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Ouvidos e orelhas


No mundo das palavras, certas distinções que o vocabulário científico faz questão de manter muitas vezes não valem um prego aqui embaixo, na planície em que vivemos — e vice-versa.


Uma leitora que presumo muito jovem  — o e-mail veio todo enfeitado de carinhas amarelas que piscam o olho freneticamente para mim — escreve para saber se “algo” que ela ouviu de “certa” pessoa “está valendo”. O estilo é peculiar, a precisão é incomparável: “Professor: ouvido e orelha. Uma pessoa muito sábia disse que uma dessas palavras havia sido extinta de nosso idioma; a pessoa, no caso, não lembrava exatamente qual das duas. Procurei muito no Google e não achei nada sobre o fato — se é que é fato — o senhor me entende?”.

Entendo, sim, e muito bem. “Uma pessoa muito sábia”? Posso imaginar! Deve ser realmente muito sabida uma criatura que faz tão absurda afirmativa — uma palavra que se extingue, vejam só! — e que, para remate da ópera, esquece de qual dos dois termos está falando. Palpiteiro e, ainda por cima, desmemoriado? Vade retro! Mas vejo que a tua intuição, prezada leitora, levantou uma peninha de desconfiança providencial, que te levou ao Google e, finalmente, a esta coluna. Para começar, não existem palavras extinguíveis; depois que elas nascem, nada as faz morrer, e o máximo que pode acontecer com elas é entrar em hibernação. Vamos continuar a usá-las — tanto orelha quanto ouvido — enquanto nosso idioma for falado em nosso planeta.

Outra coisa é o emprego desses vocábulos na linguagem técnica ou científica. O fenômeno ocorre em todas as áreas profissionais, que precisam definir — para os profissionais que fazem parte daquele ramo — o significado que deve ser atribuído a cada termo empregado. No mundo jurídico, por exemplo, roubo e furto são coisas distintas porque o primeiro pressupõe a presença da vítima, que é intimidada ou forçada a entregar o bem, enquanto o segundo é executado furtivamente pelo ladrão (apesar de lugar comum, confesso que ainda acho certa graça no eufemismo “amigo do alheio”), que vai praticar o seu crime sem que a vítima tome conhecimento. Para mim e para ti, para o mundo real, no entanto, essa distinção não vale um prego; se levaram meu carro — seja durante minha ausência, seja com ameaça ou violência contra mim, vou dizer para todo o mundo que meu carro foi roubado.

Os médicos, por sua vez, seguem, em suas comunicações, a Nomina Anatomica (é Latim, e por isso não leva acento; a pronúncia é /nômina anatômica), lista periodicamente revisada de todos os nomes relativos ao corpo humano — músculos, órgãos, tendões, ossos e tudo o mais que compõe nossa perecível carcaça. Atualmente esta publicação começa a ser substituída pela Terminologia Anatomica (também Latim, também sem acento; há os que se opõem a esta troca de nome, mas isso é assunto interno que cabe às academias médicas decidir), e ali — ao menos no Brasil — há uma tendência de substituir o termo ouvido por orelha, passando o antigo “ouvido interno”, por exemplo,  a ser chamado de “orelha interna”. Posso imaginar o espanto com que um leigo há de ouvir essa expressão… Como podes ver, a Medicina não extinguiu o termo ouvido, o que seria impossível, mas apenas passou a recomendar (repito: no Brasil, mas não em Portugal) que se adotasse preferencialmente orelha.

Não me interessa saber por que fizeram isso, pois devem ter lá razões técnicas suficientes, mas asseguro-te que essa alteração em nada vai influir em nossas vidas, prezada leitora. Eu e tu ainda continuaremos a distinguir uma “dor no ouvido” de uma “dor na orelha”; se alguém vier nos fazer uma confidência, vamos dizer “sou todo ouvidos” (e nunca “sou todo orelhas”); quem não se importar com o que os outros dizem continuará a fazer “ouvidos de mercador” (e não “orelhas de mercador”); se meu filho tiver dom para a música, vou afirmar que ele tem “um bom ouvido” (e não “uma boa orelha”) — e assim por diante.

Isso é exatamente o que acontece com os vocábulos ave e pássaro. Para mim, o condor é um grande pássaro que vive nas alturas geladas dos Andes, gigantesco como o pássaroroca das 1001 Noites; para os biólogos, contudo, o condor pode ser uma ave, mas não é pássaro coisa nenhuma — assim como também não o são o papagaio, a garça, o tucano, o beija-flor, a ema, o gavião e a rolinha. Para mim e para os leigos, pássaro é o que voa; se for pequeno, é passarinho. Na linguagem técnica do Português, todo pássaro é ave, mas nem toda a ave é pássaro diferente do Francês ou do Inglês, em que oiseau e bird, respectivamente, se aplicam a qualquer espécie de vertebrado plumado.

[Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH de 27/8/2011]

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Literalmente

O advérbio LITERALMENTE foi atacado pelo mesmo vírus da imprecisão que tornou  TEMPORÃO e HANDICAP  palavras praticamente inúteis.

Em qualquer língua viva podemos encontrar centenas de exemplos de vocábulos que mudaram de significado com o passar do tempo, ampliando ou reduzindo o alcance que tinham na sua origem. Outrora as chaminés fumavam e os índios podiam fumar seu peixe; no entanto, depois que Colombo descobriu a América, fumar passou a designar especificamente o hábito daninho de aspirar a fumaça do tabaco (uma invenção do demo, sem dúvida, mas compensada amplamente pela introdução do chocolate no Ocidente, alimento que os astecas, com muita propriedade, consideravam divino). Para compensar essa restrição de sentido que o verbo sofreu, as chaminés começaram a fumegar e os índios passaram a defumar o pescado — e ninguém saiu perdendo.

Às vezes essa mudança é tão radical que a palavra passa a designar exatamente o contrário do que originalmente significava. Um exemplo já mencionado aqui é temporão, que mereceu uma coluna inteirinha (publicada no vol. 2 de O Prazer das Palavras, na coleção L&PM Pocket). A palavra deriva do Latim temporaneus, que significava “na hora certa”, ou “antes da hora”, falando das chuvas ou dos produtos agrícolas. Em nosso idioma, designava as espécies agrícolas que amadurecem mais cedo que o habitual. Na Bíblia, na tradução clássica de Joaquim Ferreira de Almeida, há um exemplo oportuníssimo: “Temamos, agora, ao Senhor, nosso Deus, que dá chuva, a temporã e a tardia, a seu tempo”. Não é por acaso que o Espanhol, nossa língua irmã, extraiu da matriz latina o advérbio temprano (“cedo”), muito conhecido dos gaúchos que vivem na fronteira com os países do Prata.

Ora, submetido à química misteriosa da evolução lingüística, temporão teve sua abrangência estendida para incluir qualquer evento fora do tempo, sem levar em conta a distinção, outrora importante, entre o antes e o depois. Em conseqüência, os contornos semânticos da palavra ficaram tão imprecisos que sua utilidade ficou seriamente comprometida, pois hoje ela abrange significados diametralmente opostos: uns chamam de temporão o filho prematuro, enquanto outros reservam o termo para designar o rebento que nasce quando o casal há muito deixou de pensar sobre o tema. Para mim, o termo ficou inútil, pois não é possível empregá-lo sem esclarecer, em seguida, qual é o sentido que eu dou a ele.

Esse mesmo fenômeno de erosão vem ocorrendo com literalmente. Fiel à sua origem latina (littera é “letra”), literalmente significa “ao pé da letra, no rigor da letra”. É um advérbio valioso para avisar meu interlocutor que vou empregar determinado vocábulo ou expressão no seu sentido estrito, não no sentido figurado. Numa frase como “A chegada da seleção literalmente parou o trânsito na cidade”, ele serve para indicar que “parou o trânsito” aqui não tem o sentido metafórico que habitualmente atribuímos à expressão (como em “uma morena de parar o trânsito”), mas que o trânsito realmente ficou interrompido. Quando Raul Pompéia diz, em O Ateneu, que os meninos foram arrastados ao gabinete do diretor Aristarco, “onde deviam ser literalmente seviciados”, está nos avisando que o castigo vai ser brutal, mesmo, e que não se trata, aqui, de uma hipérbole (a famosa figura de exagero, do tipo “estou morrendo de calor”, “fui devorado pelos mosquitos”, etc.). Quando usado junto com figurativamente, o contraste deixa ainda mais nítido o seu significado: “João Gilberto nunca se importou de ficar horas no seu canto (literal e figurativamente), repassando as mesmas notas no seu violão”; “Quem desempenha um cargo tão importante sempre terá quem lhe abra portas (literal ou figurativamente)”; “Eu não compro um iPad porque não cabe, literal e figurativamente, no meu bolso”.

Então, um belo dia, como na antiga parlenda, deu tangolomango neste advérbio e ele começou a inverter seu sinal, servindo de reforço, e não de advertência, para figuras de exagero! “Estou com tanta fome que seria capaz de comer um boi, literalmente“; “Ela estava literalmente morta de cansaço e preferiu ficar no hotel”. Aqui o vocábulo deixa de ser um sinal de que as palavras estão sendo usadas no sentido real e passa a indicar exatamente o contrário do que fazia: “Estou com tanta fome que seria capaz de comer um boi, figurativamente“. Se alguém me diz que sua cabeça está “literalmente explodindo”, é tamanho o exagero que fica fácil perceber com que intenção foi empregado o advérbio; no entanto, o mesmo não acontece se me dizem que “o estádio estava literalmente lotado”, pois não posso determinar se é para valer ou se é apenas uma forma de dizer. Lamento que isso esteja acontecendo, pois acho que a língua empobrece um pouco sempre que se apaga uma distinção como essa. Infelizmente não há nada que possamos fazer; o fruto já está envenenado e logo, logo ficará imprestável.

Depois do Acordo:

conseqüência > consequência
lingüística > linguística
Pompéia > Pompéia

[Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – Jornal Zero Hora – 12/03/2011]

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fim ou final?

Um leitor chamado Michelângelo confessou que achava estranho dizermos “final de semana”, “final do jogo” e todos esses outros finais que andam por aí. No seu modo de ver, o correto seria empregar fim, que é um substantivo, e não final, que é um adjetivo. Seu argumento era simples: “Se final de semana é correto, também seria correto inicial de semana — o senhor não acha?”. Respondi que não, que não achava, pois, como consta em qualquer bom dicionário, final também pode ser substantivo, com o sentido de “última parte, conclusão, remate” — sendo, portanto, um sinônimo para fim, amplamente usado por todas as pessoas que falam e escrevem bem o Português — “cheguei ao final do livro”, “o filme teve um final feliz”, e assim por diante.

Na volta do correio, o leitor apresentou suas fontes: o Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo, escrito por Eduardo Martins, e A Imprensa e o Caos na Ortografia, de Marcos Costa. Ambos compartilham a mesma ojeriza ao nosso “final de jogo”, “final do século” ou “final do baile”. O segundo (que, além de jornalista, tem lá o seu curso de Letras) é mais saidinho e faz um arrazoado que, à primeira vista, até poderia passar por douto. Depois de apresentar um latinzinho inicial, para impressionar o leigo, aceita o fato de que final pode ser usado como substantivo,mas será sempre o adjetivo substantivado, carregará sempre esse ranço. Quem usa final como substantivo parece que gosta precisamente do ranço, como há quem goste de caça faisandé. A imprensa, entretanto, deve evitá-lo. O normal é que no fim (substantivo) da missa o padre dê a bênção final (adjetivo)… Quando está no minuto final (adjetivo), o jogo está chegando ao fim (substantivo). Esse é o emprego natural, despojado, distante de ostentações. Comunicar-se é simplificar”.

Que reparo podemos fazer ao que ele disse? Primeiro, o tom categórico, próprio dos manuais destinados à circulação interna. Afinal, é para isso que existem: homogeneizar o texto de uma publicação, padronizando as escolhas estilísticas e antecipando as dúvidas que poderão atrapalhar os repórteres e jornalistas. Um manual desses representa a soma da experiência acumulada pelos profissionais da empresa — mas seu caráter normativo não tem nenhum valor aqui fora. O Estadão define como quer que sua equipe escreva, a Folha de São Paulo faz o mesmo, a Zero Hora também, cada um segundo as suas preferências. Marcos Costa tem todo o direito de especificar que, em seu jornal, sempre vão preferir fim a final — mas essa decisão não representa nada para quem estuda a língua portuguesa, pois na mesma cidade, em outra esquina, o editor de outro jornal pode pensar de outra forma.

Em segundo lugar, esse autor não tem a leitura necessária para falar de modo tão taxativo. Quem disse que usar final como substantivo é ranço? Quem decretou que o correto é empregar fim? Certamente não foram os bons autores. Em Portugal, Camilo Castelo Branco, um de meus preferidos, discorda: “No final de cada ato, saía a visitar uma amiga”; “No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra”. Eça de Queirós parece não saber disso: “o realejo do bairro … veio tocar o final da Traviata“; “quando Ernestinho contara o final do seu drama”; “Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas”. Os leitores pós-modernos poderiam objetar que cito autores de outro século; pois não seja por isso: Saramago comparece com “eu podia ter posto no final da sua frase” e “A noite está quente neste final de Agosto”. A seu lado, Lobo Antunes completa: “no final de cada exame”. Todos rançosos?

No Brasil, Euclides da Cunha oferece um balaio de exemplos: “triunfam num final de luta”; “O narrador destes dias chega no final de um drama”; “no final de um dia inteiro de fadigas”. E Machado? Xiii, nosso gênio não leu esses manuais de redação: “O meu sonho foi quase assim, ao menos no final“; “A quem quer que este final de monólogo pareça egoísta”; “Já é alguma cousa neste final de século”. Bilac, então, apenas verseja: “E, fatigado de calar teu nome/ Quase o revelo no final de um verso”. Querem modernos? Clarice Lispector: “um prenúncio do que ia acontecer no final da tarde”. Guimarães Rosa: “Mas, no final dos comentários, infalível era a harmonia”; “No final do feijoal, a variante se bifurca”; “como o vento ronda, no final das águas”. Nelson Rodrigues: “E, no final, tive a vaia e tive a apoteose”; “Gostou de uma menina e, no final da tarde, os dois passeavam”;  “Neste final de século, a Imaturidade é a musa perfeita, sereníssima, universal”. Encerro, simbolicamente, com Drummond: “E por que o nome dela não pode sair no final de uma notícia que nem sequer a elogia?”. Acho que chega. Dá para perguntar, como a gente fazia, no colégio, nas lutas de brinquedo: “E aí? Vocês se rendem?”. Procurem ser mais tolerantes com o uso que as outras pessoas fazem do idioma; para uma mesma situação pode haver mais de uma escolha. Afinal, escrever bem é eleger, entre várias formas corretas, a que soa melhor para o contexto. Só isso.

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polissemia e homonímia

O que distingue polissemia de homonímia? Tenho procurado em diferentes sítios, mas não parece haver uma distinção nítida entre o que é uma e o que é a outra.

Cláudia Pinto — Lisboa

Minha prezada Cláudia: os dois conceitos são bem distintos; contudo, quem nem sempre colabora docilmente é o material a que eles se aplicam— as palavras, as infinitas e misteriosas palavras. Pensa no vocábulo manga: existe alguma relação entre a fruta e a manga da camisa? Ou seja, trata-se de um só vocábulo com dois sentidos, ou são dois vocábulos diferentes com a mesma forma? Quando um vocábulo possui mais de um significado, chamamos isso de polissemia. Quando dois vocábulos diferentes, de origens e significados diversos, terminam convergindo para a mesma configuração fonológica e ortográfica, chamamos de homonímia.

Um bom exemplo de vocábulo polissêmico (do Grego poli, “muitos”, e sema, “significado”) é LETRA, que tem no mínimo três significados bem conhecidos: (1) um dos sinais gráficos do alfabeto; (2) o texto de uma canção; (3) um título de crédito. Para a maioria dos falantes não parece difícil ligar entre si esses três significados, já que todos eles estão relacionados pela idéia de escrita.

Quando, no entanto, não conseguimos estabelecer uma relação satisfatória entre os significados — como no caso da MANGA —, há forte probabilidade de que estejamos diante de um par de vocábulos homônimos. Uma rápida investigação no dicionário confirma nossa intuição: a fruta vem do Malaio manga, enquanto a parte da vestimenta vem do Latim manica.

Um bom dicionário deveria tentar distinguir os casos de homonímia dos casos de polissemia: manga mereceria dois verbetes diferentes, enquanto os vários significados de letra seriam relacionados no corpo do mesmo verbete. No entanto, como nem sempre é fácil decidir se estamos diante de um ou de outro caso (pensem nos cravos da florista, no cravo que faz par com a canela no doce, nos cravos que pregaram Cristo na cruz, na música de cravo de Bach e de Scarlatti e nos cravos da pele — como classificar?), a maioria dos dicionaristas limita-se a relacionar e definir cada um dos significados: cravo (1) flor…; (2) prego…; (3) instrumento… — e assim por diante, porque eles sabem que essa informação basta para o usuário comum.

Lamento que seja essa a prática mais difundida nos dicionários nacionais, pois ela termina favorecendo a falsa ligação entre termos de origens distintas e deixando solta a criatividade do leitor para imaginar famílias etimológicas sem fundamento algum, como vem acontecendo, por exemplo, com coito e coitado (vê o que escrevi no artigo Atravessando o Canal da Manga). Nota que a tarefa não é das mais árduas: enquanto a polissemia está presente em quase todos os verbetes (os lexicógrafos dizem que vocábulos que só têm um significado são raríssimos, geralmente referindo-se a aspectos muito particulares da realidade — lembro de glabro, “sem barba ou sem pêlos“, ou de acusma, “alucinação auditiva”), os homônimos não existem em grande número e poderiam ser listados exaustivamente.

Depois de ter errado infrutiferamente pelos caminhos tortuosos da internet, espero que finalmente tenhas encontrado tua resposta. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo:

idéia > ideia

pêlos > pelos

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OUTRA ALTERNATIVA é pleonasmo?

É correto usar a expressão outra alternativa? Vejo muitas pessoas ilustres, na televisão empregarem constantemente esta expressão. Até na literatura ela é encontrada. Minha dúvida consiste no seguinte: como alter significa outro, não estaríamos nos repetindo?

Molisa C. – Pati do Alferes

Minha cara Molisa: sossega, que a expressão está correta. Não podes considerar o significado literal dos componentes gregos ou latinos contidos em nossos vocábulos, já completamente obliterado da consciência dos falantes, sob pena de começares a condenar combinações pacatas e consagradas. A julgarmos assim, suicidar-se seria visto como um pleonasmo, pois sui é “se”, em Latim; também seria pleonasmo falar de uma “rubrica com tinta vermelha”, pois rubrica vem de rubro. Embora eu prefira falar em “erros de grafia“, não vou condenar os que falam em “erros de ortografia“, acusando-os de contradição porque ortos, em Grego, quer dizer “correto”; e assim por diante. “Eu tinha várias alternativas; fui eliminando uma por uma, até que não me restou outra alternativa além de…” — não vejo problema algum nessa construção. As palavras são o que valem hoje, não o que valiam há dois mil anos (e ainda mais em outra língua!). Um tratante era um comerciante, um homem que fazia tratos, transações; hoje é um pilantra. A histeria era uma doença feminina (do Grego hister, “útero”), mas a Psicanálise hoje reconhece homens histéricos. E por aí vai a valsa. Abraço. Prof. Moreno

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muito provavelmente

Prezado Professor: gostaria de saber se posso escrever, nos meus laudos médicos, algo como “As áreas descritas correspondem mais provavelmente a processo degenerativo benigno”. É correto expressões como mais provavelmente, mais freqüentemente?. 

Silvio T. (médico)  — São Paulo.

Meu caro Sílvio: mais e menos são dois advérbios intensificadores que podem ser usados com VERBOS (trabalhou mais, trabalhou menos), com ADJETIVOS (mais feliz, menos feliz) ou mesmo com ADVÉRBIOS (mais longe, mais raramente). Uma coisa pode ser provável, mas outra pode ser ainda mais provável; isso acontece freqüentemente, mas pode acontecer mais freqüentemente aos sábados. 

 Não sei exatamente a estrutura do parágrafo em que pretendes usar o mais provavelmente; lembro-te apenas que o mais deve ser usado quando queremos estabelecer uma relação de comparação entre X e Y: se duas coisas são prováveis, nada impede que uma seja mais provável que a outra. 

No entanto, se quiseres (como parece o teu caso) apenas intensificar o provavelmente numa única situação (isto é, sem outro pólo de comparação), então o advérbio indicado para isso é muito, não mais. Dizer que “a doença se manifesta provavelmente por causa da exposição ao sol” é diferente de afirmar que “a doença se manifesta muito provavelmente por causa da exposição ao sol” — as probabilidades aumentaram. Se escreves “As áreas descritas correspondem muito provavelmente a processo degenerativo benigno”, estás opinando que as chances de ser exatamente assim são muito grandes. Era isso o que querias dizer, no teu laudo? Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Agora, uma recomendação: quando um usuário treinado, como é o teu caso, sentir soar uma nota falsa ao optar por uma determinada expressão, deve seguir a sua intuição e não usá-la. É mais ou menos como, mutatis mutandis, a pessoa que evita um determinado alimento porque pressente que ele vai lhe fazer mal. Se eu me submetesse a uma investigação médica, poderia um dia encontrar uma causa orgânica para a minha repugnância por manteiga; enquanto eu não faço isso, contudo, trato de me manter bem longe da bandida.

Depois  do Acordo: freqüentemente> frequentemente

pólo > polo

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muito demais

Gostaria de saber se é correto dizer, por exemplo: “estou muito cansado demais hoje”. Trata-se de um pleonasmo ou de um recurso para dar ênfase ao que se fala? 

Hélio S. — São Paulo

Prezado Hélio, confesso que nunca tinha ouvido essa expressão. No entanto, tudo me diz que ela não deveria ser usada — ao menos por escrito. Não é tanto pela possibilidade de haver aqui um pleonasmo (algumas vezes sentimos, ali, no calor da hora, que o pleonasmo é um recurso necessário para nos fazer entender); o problema aqui é uma colisão interna de dois significados. “Estar muito cansado” diz algo bem diferente de “estar cansado demais“. Faz um teste: apresenta as duas frases a dez colegas e pergunta em qual delas a pessoa parece está mais cansada. Aposto um boi gordo que a grande maioria vai responder na segunda, com o demais. Ou já não te aconteceu, algumas vezes, de ter bebido muito, e em outras, ter bebido demais? Abraço. Prof. Moreno

 

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Lições de gramática Semântica

os interiores da Bahia

Oi, tudo bem? Parabéns pelo seu trabalho, que acho muito bom. Aqui vai a  dúvida: houve uma tremenda discussão com alguns amigos sobre a palavra interior. Nós podemos falar, ou mesmo escrever, “os interiores do estado da Bahia”, ou deveria ser apenas “o interior“? Não são vários municípios, várias divisões? Afinal, não dizemos que “os interiores de uma casa foram decorados” (vários cômodos, quarto, sala , etc.)? Abraços para você, e obrigada. 

Lívia M. — Salvador, Bahia

Minha cara Lívia: interior é o lado de dentro, por oposição ao exterior. O interior do país, o interior da Bahia, o interior do crânio. Quando se fala em casa, fala-se também em interior: “o interior da casa é mais agradável”; “as mulheres costumavam ficar reclusas no interior da residência colonial”. Como jargão arquitetônico, surgiu a possibilidade de utilizar interior com um significado de “cômodo”, “peça com uma finalidade e decoração específicas”. Passou-se a falar de decoração de interiores — como tu bem notaste na tua pergunta: “A última Casa Cor apresenta vários interiores decorados por arquitetos argentinos”. Agora, no que se refere às regiões distintas da capital de um estado, falamos mesmo de interior — não importa quantos municípios caibam nesse conceito. É verdade que já vi usarem o plural, mas com um sentido de “vastidão”: “é fácil alguém desaparecer nesses interiores perdidos de nosso imenso Brasil”; no entanto, vê-se logo que estamos usando o vocábulo em sentido figurado. Abraço. Prof. Moreno

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retrônimos

Prezado Doutor: por que as cuecas samba-canção têm esse nome? 

Cíntia M. — São Paulo

Prezada Cíntia: não posso te dizer ao certo, mas tenho quase certeza de que se trata de um desses modernos retrônimos (do Latim retro, “para trás”, mais o Grego onyma, “nome”, irmão portanto de sinônimo, pseudônimo, etc.), que consistem em rebatizar alguma coisa tradicional (geralmente pelo acréscimo de um adjetivo permanente) para distingui-la de uma modificação trazida pelo progresso, que terminou roubando o seu nome: (1) havia a guitarra; (2) surgiu a guitarra elétrica; (3) esta se popularizou a ponto de passar a ser o padrão; (4) a guitarra original passou a ser chamada de guitarra acústica.

Este processo, que alguns autores também chamam de retroformação, sempre indica que a coisa designada pela expressão [substantivo + adjetivo] tornou-se rara ou fora de moda. Com a popularização dos relógios digitais, passamos a falar de relógio analógico para especificar aquele que ainda tem ponteirinhos; as mães modernas, quando trocam as fraldas de seus bebês, horrorizam-se ao ouvir falar das fraldas de pano; os alimentos congelados ainda especificam o tempo de descongelamento no forno convencional; alguns países ainda mantêm destacamentos de cavalaria montada — isso tudo sem contar a infinidade de exemplos em que entram os adjetivos natural ou integral: loura natural, parto natural, leite integral, etc. Em todos eles, houve uma sutil troca de lugar entre o que era a norma e o que era a exceção; na minha infância, distinguia-se sabão (que era em barra) do sabão em pó; hoje, ao contrário, distingue-se sabão (que presume-se ser em pó) do sabão em barra — fato que me ficou evidente quando meu filho menor achou sem sentido eu ter mandado alguém lamber sabão.

Vamos, agora, à cueca samba-canção: como homem, Cíntia, posso te assegurar que o surgimento da cueca tipo Zorba foi considerado uma revolução na moda íntima masculina. Antes dela, só existia aquela tradicional cueca de perninha, que era (e é) muito mais confortável, mas tinha um design mais apropriado para as antigas e amplas calças de tecido. Com a universalização dos jeans, a perninha da cueca mostrou ser um verdadeiro estorvo, porque terminava enrolando coxa acima; a cueca tipo sunga eliminou completamente este problema. Como o termo cueca passou, pouco a pouco, a designar o novo modelo, foi preciso rebatizar a cueca de perninha; alguém deve ter sugerido (isso me cheira a achado de publicitário; uma pesquisa histórica poderia localizar a campanha em que esse nome foi lançado) o nome de samba-canção, porque, ao menos na época, ambos eram bregas — o modelito antigo de cueca e esse tipo de samba, lembrando, aos que conhecem, os galãs das histórias pornográficas de Carlos Zéfiro, sempre com aquele bigodinho fino e aqueles cuecões. Posso apostar que houve uma campanha publicitária (nem sei se não foi da própria Zorba…), pois só assim se explica essa adoção nacional do termo. Abraço. Prof. Moreno