos virmos, um dia vou me lembrar dela na hora em que estiver compondo uma frase — e pronto! Ela terá se tornado ativa.

Ora, enquanto uma palavra não migrar do estoque passivo para o ativo, ela pode provocar a mesma situação aflitiva em que se encontravam os meus parceiros de churrasco: eles sabiam que existia um termo exato para o que desejavam expressar, mas não conseguiam recuperá-lo na memória — o que tornava inútil, portanto, um dicionário comum, organizado em ordem alfabética. Como recuperar a palavra que fugiu? O processo de busca é o mesmo que usamos para telefones. Imagine, caro leitor, que você sofre de má-digestão e um amigo mencionou um especialista de mão-cheia, anotando o telefone do consultório num papelzinho — o qual, como era de esperar, você perdeu logo em seguida. Como o catálogo telefônico é inútil, já que você não lembra o nome do médico, a solução é recorrer às páginas amarelas, em que os profissionais estão agrupados por afinidade. Você vai na seção “Médicos” e ali localiza, reunidos numa lista, os  gastroenterologistas. Pronto! Basta examinar rapidamente os cinqüenta nomes ali relacionados, e você vai encontrar — e reconhecer — o nome que tinha perdido.

No caso das palavras, quem faz as vezes das páginas amarelas é o dicionário analógico (ou ideológico). Nele, os vocábulos não estão relacionados em ordem alfabética, mas sim agrupados de acordo com o seu significado, seguindo uma classificação sugerida por Peter Roget, um cientista inglês do séc. XIX que fez para a linguagem o que Lineu fez para a Botânica: dividiu a realidade em várias categorias hierarquizadas e por elas distribuiu as palavras por afinidade. Em cada seção vêm registrados todos os vocábulos referentes ao mesmo campo semântico, agrupados por classes gramaticais (substantivos, adjetivos, verbos, advérbios). Uma vez localizada a categoria que nos interessa, basta ler a lista — como nas páginas amarelas — e vamos reconhecer a palavra perseguida. Foi fácil solucionar o caso do fardamento do Grêmio Bagé: abri o dicionário analógico na grande categoria das cores e fui direto à seção do amarelo. Como eu não conhecia a palavra, comecei a ler em voz alta todos os itens da relação até que — bingo! — todos saltaram quando cheguei a jalde (que, como averigüei mais tarde, é o esquisito nome que a heráldica usa para amarelo). Era a resposta: o Grêmio Bagé era tratado na crônica desportiva como “o jalde-negro” (cruzes!). Não preciso dizer que meu dicionário imediatamente se tornou o objeto da curiosidade (e da inveja) dos meus amigos, que queriam saber mais sobre ele. O resto eu conto depois.

2 — Na coluna anterior, mostrei como funciona um dicionário analógico, utilíssima ferramenta que tem uma estrutura semelhante à das páginas amarelas da lista telefônica e nos permite recuperar aquele vocábulo preciso que costumamos esquecer bem na hora em que precisamos dele. Conhecendo o gosto e o interesse que meus leitores têm pelas palavras, tinha certeza de que não estava pregando aos peixes — e, com efeito, não foram poucos os que escreveram para perguntar onde poderiam adquirir esta novidade.

Fico constrangido em dizer que esta “novidade” já era conhecida na Antiguidade, quando Júlio Pólux, um estudioso de Alexandria, organizou, por volta de 180 D.C, o seu Onomasticon, um dicionário de palavras e expressões agrupadas por assunto. Na Idade Média e no Renascimento houve várias imitações sem maior importância, até que, em 1852, Peter Mark Roget, médico britânico, lançou o seu Tesouro de Palavras e Frases Inglesas, classificadas e distribuídas de modo a facilitar a Expressão das Idéias e auxiliar a Composição Literária, conhecido até hoje, no mundo anglo-saxão, pela primeira palavra de seu extenso título (em Inglês, Thesaurus). No prefácio à sua obra, que se tornou o modelo dos dicionários analógicos modernos, o bom doutor descreve com grande acuidade a frustração que sentimos quando, apesar de todo nosso esforço, a palavra que queríamos não atende ao nosso apelo: “Como os espíritos da vasta profundeza, ela não vem quando chamamos, e somos obrigados a empregar palavra ou expressão que ou é genérica demais, ou limitada demais, ou exagerada, ou insuficiente, ou que não se adapta à ocasião e que não acerta no alvo que tínhamos em mente” — a mesma situação que Mark Twain, sempre irreverente, comparou à decepção de um apaixonado que, em vez de se encontrar com sua amada, tem de se contentar com a prima dela.

Quase um século atrás, em 1936, a nossa Editora Globo publicou o primeiro dicionário deste tipo em Português, o Dicionário Analógico; tesouro de vocábulos e frases da língua portuguesa, do padre Carlos Spitzer, alemão que veio para o Brasil ainda menino; na década de 50 saiu uma segunda edição, com várias tiragens, mas a obra, claramente inspirada pelo dicionário de Roget (até no título), acabou vendida ao desbarato nos caixotes da Feira do Livro de Porto Alegre. Em 1946 saiu em Portugal o Dicionário Analógico de Artur Bivar, que eu consultava, quando podia, na Biblioteca Central da UFRGS, mas que agora, depois de quinze anos de persistência, finalmente localizei num sebo de Minas Gerais. Mais recente e mais fácil de encontrar — e também mais completo — é o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, do professor goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, editado na década de 70 pela Editora Coordenada, de Brasília, com um número desconhecido de tiragens posteriores. Durante muito tempo este dicionário esteve esgotado, e quem tinha a felicidade de possuir um exemplar guardava-o como um tesouro (“não empresto, não troco e não vendo por nada”). Felizmente para todos, Carlos Augusto Lacerda, à frente da editora Lexikon, lançou em 2010 uma edição novinha em folha deste dicionário, que deve fazer parte da estante básica de referência de qualquer brasileiro que conviva com as palavras.

Na semana passada, tive novamente de recorrer a eles a fim de recuperar um vocábulo que me tinha escapado. Numa brincadeira com um amigo, imaginei uma cerimônia em que ele leria solenemente um conhecido (e péssimo) poema gauchesco, enquanto um pequeno coral cantaria em surdina o Hino Rio-Grandense sem pronunciar as palavras da letra, isto é, apenas entoando a melodia com os lábios cerrados. Embora não seja um especialista no canto lírico, como o professor Luiz Osvaldo Leite, meu prezado amigo, eu sabia que existe um termo específico que descreve este tipo de execução — mas quem disse que eu conseguia lembrar? Não hesitei em baixar da estante os três analógicos, sabendo que palavra alguma resistiria a tamanha artilharia combinada. Não deu outra! Enfiado entre monodiar, cantarolar, trautear, cantar a capella, modular, vocalizar, gargantear, gorjear, cantarinhar e cantorejar, lá estava o que eu buscava: cantar a boca chiusa, que os dicionários usuais definem como “cantar com a boca fechada, transferindo a ressonância para a região nasal”. Feliz com mais essa pequena vitória sobre o esquecimento, repus carinhosamente na estante os meus três fiéis mosqueteiros. Sou obrigado a reconhecer que, para mim, essa sensação de finalmente atinar com a palavra há tempos perdida — um misto de orgulho e alívio — é um dos maiores prazeres que encontro no meu trato contínuo com o dicionário.

[O PRAZER DAS PALAVRAS – colunas publicadas no jornal ZH em agosto de 2008]

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locução x vocábulo composto

locução x vocábulo composto

Caro Professor, há diferença entre locução substantiva e substantivo composto? Em caso afirmativo, poderia o Professor me esclarecer qual é essa diferença? Um grande abraço!

Paulo Sérgio A. — Rio de Janeiro

Meu caro Paulo, este sempre foi (e sempre será) o grande problema do uso do hífen em nosso idioma: saber quando uma locução passa a ser um substantivo composto. Em que momento saímos da Sintaxe (vários vocábulos) e entramos na Morfologia (um só vocábulo)? Por que papel almaço e papel da Índia são locuções, e papel-bíblia é um substantivo composto? Por que alguns (Aurélio, por exemplo) consideram pôr-do-sol um substantivo, enquanto Houaiss classifica como uma simples locução (pôr do sol)? Apesar de existirem vários “palpites” sobre como se poderia fazer esta diferenciação, acho que nunca poderemos chegar a uma resposta definitiva — não por deficiência de nossas teorias ou incompetência de nossos estudiosos, mas exatamente pela natureza difusa do problema.

Embora não seja especificamente sobre este assunto, minha tese de doutorado trata desta progressiva lexicalização de estruturas sintáticas (em outras palavras, da passagem da Sintaxe para o Léxico), um processo usual no Português em que a frase ou locução X passa a ser o vocábulo composto Y). Examinando os dados, a conclusão obrigatória é que não existe um limite definido para essa passagem. Em vez de uma alteração definitiva, pontual, em que X se transforma em Y (assim como, num dado momento, a lagarta vira borboleta), o que temos é uma transformação tipo “O Médico e o Monstro”, em que o novo ser é, ao mesmo tempo, médico e monstro, se bem entendes a metáfora.

Nota que a presença do hífen, aqui, é o que serve para distinguir aquilo que consideramos locução daquilo que consideramos vocábulo. Há gramáticos que vêem em ponto e vírgula uma locução (daí não usarem o hífen); Aurélio e Houaiss, por sua vez, consideram-no um vocábulo e, ipso facto, escrevem ponto-e-vírgula (como podes ver, é uma repetição do pôr-do-sol/por do sol do primeiro parágrafo).

É exatamente por isso que ninguém entendeu essa orientação esdrúxula do VOLP de eliminar o hífen de vocábulos compostos que tenham preposição ou conjunção entre os elementos. Foi uma interpretação equivocada do texto do Acordo, e tenho certeza de que a ABL acabará voltando atrás, para não se cobrir de ridículo. Portugal entendeu corretamente o que foi disposto e manteve os hifens em vocábulos como pé-de-moleque, maria-vai-com-as-outras, mula-sem-cabeça, dia-a-dia, pé-de-cabra, etc. Abraço. Prof. Moreno

pão-de-ló e dia-a-dia

Caro professor, desculpe-me incomodá-lo mais uma vez, porém, uma dúvida veio à baila e gostaria, se possível, que o senhor me esclarecesse. Há alguns dias, ouvi num programa de rádio que o hífen havia sido abolido em todas as palavras compostas ligadas por preposição (ex.: fora-da-lei, à-toa, pão-de-ló, dia-a-dia, etc.). Pois bem, ontem mesmo, vi numa edição atualizada do Aurélio (apregoando estar de acordo com o Acordo Ortográfico) a palavra pão-de-ló com hífen (como sempre escrevemos). Bem, o que de fato é verdade? Grato mais uma vez.

Valdecir T. — São José dos Campos (SP)

Meu prezado Valdecir: tua pergunta toca no ponto mais controvertido do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, (o famoso VOLP), recentemente publicado por nossa Academia de Letras. Interpretando equivocadamente o texto do Acordo, a comissão brasileira decidiu, sem tir-te nem guar-te, eliminar o hífen de qualquer composto que tenha preposição ou conjunção unindo os seus elementos — exatamente como pão-de-ló ou dia-a-dia, como vocês perguntaram.

Ora, mesmo que aqui o texto do Acordo não tenha uma redação muito feliz (como todo o resto, aliás), fica bem claro, numa leitura mais cuidadosa, que o princípio geral é usar o hífen apenas nos vocábulos compostos, distinguindo-os das meras locuções. Afinal, essa sempre foi a utilidade deste sinal: distinguir uma mesa redonda (quadrada, oval, etc) de uma mesa-redonda (reunião para discutir um tema ou fazer uma deliberação), ou seja, distinguir uma locução formada por duas palavras independentes (mesa redonda) de um vocábulo composto (mesa-redonda).

Pois nossas sumidades resolveram manter este hífen apenas quando o vocábulo é composto de dois elementos (pombo-correio, couve-flor, água-furtada); quando tem mais de dois, a comissão, numa atitude inexplicável e completamente equivocada, decidiu suprimi-lo. Dessa forma, se fôssemos levar a sério esta sandice, substantivos compostos como pé-de-moleque, fora-da-lei, mula-sem-cabeça passariam a ser escritos pé de moleque, fora da lei, mula sem cabeça! Teríamos, pela primeira vez na História, substantivos com espaços em branco entre os seus elementos! Um vocábulo com espaços entre seus componentes? Isso não existe. A diferença entre vocábulo e locução deve ser assinalada por hífen, não importa o número de componentes que o composto venha a ter. Ele vive fora da lei: é uma locução formada de três vocábulos. O xerife prendeu os fora-da-lei: é um vocábulo composto.

Infelizmente, a nova edição do Vocabulário Ortográfico traz todos esses vocábulos sem o hífen, mas, curiosamente, classificados ora como substantivo, ora como adjetivo. Ao lado de maria vai com as outras, tiveram a coragem de registrar “s.f.“. Substantivo feminino? Mas isso é uma frase completa, com sujeito, verbo e tudo mais! Sem o hífen, fica completamente impreciso o limite entre a morfologia e a sintaxe.

Não preciso dizer que este escandaloso equívoco, que torna o VOLP totalmente imprestável, é a interpretação brasileira; os portugueses, com mais prudência, ainda não prepararam o seu VOLP, mas todos os especialistas que comentam o Acordo são unânimes em conservar o hífen de pé-de-moleque, pé-de-valsa, pão-de-ló, deus-nos-acuda, bumba-meu-boi e tantos outros. É assim que todos nós também devemos escrever. A Academia foi contra? Pior para ela, que vai se cobrir de vergonha por ter chancelado uma publicação tão irresponsável como esta. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui

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